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O Franco, o Renminbi e a Liberdade: Meditações sobre o Dinheiro Vivo

O viajante atento não esquece ao percorrer as ruas de Shanghai ou de Shenzhen: um mendigo estendido no passeio segura, não um copo de plástico para moedas, mas um cartão de QR-code impresso e plastificado. A China, a civilização milenar que inventou o papel-moeda há nove séculos, completou o círculo com uma elegância que desafia a ironia, e criou, no processo, o sistema de pagamentos digitais mais sofisticado, mais inclusivo e mais funcional que o mundo alguma vez viu. Ninguém fica de fora. Ninguém carrega carteiras volumosas. A transacção acontece em segundos, em qualquer lugar, a qualquer hora, entre quaisquer pessoas.

O Ocidente observa isto com uma mistura peculiar de fascínio e paralisia que não sabe bem como resolver.

Mas há um pormenor que os entusiastas da fintech europeia raramente mencionam quando citam o modelo chinês como inspiração: a China não aboliu o dinheiro físico. O renminbi em papel continua a circular, continua a ser aceite, continua a ser legal. O Estado chinês, com toda a sua vocação para a engenharia social, teve a sabedoria prática de não eliminar o numerário, reconhecendo que um sistema paralelo não é uma fraqueza, mas uma redundância necessária, um colchão de segurança para os momentos em que as infra-estruturas digitais falham, para os cidadãos que as não dominam, para as trocas que não precisam de registo. O que a China construiu não foi a substituição do dinheiro físico, mas sim a sua mais poderosa alternativa.

Quando os suíços, neste domingo passado, foram às urnas consagrar constitucionalmente o acesso ao dinheiro vivo, fizeram algo que vai muito além da modesta questão monetária que os comentadores apressados preferiram ver. Fizeram aquilo que as democracias liberais raramente têm a coragem de fazer: escolheram deliberadamente preservar uma camada de liberdade concreta e irredutível, e fizeram-no com a solenidade de quem inscreve um princípio na pedra. Não na lei ordinária, revogável por uma maioria passageira, mas na constituição, esse documento que aspira à perenidade.

A liberdade é sempre para alguém, tem um rosto, um nome, um corpo que a exerce. A liberdade abstracta, desencarnada, é uma ficção ideológica. O dinheiro físico é, neste sentido, uma das formas mais concretas da liberdade: não requer intermediários, não pede autorização, funciona durante um apagão, uma crise bancária, uma catástrofe natural. É o último recurso do cidadão quando todas as infra-estruturas falham. A Suíça compreendeu isto e gravou-o na sua lei fundamental.

Mas seria um erro filosófico, e uma pobreza de espírito, concluir daqui que o digital é inimigo da liberdade. O modelo chinês demonstra precisamente o contrário: que um sistema de pagamentos digital, quando bem construído e profundamente integrado na vida quotidiana, pode ser um instrumento extraordinário de inclusão, de eficiência e de soberania nacional. O camponês da província do Sichuan, o vendedor ambulante de Guangdong, o estudante de Beijing, todos participam na mesma economia com a mesma fluidez, sem fricção, sem exclusão. Isto não é desprezível. É, em muitos aspectos, admirável.

O erro não está em escolher um ou outro. O erro está em acreditar que a escolha é obrigatória.

O que a Suíça e a China nos ensinam, lidos em conjunto e com honestidade intelectual, é que uma civilização madura não abandona camadas de funcionamento apenas porque surgiu uma nova. O automóvel não eliminou o caminhar. A electricidade não aboliu as velas de emergência. A escrita não destruiu a memória oral. Cada tecnologia acrescenta; só a ideologia subtrai. E é precisamente a ideologia, sob a forma de religião da eficiência total, do registo universal, da transparência forçada, que ameaça eliminar o numerário no Ocidente, não por necessidade técnica, mas por um furor modernizador que confunde simplificação com progresso.

A solução inteligente é ter ambos. Um sistema digital robusto, integrado, acessível a todos, que permita a fluidez das trocas quotidianas. E, em paralelo, uma garantia constitucional, como a Suíça, de que o dinheiro físico permanece disponível, aceite e protegido. Não como relíquia sentimental, mas como seguro civilizacional. Como âncora de liberdade residual.

Os suíços votaram pela ancoragem. Os chineses construíram a ponte, e tiveram a sabedoria e prudência milenares de não demolir a margem de onde partiram. Uma civilização que soubesse aprender com ambos não precisaria de escolher entre a modernidade e a liberdade, descobriria que são, afinal, compatíveis.

Que o resto da Europa tenha a inteligência e a humildade de perceber a lição, antes que a percam.

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