Bullying Orçamental

No passado debate quinzenal de 14 de Fevereiro de 2018, Sua Excelência António Costa, Primeiro-Ministro do XXI Governo Constitucional, teve a ousadia de afirmar que o “aumento de uma décima do défice público em 2017, motivado pelas contas da Região Autónoma da Madeira (RAM), não terá “consequências dramáticas para o Estado” e que “nada devemos à Região Autónoma da Madeira, pelo contrário essa região fica a dever a todos nós o agravamento do défice público de 2017”.

Claramente que afirmações destas só poderiam ser do líder de um partido que teima em acorrentar as Regiões Autónomas a um regime de “subsídio-serviência” perante o Governo da República.
Claramente que afirmações destas só poderiam vir do líder de um partido que não defende um regime fiscal próprio para a Região Autónoma da Madeira, como forma desta adaptar a fiscalidade às condicionantes económicas imposta pela ultraperiferia evitando que a Madeira seja um estorvo no Orçamento da República.
Claramente que afirmações destas só poderiam vir do líder de um partido que menospreza uma das principais fontes de receita da Madeira, o Centro Internacional de Negócios da Madeira (CINM), pondo assim em causa a sustentabilidade das contas públicas regionais, em linha com duas senhoras deputadas que se sentam no Parlamento Europeu e que têm contribuído para denegrir a imagem do CINM.
Claramente que afirmações destas só poderiam vir do líder de um partido que vive da propaganda e não dos factos, ignorando estudos que ilustram que se a Região tivesse um sistema fiscal próprio, semelhante ao CINM, poderia ter garantido um superávit de 1,7 biliões de euros no quinquénio 2005-2010 (Pinto Correia, 2012).
Claramente que afirmações destas só poderiam vir do líder de um partido que prefere ver a Região Autónoma da Madeira agarrada a um sistema fiscal e jurídico arcaico em vez de proporcionar as ferramentas constitucionais adequadas para que a Região possa encarar o seu futuro de forma sustentável, contribuindo assim para o todo nacional.
Claramente que afirmações destas só poderiam vir do líder de um partido que acha digno da sua posição atacar uma Região Autónoma e os seus eleitores, não só em virtude dos poderes que lhe são constitucionalmente consagrados, mas também porque o Governo desta é de cor diferente do Governo da República.
​Vossa Excelência pensa que a Madeira deve à República Portuguesa, mas é exatamente o oposto, é a República, por falta de visão e vontade daqueles que a representam em São Bento, que deve à Madeira.
Há muito que Vossas Excelências poderiam ter evitado as Transferências de Orçamento de Estado e a influência das Regiões Autónomas no défice do Estado se a estas lhes tivessem garantido plena autonomia fiscal, como fizeram com Macau nos últimos anos de administração portuguesa.
​Em vez disso preferem exercer um regime de “bullying” orçamental do que ter Regiões Autónomas financeiramente auto-suficientes. Situação, aliás, que “envergonharia” a República se tal autonomia fiscal viabilizasse o financiamento do Governo central.

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