Grandes citações que atravessam géneros literários e épocas políticas porque captam um padrão estrutural do poder. Na magnum opus de Herbert, a histeria é mais que um estado emocional coletivo; é um instrumento de governação. No Imperium a ignorância não nasce espontaneamente, esta é cultivada ao longo de gerações. E o poder imerecido não se mantém por mérito, mas sim por manipulação.
Se deslocarmos esta lente analítica para o presente, torna-se difícil não reconhecer elementos semelhantes na administração de Donald Trump e em diversos movimentos da extrema-direita europeia, como o Rassemblement National em França, a Alternative für Deutschland na Alemanha, o Vox em Espanha, ou Chega em Portugal. Não se trata de equiparar contextos institucionais distintos, mas de identificar uma gramática comum: a política da histeria como método de acesso a poder.
A histeria política não é mero excesso retórico, é antes uma técnica. Consiste em amplificar ameaças, simplificar conflitos complexos e polarizar o espaço público de modo a reduzir o debate racional a uma lógica binária: nós contra eles.
Na experiência trumpista, esta técnica manifestou-se de forma recorrente: a imigração apresentada como invasão, a imprensa como “inimiga do povo”, os adversários políticos como traidores existenciais. O objetivo não é apenas mobilizar uma base eleitoral, mas também saturar o espaço informativo com ruído emocional. Quando tudo é emergência, nada é analisado com serenidade.
Na Europa, o padrão repete-se com variações locais. A União Europeia é descrita como tirania burocrática; as políticas climáticas como uma conspiração contra o “povo produtivo”; a imigração como a derradeira ameaça civilizacional. A complexidade jurídica, económica e demográfica é reduzida a slogans. A histeria substitui a análise.
Herbert antecipou esta lógica: a ignorância prospera quando a emoção descontrolada impede a verificação dos factos e a ponderação crítica. A histeria não exige provas, apenas adesão incondicional.
A segunda citação é ainda mais incisiva: “The undeserving maintain power by promoting hysteria.” O poder imerecido, entendido aqui não em termos morais subjetivos, mas como défice de competência, de coerência programática ou de respeito institucional, sobrevive melhor em ambientes de constante agitação.
Quando o eleitorado está permanentemente alarmado, a avaliação racional de políticas públicas torna-se secundária. O debate sobre défices orçamentais, sustentabilidade da segurança social, estrutura produtiva ou enquadramento constitucional perde centralidade face a narrativas de urgência identitária.
Na administração Trump, assistiu-se a um confronto sistemático com instituições tradicionais de mediação democrática: tribunais, imprensa, agências federais. Na extrema-direita europeia, observa-se frequentemente uma retórica semelhante de suspeição sobre tribunais constitucionais, órgãos de comunicação social e até sobre os próprios resultados eleitorais quando desfavoráveis.
O ponto não é negar o direito à crítica institucional, essa é parte essencial de qualquer democracia saudável. O ponto é distinguir crítica fundamentada de erosão sistemática da confiança pública como estratégia de poder. A histeria é eficaz porque dissolve a autoridade epistemológica: se nada é fiável, tudo é possível.
A histeria prospera também porque oferece explicações simples para frustrações reais. Desindustrialização, precariedade laboral, pressão sobre serviços públicos e insegurança cultural são fenómenos concretos. Ignorá-los seria irresponsável. Mas instrumentalizá-los é outra coisa.
A extrema-direita, tanto nos Estados Unidos como na Europa, tem sabido canalizar ressentimentos legítimos para narrativas que personalizam e externalizam a culpa: o imigrante, Bruxelas, a elite cosmopolita, o “globalismo”. O resultado é uma mobilização emocional intensa que dispensa soluções estruturais complexas.
Em termos estratégicos, trata-se de um ciclo desvirtuoso:
- Amplifica-se uma ameaça.
- Gera-se indignação.
- Apresenta-se o líder como único defensor do povo.
- Desqualificam-se críticas como parte da conspiração.
Este modelo cria lealdade afetiva, em detrimento de uma lealdade racional. E lealdade afetiva é menos volátil do que apoio programático.
Há, contudo, um paradoxo inevitável: estes movimentos operam dentro de sistemas democráticos que pressupõem pluralismo, alternância e liberdade de expressão. A histeria que promovem depende da própria liberdade que, por vezes, insinuam restringir.
A questão central não é proibir, censurar ou excluir, pois seria repetir o erro em sentido inverso. A questão é restaurar a primazia da argumentação racional e da responsabilidade institucional. Democracias maduras não sobrevivem apenas com eleições; sobrevivem com cultura cívica, literacia mediática e exigência crítica.
Se a ignorância prospera na histeria, a resposta não pode ser contra-histeria. Deve ser serenidade informada. O combate não é contra eleitores, é contra métodos.
O mérito da ópera espacial e política de Herbert reside em ter compreendido que o poder raramente se apresenta como tirania explícita. Muitas vezes surge como espetáculo emocional permanente.
A administração Trump e vários movimentos da extrema-direita europeia demonstraram como a histeria pode ser convertida em capital político. Não porque os seus eleitores sejam irracionais, mas porque a emoção, quando continuamente estimulada, reduz o espaço para o escrutínio técnico.
A advertência permanece atual: onde há histeria constante, a ignorância encontra terreno fértil. E onde a ignorância se instala, o mérito deixa de ser critério suficiente para o exercício do poder.
A escolha, portanto, é entre a política como gestão responsável de conflitos complexos e a política como dramatização permanente de ameaças existenciais, a diferença é a própria qualidade da democracia.


Um artigo a publicar.