Museu da Presidência da República

O Museu da Presidência e o Dia de Reflexão

A 16 de janeiro de 1852, nascia, em Lisboa, Carlos Cândido dos Reis, uma das figuras mais marcantes do movimento republicano.

Aos 17 anos, ingressa na Marinha, onde constrói uma carreira distinta antes de se envolver em sucessivas tentativas de derrube do regime monárquico.

Republicano convicto, integra a Carbonária, é iniciado na Maçonaria com o nome simbólico do histórico navegador «Pêro de Alenquer» e participa na organização de movimentos revolucionários que antecederam o 5 de Outubro de 1910.

A madrugada do 5 de Outubro fica, no entanto, marcada pela desorganização do plano militar e por informações erradas que levariam Cândido dos Reis a acreditar no fracasso iminente. Nessa convicção trágica, põe fim à própria vida poucas horas antes da proclamação da República. A sua memória, porém, perpetuou-se na história nacional e no quotidiano: da Avenida Almirante Reis, em Lisboa, à vasta toponímia espalhada pelo país.

O MPR preserva documentos e testemunhos que ajudam a compreender esta figura e o contexto que conduziu à mudança de regime, como a fotografia das honras militares prestadas aos «heróis republicanos», no átrio da Câmara Municipal de Lisboa, ou o relatório da autópsia que confirma a tese de suicídio.

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FONTE: Facebook do Museu da Presidência da República

O facto de o Museu da Presidência da República escolher partilhar este texto precisamente no chamado “Dia de Reflexão”, véspera de eleições presidenciais, não é um acaso inocente, mas um sintoma. Sintoma de um regime que, incapaz de respeitar sequer as suas próprias liturgias legais, instrumentaliza a memória histórica como propaganda cívica tardia. A República portuguesa, ao contrário do que apregoa, nunca soube distinguir entre Estado e catequese política; limita-se a suspender a campanha formal enquanto continua a doutrinação simbólica pelas vias institucionais.

Mais grave ainda é o conteúdo dessa doutrinação. A glorificação de Carlos Cândido dos Reis como “figura marcante” e “herói republicano” insere-se num culto mórbido que o regime alimenta há mais de um século: o da canonização de conspiradores, terroristas e homicidas políticos apresentados como mártires laicos. Não estamos perante simples divergências ideológicas, mas perante a exaltação de agentes morais e políticos de um processo revolucionário que culminou no regicídio de S.M.F. el-Rei D. Carlos I e no assassínio de S.A.R. o Príncipe Real D. Luís Filipe, um Chefe de Estado constitucional e o seu herdeiro, mortos a tiro em plena via pública. Um regime que se funda neste ato e ainda o celebra é estruturalmente doente.

A República portuguesa construiu, desde 1910, uma verdadeira religião civil republicana, com os seus santos (os conspiradores), os seus mártires (os suicidas da própria conspiração), os seus relicários (avenidas, topónimos, museus) e os seus dogmas inquestionáveis. Qualquer tentativa de análise crítica é imediatamente tratada como heresia cívica. A história deixa de ser objeto de estudo para se tornar instrumento de legitimação, e o assassinato político transforma-se, por via simbólica, num “ato fundador” sublimado.

Que o Museu da Presidência da República se preste a este exercício no Dia de Reflexão é apenas a confirmação final: o regime não consegue suspender a sua própria propaganda nem por 24 horas. A República não governa; evangeliza. Não administra; moraliza. E, sobretudo, não recorda a História, reescreve-a ao serviço de uma patologia política que continua a confundir violência revolucionária com virtude cívica.

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