Desde o malfadado dia 5 de Outubro de 1910 que a dita “República” Portuguesa vive numa espécie de limbo entre a laicidade e a religiosidade, fazendo uso de ambos os sistemas sempre que aos interlocutores políticos lhes convêm, pois em momento algum a Constituição desta “República” a declara como sendo laica.
No entanto, numa Constituição onde se prevê a clara separação entre as Igrejas e o Estado e onde se prevê que “ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual”, verifica-se uma soberba predileção estatal pelo Catalocismo, apesar de 12% não professarem esta religião.
Na sua peculiaridade que a torna ridícula, e através dos seus órgãos de governo, a “República” explora até ao limite a religiosidade dos Católicos portugueses com objectivo de, não só assegurar votos, mas também com o intuito de aplacar uma eventual oposição adicional por parte da Igreja Católica-Romana.
Desde as iluminações e decorações de Natal, passando pelas decorações relativas a outros eventos religiosos em pleno espaço público, até ao apoio incondicional da maioria da classe política relativamente ao aspecto religioso de Fátima ou do Papa, fazem do Catolicismo a religião oficial de facto de Portugal.
Ora não podendo o Estado Português discriminar seja quem for com base na sua religião, ou falta dela, os políticos, vivendo num ecumenismo de fachada sem escrúpulos evitam sequer reconhecerem publicamente as demais religiões, exceptuando a eventual visita à Mesquita Central de Lisboa.
Porque razão os políticos só fazem mensagens de Natal ou de Ano Novo? Onde está a mensagem de Ramadão, de Ano Novo Chinês, de Diwali ou da Páscoa Judaica? Políticos por todo o mundo o fazem mostrando, e vincando, a inclusividade do Estado face a todos os seus cidadãos e independentemente de possuirem estatutariamente uma religião oficial, sendo o melhor exemplo de todos o caso britânico. No caso do Reino Unido, onde a Igreja oficial é a Igreja Anglicana, o Primeiro-Ministro em funções tem sempre uma mensagem para as principais datas importantes dos cidadãos que professam outra religião que não o Cristianismo.
Mas os exemplos não acabam aqui. Nos Estados Unidos da América, a separação das Igrejas e do Estado garante, através das jurisprudência definida através de casos em tribunal, que nenhum espaço público é utilizado para celebrar o Natal a menos que seja dado um espaço, mais ou menos equivalente, para que outras religiões possam exibir os símbolos associados aos seus eventos que ocorram na quadra mais ou menos correspondente à do Natal.
Ainda que não existam sistemas perfeitos, o Estado Português não pode viver única e exclusivamente do Catolicismo, ainda que 81% da população seja não praticante. Compete ao Estado Português, através dos seus múltiplos interlocutores, encontrar um equilíbrio entre as tradições católicas do país, as quais importam preservar enquanto parte da nossa matriz identitária e por motivos turísticos, e a inclusão de 12% da população residente em Portugal que professem, ou não, um outro sistema de crenças.
Numa altura e numa quadra onde somos cada vez mais sensibilizados para a importância de incluir todos é importante referir que nem só de Natal vivem os Portugueses e nem só de votos de contribuintes Católicos vivem os políticos portugueses.
in Jornal da Madeira (Edição Especial de Natal 2017)

