Morreu esta sexta-feira, 28 de agosto, às 6h35, no Hospital Universitário de Oslo, o rei Haraldo V da Noruega. Tinha 89 anos, reinava há 35 e estava internado desde 17 de agosto com anemia hemolítica. Sucede-lhe automaticamente o filho, que reina como Haakon VIII, e a herdeira do trono passa a ser a princesa Ingrid Alexandra. Desaparece o decano dos monarcas europeus e, mais relevante para quem pensa instituições, o titular de uma coroa cuja legitimidade tem uma origem que nenhuma outra monarquia europeia partilha na mesma forma: um plebiscito.
Convém recordar essa origem. Em 1905, dissolvida a união com a Suécia, a Noruega não restaurou uma dinastia; escolheu uma. O príncipe Carlos da Dinamarca só aceitou o trono depois de o povo norueguês ser consultado em referendo, e só então tomou o nome de Haakon VII e o lema que os seus sucessores mantiveram, Alt for Norge, tudo pela Noruega. O avô de Harald V foi, em rigor, um rei eleito.
Harald nasceu em 1937, em Asker, o primeiro príncipe nascido em solo norueguês desde Olavo IV, em 1370. Tinha três anos quando a Alemanha ocupou o país. A mãe levou-o, com as irmãs, primeiro para a Suécia e depois para os Estados Unidos, enquanto o pai e o avô acompanharam o governo norueguês no exílio em Londres. A recusa de Haakon VII em legitimar a ocupação fixou de vez o contrato entre a dinastia e o país: a casa real norueguesa não vive de mística, vive de conduta. Foi esse capital, e não qualquer direito divino, que Harald herdou em janeiro de 1991, à morte de Olavo V.
A forma como o assumiu é eloquente. A coroação foi suprimida da Constituição norueguesa em 1908; Olavo V substituiu-a em 1958 por uma bênção na catedral de Nidaros, em Trondheim, e Harald e Sonja, por vontade própria, retomaram em 1991 essa cerimónia de consagração, com tradições que remontam à Idade Média. A sequência tem lógica interna: onde a unção fundava o poder, a bênção limita-se a acompanhá-lo. O poder propriamente dito presta juramento perante o Storting, nos termos do artigo 9.º da Constituição, como agora fará Haakon VIII. A liturgia ficou; o fundamento mudou de sítio.
O mesmo instinto explica as duas decisões pessoais que definiram o reinado. A primeira foi o casamento: recusou sucessivas candidatas da nobreza europeia para casar com a namorada dos tempos de escola, Sonja Haraldsen, uma plebeia, com quem viveu 57 anos de casamento. A segunda foi a recusa em abdicar. Beatriz dos Países Baixos saiu em 2013, Alberto II da Bélgica no mesmo ano, Juan Carlos I em 2014, Margarida II da Dinamarca em 2024. Harald entendia que o juramento prestado ao Storting vincula para a vida, e cumpriu-o até esta madrugada, recusando seguir o exemplo dos monarcas que abdicaram nos últimos anos. Pode discutir-se qual das duas doutrinas serve melhor a instituição; não pode discutir-se a coerência de quem trata a coroa como um cargo e o cargo como um dever.
A sucessão que agora se abre confirma a mesma gramática. A revisão constitucional de 1990 introduziu a primogenitura absoluta para os nascidos depois dessa data, razão pela qual Ingrid Alexandra precede o irmão na linha do trono. Também aqui a Noruega legislou cedo e sem dramatismo, tratando a Casa Real como matéria de direito constitucional corrente e não como relíquia subtraída ao legislador.
O essencial fica dito em poucas proposições contínuas. A monarquia norueguesa nasceu de uma votação, sobreviveu pela conduta do titular em 1940, dispensou a coroação em favor do juramento parlamentar e ajustou a sucessão por revisão constitucional ordinária. Harald V geriu esse património durante 35 anos sem o gastar. Haakon VIII recebe-o intacto, com o mesmo lema e o mesmo credor: Alt for Norge, e o povo a quem a coroa, em 1905, pediu licença.

