Defending Europe

Sensações

No último Domingo de Advento, o ÖVP (PPE) publicou uma imagem com dados de uma sondagem segundo a qual 66% dos inquiridos consideram o convívio com muçulmanos “mau ou muito mau”. A reação foi imediata: os seus parceiros de coligação, o SPÖ (S&D) e o NEOS (ALDE), acusaram o partido de racismo, enquanto “multiculturalismo europeu”. A acusação, porém, diz mais sobre o empobrecimento do debate europeu do que sobre a imagem em si.

Há uma confusão deliberada, e hoje quase estrutural, entre descrição sociológica e prescrição moral. Uma sondagem não cria realidades; descreve percepções. Classificar a divulgação de um dado incómodo como “racismo” é recusar-se a discutir o problema substantivo: o que acontece quando a integração exige a renúncia dos valores da sociedade que acolhe?

A Europa não é um espaço neutro, nem um mero território administrativo. É uma civilização moldada por séculos de direito romano, cristandade secularizada, Iluminismo e liberalismo constitucional. A igualdade jurídica entre homens e mulheres, a liberdade de consciência, a primazia da lei civil sobre a lei religiosa e a separação entre esfera espiritual e poder político não são detalhes culturais: são pressupostos estruturais da ordem europeia.

É aqui que a ideologia multicultural falha. Ao tratar todas as culturas como equivalentes e intercambiáveis, ignora um facto elementar da filosofia política clássica: nem todas as tradições são igualmente compatíveis com sociedades abertas. Algumas religiões, pense-se no Budismo ou no Confucionismo, apresentam uma relação essencialmente não normativa com o poder político. Outras, pelo contrário, contêm pretensões jurídicas, sociais e políticas que entram em choque direto com o constitucionalismo europeu.

Dizer isto não é atacar pessoas; é reconhecer limites civilizacionais. A integração não pode significar que a Europa abdique do seu núcleo normativo para acomodar práticas que negam a liberdade individual, relativizam a igualdade jurídica ou subordinam o direito comum a códigos religiosos. Uma sociedade que deixa de se exigir a si própria deixa, inevitavelmente, de poder integrar quem quer que seja.

A acusação de racismo funciona hoje como um atalho moral, útil para silenciar questões legítimas sem as enfrentar. Mas uma Europa que se recusa a discutir a compatibilidade cultural, jurídica e institucional da imigração em massa não está a ser generosa, está a ser irresponsável. Não apenas para com os seus cidadãos, mas também para com os próprios imigrantes, a quem promete uma integração impossível.

O verdadeiro debate não é entre “abertura” e “fechamento”. É entre continuidade civilizacional e dissolução por abdicação (graças ao “multiculturalismo europeu”). E nesse debate, os números não falam por si, mas avisam. Ignorá-los, em nome de uma moralidade abstrata e performativa, é o caminho mais curto para a fragmentação e polarização social que todos fingem querer evitar.