O FOMO em Portugal é um fenómeno rigorosamente seletivo. O português sofre de um medo agudo de ficar de fora, mas apenas de certas coisas. Perder o jogo da seleção é impensável. Perder a tarde de praia de Agosto, o festival de Verão, o arraial, os Santo Populares, a poncha bebida ao fim da tarde com vista para o Atlântico, tudo isso convoca multidões, filas, diretos de televisão e a mobilização espontânea de um povo inteiro. Perder o comboio do desenvolvimento, esse pode passar todos os dias na estação sem que ninguém levante os olhos do telemóvel.
Convém fixar os termos. FOMO, fear of missing out, é a ansiedade de quem teme estar ausente de uma experiência que os outros vivem. JOMO, joy of missing out, é o seu inverso exato: a satisfação serena de quem fica de fora e não se importa. O diagnóstico português cabe numa linha. FOMO para os pequenos prazeres da vida; JOMO para o destino coletivo do país.
Há FOMO quando a seleção joga, e o país para, e as bancadas dos cafés se enchem de selecionadores nacionais com opinião firmada sobre o lateral esquerdo. Há FOMO quando abre o areal, e a Via do Infante entope, e a toalha marca território ao nascer do sol. Há FOMO quando sai o cartaz do festival, e os passes esgotam em horas, ao preço de meio salário mínimo, sem que ninguém pestaneje. Há FOMO nos arraiais, nas marchas, nas romarias, na sardinha assada, no fogo de artifício pago pela câmara. Nada disto é condenável em si. Um povo que celebra é um povo vivo. O problema não está no que nos tira o sono. Está no que nos deixa dormir descansados.
Porque não há FOMO da convergência europeia. Em 2025, o PIB per capita português em paridade de poder de compra ficou em 81% da média da União Europeia, o nono mais baixo dos vinte e sete. A Polónia, que há vinte anos olhávamos com condescendência, está hoje empatada connosco. A Lituânia e a Eslovénia já seguem à frente. Estes números deviam provocar naquele povo que não admite perder um Portugal-Espanha uma comichão nacional insuportável. Não provocam nada. São notícia de rodapé entre o mercado de transferências e a previsão do tempo para o fim de semana.
Não há FOMO de um país limpo de corrupção. Os processos arrastam-se décadas, prescrevem, morrem de velhos, e a reação popular esgota-se no encolher de ombros e no «são todos iguais», que é precisamente a frase que garante que continuem a ser. Não há FOMO de escapar à armadilha do rendimento médio em que o país se instalou com conforto de reformado. O turismo representou, entre efeitos diretos e indiretos, 11,8% do PIB em 2025, e Portugal mantém o segundo maior peso da procura turística no PIB da União Europeia, atrás apenas da Islândia. Uma economia que aposta o seu futuro em camas, esplanadas e tuk-tuks é uma economia que decidiu ser criada de servir dos países que decidiram ser outra coisa. E o próprio motor já mostra fadiga: o contributo do turismo para o crescimento real do PIB caiu de 3,6 pontos percentuais em 2022 para 0,3 em 2025. Nem a monocultura rende o que rendia.
Perante isto, o português não sente que está a perder nada. Sente JOMO. Uma alegria mansa de ficar de fora da exigência, da reforma, do esforço comparado. Que a Irlanda tenha partido de trás de nós e esteja hoje entre os países mais ricos da União não desperta inveja produtiva nenhuma; desperta, quando muito, o comentário de que lá chove muito e o peixe não é fresco.
E aqui a crítica cultural tem de se tornar acusação. Esta inércia não é inofensiva nem folclórica. É uma hipoteca lavrada sobre gerações que ainda não nasceram. Cada eleição em que se vota por hábito, por clube, por medo de perder o subsídio ou simplesmente não se vota, é uma prestação dessa hipoteca. Os filhos mais qualificados que este país alguma vez formou pagam-na já hoje, a fazer pela vida em Zurique, em Amesterdão, em Londres, porque cá o mérito rende menos do que a renda de situação. Os que ainda não nasceram herdarão a dívida pública, a demografia invertida, o Estado clientelar e um aparelho produtivo especializado em mudar lençóis. Ninguém lhes perguntou nada. Fomos nós que assinámos por eles, entre um jogo e um festival.
O FOMO cívico que falta teria tradução prática e não exigiria heroísmo nenhum. Exigiria ler programas eleitorais com a mesma atenção com que se lê a convocatória da seleção. Exigiria castigar nas urnas quem prescreve, quem adia, quem distribui lugares como quem distribui rifas de quermesse. Exigiria escrutinar a execução dos fundos europeus com o rigor com que se escrutina um fora de jogo milimétrico. E exigiria admitir que um país que trata o futebol como assunto sério e o futuro como entretenimento acabará, com toda a justiça, exatamente onde merece: na bancada, a ver os outros jogar.

