A proclamação solene segundo a qual o Presidente António José Seguro se dispõe a ser “Presidente de todos, todos, todos os portugueses” merece algo mais do que aplauso automático. Merece exame. Não por hostilidade pessoal, mas por higiene intelectual, essa virtude cada vez mais rara na vida pública portuguesa.
Enquanto Monárquico, e tendo anulado conscientemente o meu boletim de voto, não posso deixar passar sem crítica esta fórmula litúrgica da república contemporânea. Não porque a ideia de unidade seja em si condenável, mas porque, na política real, as palavras nunca são neutras, e algumas escondem mais do que revelam.
Quando o Presidente António José Seguro afirma representar igualmente os que votaram nele, os que votaram noutros candidatos, os que não votaram e até os que optaram por não votar, está a praticar um exercício clássico de nivelamento moral. Tudo passa a valer o mesmo. A escolha consciente, o voto crítico, a abstenção apática e a recusa deliberada são fundidos numa só categoria emocional: “os portugueses”.
É aqui que a retórica republicana revela a sua fragilidade estrutural. Igualdade perante a lei não é o mesmo que indistinção moral. Confundir ambas é uma tentação permanente dos regimes que precisam de justificar a sua legitimidade a cada ciclo eleitoral. A Monarquia, precisamente por não depender desse ritual recorrente, nunca precisou de fingir que todas as atitudes cívicas são equivalentes.
Anulei o meu voto não por preguiça nem por protesto pueril, mas por convicção política: não reconheço no sufrágio moderno a fonte última da autoridade. E objecto que essa recusa seja transformada, por decreto retórico, numa adesão tácita ao regime.
Há algo profundamente revelador no facto de o Presidente António José Seguro incluir explicitamente, no seu abraço institucional, os que “optaram por não votar”. É o gesto máximo do republicanismo tardio: transformar a ausência em virtude, a renúncia em opção moralmente confortável.
Ora, o voto anulado, ao contrário da abstenção pura, é um acto político positivo. Exige presença, exige gesto, exige intenção. É a recusa de escolher dentro de um quadro considerado ilegítimo ou insuficiente. Colocá-lo no mesmo plano da indiferença cívica ou é um erro conceptual ou é uma conveniência política.
Uma comunidade política que saúda “por igual” quem assume responsabilidade e quem dela foge está, no fundo, a desincentivar o compromisso. É a pedagogia do mínimo esforço aplicada à vida pública.
O problema central da afirmação do Presidente António José Seguro não é de tom, mas de filosofia política. A república moderna acredita que a legitimidade nasce do instante: um dia de votos, um resultado, uma proclamação. A partir daí, tudo se reconstrói como se o passado fosse um incómodo e o futuro uma folha em branco.
A tradição monárquica, da qual não abdico, ensina o oposto: a autoridade nasce da continuidade, a legitimidade da forma, e o poder da limitação consciente de si mesmo.
Um Monarca reina para todos, sem dúvida. Mas não reina em nome de todos, nem precisa de fingir que todos concordam. A sua função simbólica é precisamente recordar que o poder não é propriedade momentânea da maioria, mas responsabilidade herdada e transmitida.
Há, na frase do Presidente António José Seguro, um traço típico do nosso tempo: o chefe de Estado como figura terapêutica. Não arbitra, não orienta, não representa uma ordem, apenas consola. Saúda. Inclui. Harmoniza.
Mas a política não é um grupo de apoio emocional. É conflito ordenado, escolha trágica, hierarquia funcional. Um Presidente que se define, antes de tudo, como “de todos” corre o risco de ser, na prática, irrelevante para o destino coletivo, pois evita, desde logo, qualquer critério substantivo.
Recorde-se de que os regimes igualitários acabam sempre governados por minorias muito concretas, precisamente porque recusam falar de hierarquias à luz do dia. A neutralidade proclamada é apenas o disfarce de uma escolha não assumida.
Ao anular o meu voto, não pedi absolvição republicana nem abraço institucional. Pedi apenas coerência. Não quero ser “representado” por quem precisa de me dissolver numa massa indiferenciada para legitimar o seu cargo.
Prefiro a franqueza austera da autoridade assumida à ternura pegajosa do consenso vazio. Prefiro uma ordem política que reconheça diferenças, deveres e limites a uma que se limite a repetir fórmulas sentimentais.
O Presidente António José Seguro pode, legitimamente, desejar unir o país. Mas a unidade verdadeira não nasce de frases simétricas nem de saudações universais. Nasce de uma visão clara da ordem política, da coragem de distinguir e da humildade de reconhecer que nem todos os cidadãos consentem da mesma forma, nem pelo mesmo motivo.
A Coroa, ao menos, nunca precisou de fingir que todos estavam de acordo. Bastava-lhe lembrar que o poder não é um prémio, mas um fardo, e que governar não é agradar, mas responder perante a história.

