Certas causas, de tanto serem envolvidas em sentimentalismo, acabam privadas da única coisa que as poderia tornar respeitáveis: a forma. O problema da Palestina não é, em primeiro lugar, um problema de emoção, de indignação ritual ou de gestos diplomáticos para consumo doméstico. É, antes de tudo, um problema de ordem política e de realidade jurídica. A Confederação Suíça, com a sua habitual sobriedade, virtude hoje raríssima entre Estados intoxicados por teatralidade moral, recusou acompanhar a vaga de reconhecimentos apressados da Palestina e insistiu no essencial: uma solução de dois Estados continua a ser o horizonte legítimo, mas o reconhecimento não pode substituir a própria existência efetiva do Estado que se pretende reconhecer.
É precisamente aqui que se separa a diplomacia séria da liturgia ideológica. Em 2025, vários Estados decidiram reconhecer a Palestina na Assembleia Geral das Nações Unidas, entre eles a França e o Reino Unido, com o resultado politicamente expressivo de quatro dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança passarem a reconhecer a Palestina; os Estados Unidos ficaram como a única exceção entre os cinco. Mas uma multiplicação de reconhecimentos não resolve, por si, o problema da estatalidade. O direito internacional não funciona por aclamação, como um congresso partidário; continua a depender, ainda que com elasticidade política, de critérios de efetividade e de capacidade institucional.
A posição suíça merece, por isso, ser defendida não apenas como prudente, mas como civilizacionalmente superior. Berna mantém o apoio à solução de dois Estados nos parâmetros das Nações Unidas, assente nas fronteiras de 1967 e com Jerusalém Oriental como capital de um futuro Estado palestiniano. Contudo, a diplomacia suíça acrescenta aquilo que tantos governos ocidentais preferem esquecer: o reconhecimento deve inserir-se num processo político credível, acompanhado de medidas concretas que garantam simultaneamente a segurança de Israel e o direito dos palestinianos à autodeterminação. A própria representante suíça, Monika Schmutz Kirgöz, afirmou em julho de 2025 que o reconhecimento é intrínseco a uma paz duradoura, mas apenas no contexto de passos concretos de implementação da solução de dois Estados. Isto é linguagem de Estado, não de palco.
Ora, o que fizeram algumas potências europeias? Converteram o reconhecimento num instrumento de pressão política, quase num castigo simbólico dirigido a Israel, como se a criação de um Estado pudesse ser usada como expediente retórico para corrigir um impasse estratégico. É uma tentação muito contemporânea: quando não se consegue produzir realidade, fabrica-se simbologia. França e Reino Unido escolheram esse caminho, apostando na ideia de que o reconhecimento antecipado ajudaria a “salvar” a solução de dois Estados. Mas há aqui uma inversão intelectualmente desonesta. A solução de dois Estados não se fortalece por meio da ficção diplomática; fortalece-se quando existem duas entidades políticas capazes de coexistir, governar, controlar território, responder por compromissos internacionais e monopolizar legitimamente a autoridade pública. Sem isso, o reconhecimento não é um ato de clarividência; é um gesto de autoindulgência.
Os suíços, pelo contrário, conservaram uma noção mais clássica e mais saudável do que significa reconhecer um Estado. Desde a Segunda Guerra Mundial, a Suíça tem privilegiado o reconhecimento de Estados e não de governos, preservando para si uma margem de discricionariedade política na apreciação da realidade internacional. Essa tradição parte de um núcleo relativamente simples: a estatalidade efetiva supõe território, povo e autoridade. Não basta uma reivindicação nacional, ainda que historicamente compreensível; não basta uma maioria de simpatias nas Nações Unidas; não basta sequer o sofrimento real de uma população. O Estado, essa forma política austera e exigente, reclama autoridade operacional, instituições funcionais e uma capacidade minimamente estável de agir como sujeito de direito internacional.
É justamente neste ponto que o problema da Palestina se torna incómodo para os entusiastas do reconhecimento automático. Porque a dificuldade não está em saber se existe uma identidade nacional palestiniana, existe. Também não está em negar a legitimidade de uma aspiração à autodeterminação, essa legitimidade é amplamente reconhecida, inclusive pela Suíça. A dificuldade reside em saber se, nas condições presentes, existe uma autoridade palestiniana independente, operacional e efetivamente soberana sobre um território determinado, em termos compatíveis com a ideia jurídica de Estado. Confundir aspiração nacional com estatalidade consumada é um erro não apenas analítico, mas moral: promete-se a um povo uma forma política que ainda não lhe foi verdadeiramente assegurada.
Os sentimentalistas respondem, invariavelmente, com um argumento de moda: reconhecer agora serviria para criar a realidade depois. É uma tese sedutora para espíritos revolucionários e desastrosa para espíritos constitucionais. A ordem internacional não ganha solidez quando o reconhecimento precede, de forma sistemática, a consolidação mínima da autoridade estatal; ganha antes um novo hábito de ficção, em que a linguagem do direito é instrumentalizada para fins propagandísticos. Um Estado reconhecido sem Estado efetivo degrada a própria ideia de reconhecimento. E, ao degradá-la, enfraquece também as causas legítimas que pretendia servir. A Suíça percebeu isto com uma nitidez que falta aos moralistas oficiais de Paris e Londres.
Acresce que a prudência suíça não decorre apenas de tecnicismo jurídico; decorre também de uma visão particular da neutralidade e da mediação. A câmara baixa do parlamento suíço rejeitou recentemente o reconhecimento da Palestina por 116 votos contra 66, com 11 abstenções, seguindo a posição já adotada pela câmara alta. Entre os argumentos invocados pelos opositores ao reconhecimento esteve precisamente a ideia de que, nas condições atuais, tal passo comprometeria a capacidade suíça de agir como mediadora e seria incompatível com a sua leitura da neutralidade. Pode discutir-se se essa avaliação é absoluta; o que não se pode negar é que ela exprime uma conceção de política externa fundada em continuidade institucional e não em impulsos.
Em contraste, as potências que avançaram para o reconhecimento parecem ter cedido a uma espécie de romantismo de chanceleria. Querem parecer corajosas quando, na verdade, apenas transferem para o plano simbólico aquilo que não conseguem resolver no plano real. O reconhecimento da Palestina, nestes termos, torna-se um substituto da diplomacia séria, um emblema moral agitado perante a opinião pública, mas incapaz de produzir os pressupostos concretos da paz. Não se faz nascer um Estado por decreto sentimental de capitais distantes. Não se constrói soberania por meio de gestos elegantes em Nova Iorque. E não se ajuda um povo oferecendo-lhe uma personalidade jurídica magnificamente proclamada, mas politicamente incompleta.
O problema da Palestina não se resolve multiplicando reconhecimentos prematuros, nem convertendo o direito internacional numa máquina de compensações morais. Resolve-se, se for para se resolver, com instituições, autoridade, segurança, delimitação territorial, responsabilidade governativa e um roteiro político sério. A posição suíça é correta precisamente porque resiste ao sentimentalismo e insiste na disciplina da realidade: sem território efetivamente governado, sem autoridade independente, sem capacidade institucional real, não há verdadeiro Estado, há apenas uma aspiração política, talvez digna, talvez trágica, mas ainda não consumada na forma soberana que o direito das gentes exige. E um mundo que deixa de distinguir entre o que aspira a ser e o que efetivamente é deixa, pouco a pouco, de ser um mundo de Estados para se tornar um teatro de palavras.

