guerra na Ucrânia

Paz (Todos Falharam)

Numa guerra não existem vencedores nem vencidos, existe apenas sofrimento e perda de vidas humanas de ambos os lados. O mais recente conflito que assola a Europa é puro reflexo do “trabalho de casa” que tanto a Europa, como a Ucrânia e a Rússia recusaram fazer para prevenir um conflito, que, retrospectivamente, era evitável.

A elite russa recusa viver nos dias modernos, vive obcecada com uma grandeza imperial/soviética impossível de alcançar nos dias de hoje. Vive obcecada com a aquisição suficiente de território que lhe permita ter fronteiras naturais que impeçam uma invasão que nunca acontecerá (pois ocupa ⅛ de área inabitada do Planeta Terra). Esta obsessão doentia é alimentada por uma corrupção que impede os russos de verem o seu país crescer económica e socialmente (o PIB da Rússia é quase tão grande como o PIB da Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo somados) e que procura manter os que estão no poder por via do conflito e da culpabilização de inimigos externos fictícios, sempre que o sucesso em território nacional começa a ser abalado. Esta mesma corrupção e obsessão atira jovens, muitos deles com apenas 18 anos e sem treino militar, para o teatro de guerra, como carne para canhão para um conflito em que não acreditam.

Por seu turno a elite ucraniana, também ela corrupta (veja-se os relatórios da E&Y, das missões diplomáticas dos EUA, da Transparency International, e os artigos do The Guardian sobre este infeliz tema), não pode deitar as culpas da invasão apenas no seu vizinho. Após a sua independência falhou o óbvio: a situação ideal para a Ucrânia era ficar entre a UE e a Rússia. Ou seja, deveria ter aderido livremente e desde cedo às instituições económicas, culturais e políticas da Europa ao mesmo tempo que deveria ter reconhecido o seu elo histórico com a Rússia. A Ucrânia deveria ter garantido a sua própria defesa nacional, sem ameaçar a Rússia, ou se tornar alvo de agressão da Rússia (não precisando de aderir à NATO). Falhou em aprender com a independência de Singapura, pois aquando da independência desta tanto a Malásia e a Indonésia a viam como seu território histórico.

A corrupção, e o facto de ignorarem o middle path necessário à sobrevivência da Ucrânia, impediram o país de se tornar rapidamente capaz de se defender, sem ameaçar o seu vizinho. Singapura, por seu turno, teve até a audácia de conseguir que os israelitas a treinasse, disfarçando-os de mexicanos. O “tudo ou nada” adotado pela corrupta elite Ucraniana, impediu-a de construir verdadeiras alianças económicas e políticas com o Ocidente, ao mesmo tempo que poderia ter reconhecido que fazia parte da esfera cultural e histórica russa. O russo poderia ter continuado como uma das línguas nacionais e os de etnia russa poderiam ter tido um lugar especial na constituição do país. As lições da independência de Singapura face à Malásia foram ignoradas no contexto ucraniano.

As falhas e falta de visão da elite ucraniana contribuíram para que o país se encontre no estado lastimável em que está agora, enfrentando um conflito que desfaz famílias, que desfaz gerações e que destina homens entre os 18 e os 60 anos, muitos deles sem treino militar em situação de conflito real, como carne para canhão.

Por fim, falhou também a elite Europeia. Os avisos dos Estados-Membros com fronteira com a Rússia foram ignorados; foi ignorada a violação do direito internacional aquando da invasão da Crimeia; foi ignorada a exacerbada dependência da UE face a matérias-primas russas; foi ignorado o facto de que a Democracia Liberal só se defende atuando a uma só voz contra qualquer violação dos Direitos Humanos e do direito internacional; foram ignorados os rios de dinheiro russo vertidos nos partidos e movimentos de extrema-direita europeus que colocam em causa a unidade social e os direitos alcançados, em especial os das minorias. Pode mesmo dizer-se que desde a independência da Ucrânia, que a UE se limitou a assistir em vez de tomar uma posição clara sobre todos estes assuntos.

A Paz será de novo alcançada quando todos reconhecerem as suas respectivas falhas e se sentarem à mesma mesa como gente crescida e não como crianças de um infantário a disputar um brinquedo. A coexistência é essencial à Europa e ao Mundo.

Que o Imperador-Beato Carlos I da Áustria-Hungria rogue pela paz entre os povos.

“Ainda há tempo para a boa vontade, ainda há tempo para a negociação.” – Sua Eminência Piero Parolin, OMRI, LVI Cardeal Secretário de Estado da Santa Sé a 24 de Fevereiro de 2022.

in JM-Madeira

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *