exames nacionais

Exames Nacionais

Quando alguém invoca o “sistema finlandês sem testes” (o mesmo é dizer sem exames nacionais) como exemplo absoluto, revela sobretudo desconhecimento do próprio modelo. A Finlândia não aboliu o rigor académico; reorganizou-o. A principal avaliação finlandesa, o National Matriculation Examination, é extremamente exigente, condiciona seriamente o acesso ao ensino superior e é reconhecida internacionalmente pela sua dificuldade. A ausência de testes frequentes não significa ausência de avaliação. O que existe é uma combinação de monitorização contínua, disciplina social elevada, forte homogeneidade cultural e uma preparação docente de elite. Nada disto existe no contexto português.

Por isso, comparar Portugal com a Finlândia é intelectualmente preguiçoso. A Finlândia parte de pressupostos sociológicos, culturais e demográficos que não são replicáveis: famílias altamente escolarizadas, desigualdade mínima e um capital cultural de base incomparável. É precisamente por isso que países que enfrentam realidades mais complexas (Singapura, Coreia do Sul, Japão, China) recorrem a testes regulares (e exames nacionais), porque sabem que, sem aferição objetiva, a escola torna-se um mecanismo de ilusão, não de mobilidade social.

Quem invoca a Finlândia para combater avaliações regulares ignora que estes países de topo PISA partilham um traço comum: exigência. A divergência está apenas no instrumento. Uns aplicam-na através de testes regulares; outros através de um exame nacional brutal; mas em ambos os casos há métricas claras, autoridade professoral e cultura de responsabilidade académica.

O discurso anti-avaliação que por cá circula não pretende melhorar a escola; pretende dissolver a exigência. Ao contrário da Finlândia, que construiu o seu modelo em cima de professores altamente prestigiados e altamente selecionados, o que certos comentadores defendem aqui é apenas a continuação da erosão da autoridade docente e o nivelamento por baixo do mérito. Não querem um sistema finlandês: querem um sistema sem rigor.

A educação das sociedades mais avançadas mostra que a exigência não é um resquício do passado; é a condição mínima para gerar literacia sólida. É por isso que a invocação superficial da Finlândia, desligada do seu contexto real, não serve para justificar a mediocridade dos modelos que por cá se tenta impor.