É curioso, ou antes, deliciosamente previsível, observar como certas “grandes investigações” ganham vida apenas quando o calendário político assim o exige. A empresa em causa, Boslova, não chegou ontem, não caiu dos céus numa noite eléctrica sobre o Funchal, nem brotou de uma falha sísmica entre as Ajudas e a Rua dos Murças. Chegou em 2014. Repito: 2014. Mas, misteriosamente, só agora, exactamente quando se discute o Orçamento de Estado, é que a SIC descobre esta preciosidade arqueológica escondida no Registo Comercial. Há alinhamentos planetários menos perfeitos.
O ritual é sempre o mesmo, e já tem a previsibilidade litúrgica de um missal republicano: pega-se num caso antigo, aquece-se com um banho morno de urgência jornalística, e volta-se a apontar o holofote para o alvo favorito do país centralista, a Zona Franca da Madeira (erradamente apelidado de offshore da Madeira). Nunca interessa perguntar por onde passou o dinheiro, que banco abriu contas, quem fez o KYC ou quem reportou (ou não) à UIF. Isso implicaria escrutinar instituições com almofadas mais confortáveis do que qualquer sala comercial na Rua dos Murças. É mais simples reciclar o eterno vilão: a Madeira.
Mas a tríade é velha: quando o país precisa de distrair-se dos seus próprios fracassos estruturais, a culpa é sempre do “offshore da Madeira” (interno), nunca do sistema financeiro que processa fundos, nunca das autoridades nacionais que supervisionam, nunca de um Estado que legisla e, sobretudo, nunca de um jornalismo que acorda tarde e escolhe cuidadosamente os seus alvos. E, ironicamente, aqueles que se mostram subitamente inquietos com a “opacidade internacional” ignoram com diligência as origens e redes das suas próprias elites, que participam em retiros de influência e encontros discretos onde o cardápio de ideias vem já pré-temperado. Não vá alguém pronunciar “Bilderberg” e estragar a coreografia.
Convém recordar, num país onde a indignação é frequentemente performativa, que a Madeira não tem competências de supervisão financeira. Não licencia bancos, não congela contas, não verifica origem de fundos, não aplica sanções europeias e não conduz investigações transnacionais. Tudo isso pertence ao Estado português e às autoridades europeias: Banco de Portugal, UIF/PJ, Autoridade Tributária, BCE e EUROPOL. A Região regista empresas, tal como qualquer conservatória da República; quem movimenta dinheiro é a banca, e é nela que residem a responsabilidade (assumindo que os Advogados e Contabilistas Certificados envolvidos cumpriram com os seus deveres legais de identificação e diligência, controlo interno, comunicação de operações suspeitas, abstenção/recusa, conservação, exame, colaboração e formação), e o eventual falhanço.
Os grandes esquemas de branqueamento que abalaram a Europa, Global Laundromat, Azerbaijani Laundromat, Troika Laundromat, Danske Bank, envolveram bancos dos Bálticos, Londres, Chipre, Dinamarca. Apenas os Panama e os Pandora Papers referem a Madeira, e quanto a esta investigação os jornalistas relembram: “Existem utilizações legítimas para empresas offshore e trusts”.
A tentativa de inserir a ilha num romance de espionagem global revela, na maioria dos casos, mais imaginação do que factos.
Claro que existem problemas reais na Região: desafios sociais, económicos, e deficiências de escrutínio político. Mas transformá-la num tabuleiro da guerra Rússia/Ucrânia ou numa lavandaria geopolítica é fugir da realidade e abraçar o conforto da superstição moderna, a inverificável e conveniente. A Boslova é de 2014.
A reportagem é de 2025. O que mudou? Nada, excepto o contexto político. E, como sempre, quando Lisboa precisa de um bode expiatório para mascarar as suas insuficiências, a Madeira paga as favas. A história repete-se: primeiro como “urgência jornalística”, depois como instrumento de distração nacional. Quem quiser acreditar em coincidências, que acredite. Eu prefiro acreditar em padrões.

