Quo vadis Madeira?

O mundo está em constante mutação, e os “hábitos económicos” da revolução industrial não se coadunam com a revolução tecnológica dos dias hoje, quase que impossível de acompanhar.

Se é verdade que a inteligência artificial (“AI”) pode se tornar na maior “ameaça à existência da Humanidade” é certo que muito antes disso irá revolucionar os moldes da economia mundial e as relações de trabalho de uma forma que hoje em dia é muito difícil de antever. Neste cenário um tanto quanto dantesco resta-nos a esperança de que a inovação seja correctamente liderada por todos os stakeholders.
Neste período de transição compete aos governos e sociedade civil pensarem o futuro a longo prazo, não num horizonte meramente eleitoralista única e exclusivamente orientado para o curto prazo, mas sim num horizonte temporal a 10, 15 ou até mesmo 20 anos.
Urge repensar não só, como as relações económicas e laborais podem ser afetadas por esta revolução económica, mas também que medidas são necessárias tomar a nível do sistema educativo, financeiro e económico para que o mesmo sirva todos os agentes económicos para que todos beneficiem do potencial latente desta revolução tecnológica.
De que forma podem os sistemas de ensino servir os educandos para que estes sejam integrados numa economia onde são necessárias competências para resolução de problemas que ultrapassam o mero conhecimento académico de uma disciplina estanque? De que forma está a ser preparada a atual força de trabalho para a sua eventual dispensa e substituição por máquinas (veja-se o exemplo dos supermercados e das cadeias de fast-food com as suas caixas automáticas)?
No meio de todas estas questões pertinentes encontra-se a população da Região Autónoma da Madeira. Quais as estratégias que o Governo Regional pretende adoptar para preparar a população da Madeira para a maior revolução económica e tecnológica de sempre? Como pretende o Governo Regional, nas suas limitadas capacidades, assegurar uma transição pacífica e sustentável para a “economia do futuro”?
É certo que um sistema fiscal próprio e um maior número de poderes legislativos daria muito jeito para a revolução tecnológica que se avizinha. Mas num cenário em que nós Madeirenses estamos privados dos mesmos, seremos incapazes de lidar com uma mudança tão drástica e que será transversal a todos o setores, em especial o dos serviços.
Para quem pensa que a revolução tecnológica não chegou, então tenham em atenção aos exemplos acima dados e considerem também os seguintes: a digitalização dos serviços do Estado e da moeda, a gestão automática de reservas no setor do turismo, o facto de multinacionais utilizarem AI para analisarem contratos (em detrimento da contratação de advogados), a AI do Google criar uma nova versão de si própria que é a referência a nível mundial e sem qualquer forma de intervenção dos engenheiros da empresa, etc…
Enquanto a classe política Madeirense anda a tratar de “estradas e canis” e a pensar no próximo arranjo eleitoral, em vez unanimemente defender uma Autonomia Plena para poder adaptar a Região de forma sustentável aos novos tempos que se avizinham, países como Malta já dão os primeiros passos para o futuro e começam a legislar sobre criptomoedas e o setor do fintech.
O mundo autómato está aí, compete à classe política e sociedade civil madeirenses pensarem mais além e se perguntarem: quo vadis Madeira? O futuro chegará mais depressa do que imaginam e se não incluir todos não haverá legitimidade eleitoral que salve o político madeirense, ou português.
in Jornal da Madeira (Edição Especial de Ano Novo 2018)

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