Convergência com a Europa

A convergência que nunca aconteceu

A convergência com a Europa, que durante uma geração foi o argumento de quase todos os governos portugueses, da esquerda à direita, acaba de ser desmentida por uma correção aritmética que ninguém quis fazer a tempo. A 22 de junho de 2026, o Instituto Nacional de Estatística reviu a população residente em Portugal para 11 424 031 pessoas a 31 de dezembro de 2025, das quais 1 597 539 de nacionalidade estrangeira, ou seja, 14,0% do total. O número importa porque a série anterior contabilizava, para 2024, apenas 177 557 estrangeiros residentes, contra os cerca de 1,6 milhões agora reconhecidos. Durante anos, o denominador com que se mediu a riqueza do país estava errado, e estava errado no sentido que mais convinha a quem governava.

A consequência é direta e não é cosmética. O PIB per capita não muda quando se corrige a população; o PIB per capita aparente muda, e muda para pior, porque o mesmo produto passa a dividir-se por mais gente. Em março de 2026, o Eurostat fixou o PIB per capita português em paridades de poder de compra em 81% da média da União Europeia para 2025. Esse valor assenta na população subavaliada. Reposta a população que o próprio INE acaba de confirmar, o indicador desce para a casa dos 77%, e o ganho que se apresentava como prova de convergência desaparece quase por inteiro. O INE já anunciou que reverá formalmente o PIB e os indicadores per capita, mas só em março de 2027, depois de revistas as contas nacionais de 2021 a 2026. A correção oficial está adiada; a direção da correção não oferece dúvidas.

A convergência com a Europa que os números não confirmam

Convém ser exato, porque a exatidão é o que falta a este debate. Em 1999, Portugal valia cerca de 85% da média europeia de poder de compra. Em 2019, valia 77,3%. Em 2025, depois de corrigida a população, vale aproximadamente 77,0%. Vinte e seis anos depois do final do século passado, Portugal está mais longe da média europeia do que estava então. E nos seis anos que separam 2019 de 2025, o período que se vendeu como o da recuperação, não convergimos rigorosamente nada. Ficámos, no melhor dos cenários, exatamente onde estávamos, e provavelmente um pouco abaixo.

O ponto que distingue esta leitura da propaganda oficial é o tratamento honesto do denominador. A subcontagem de imigrantes que agora se corrige acumulou-se sobretudo entre 2021 e 2025; em 2019 era marginal. Isto significa que o número de 2019 quase não se altera com a revisão, ao passo que o de 2025 cai com força. A comparação, longe de ser injusta para o presente, é generosa: se aplicássemos a 2019 a mesma lupa que aplicamos a 2025, a divergência recente seria ainda mais visível. A alegada convergência pós-pandemia não foi crescimento real apanhado por melhor estatística. Foi uma ilusão de denominador, sustentada por uma população que existia nas ruas, nas obras, na restauração e nos hospitais, mas não nas folhas de cálculo de Lisboa.

Tudo a favor, e mesmo assim para trás

O que torna estes números indefensáveis não é o seu nível, é o seu contexto. Portugal beneficiou, no período em causa, de um Plano de Recuperação e Resiliência de generosidade histórica, de décadas acumuladas de fundos estruturais europeus, de um ciclo turístico sem precedente, de taxas de juro próximas de zero durante boa parte do intervalo e de uma entrada massiva de imigrantes que sustentou o emprego e a atividade. Reunidas estas cinco alavancas em simultâneo, um país que quisesse convergir teria convergido. Portugal não convergiu. Não recuperou sequer a posição relativa que tinha antes da pandemia. Continua entre os mais pobres da Europa Ocidental e continua a perder terreno para economias que há pouco lhe estavam atrás.

A Roménia é o comparador que devia envergonhar qualquer responsável político português. Estava nos 26,9% da média europeia em 1999 e nos 69,1% em 2019, e prepara-se este ano para ultrapassar Portugal no padrão médio de vida. Uma economia que partiu de um quarto da média comunitária está prestes a passar à frente de um Estado-membro fundador da moeda única e beneficiário líquido de fundos há quatro décadas. Não é um detalhe estatístico. É o veredicto sobre um modelo de desenvolvimento que confundiu absorção de transferências com criação de riqueza, e turismo de baixo valor acrescentado com estratégia industrial.

O silêncio cúmplice da classe política

Nada disto apanhou os economistas de surpresa. A divergência de Portugal face à média europeia entre 1999 e 2021 está documentada há anos, e a subavaliação da população foi sinalizada por trabalho académico antes de o INE a confirmar; um estudo da Faculdade de Economia do Porto já apontava, em 2025, que a revisão demográfica empurraria o indicador de 2024 dos 81,6% oficiais para a casa dos 79%, e o de 2025 no mesmo sentido. A correção que agora se anuncia é maior do que esse estudo previa, porque a população real revelou-se ainda mais alta. Os avisos existiram. Foram técnicos, foram públicos, foram repetidos. O que faltou não foi diagnóstico. Foi vontade de o ouvir.

Aqui não há inocentes por cor partidária. Governos de centro-esquerda e de centro-direita repetiram, com a mesma desenvoltura, a narrativa da convergência, exibindo o número que lhes convinha sem perguntar se o denominador estava certo. A estatística favorável foi instrumento de campanha de uns e de outros, e o incentivo para a corrigir era nulo enquanto ela adornasse os discursos. A revisão do INE retira esse adereço a toda a gente ao mesmo tempo. É essa, talvez, a única virtude do momento: obriga a classe política inteira a olhar para um número que já não pode ser usado para fingir um sucesso que não houve.

A honestidade que se exige agora não cabe num novo fundo nem num novo slogan. Exige que se pare de medir o país pelo dinheiro que recebe e se comece a medi-lo pelo valor que cria; que se trate a produtividade, e não a transferência, como a variável que decide a convergência; e que se reconheça, sem o conforto de uma estatística inflacionada, que Portugal passou um quarto de século a andar para trás em relação à Europa enquanto se convencia do contrário. Os números deixaram de mentir. Falta saber se quem nos governa, de um lado e do outro, está disposto a deixar de mentir com eles.

E há uma conclusão que, vista da Madeira, se impõe sobre todas as outras. Se este é o desfecho do país inteiro com cinco alavancas em simultâneo a seu favor, a Região não tem o direito de esperar que a convergência lhe chegue de fora, trazida por um Estado que não conseguiu convergir sequer consigo próprio. A subsidiodependência, o hábito de medir o futuro pela verba inscrita em sede de Orçamento de Estado, é apenas a forma regional do erro nacional: confundir transferência recebida com riqueza criada. A saída não é pedir mais, é poder mais. Uma Madeira politicamente mais robusta, com competência fiscal própria que ultrapasse a estreita margem de taxa que hoje lhe é tolerada e se aproxime de modelos de pequenas economias insulares com desenvolvimento económico pujamente, e com instrumentos económicos que não dependam da boa vontade de Lisboa, é a única que pode escapar ao marasmo que estes números retratam. A alternativa é conhecida, e é lenta: definhar em boa companhia, dentro da mesma média europeia de que o país se afasta há um quarto de século. Mais vale a Região autónoma e a crescer do que acompanhada no declínio.

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