Pode soar a blasfémia aos ouvidos modernos, mas há verdades que precisam de ser ditas, mesmo quando o coro da unanimidade as tenta abafar.
O turismo não é um desígnio nacional. É uma ferramenta. Um instrumento passageiro que, por excesso de uso, se tornou vício.Portugal, iludido por cifras e rankings, confundiu movimento com progresso, enchendo praias e hotéis como se isso fosse sinónimo de prosperidade. Mas não é. O turismo é uma fonte rápida de liquidez, não uma estrutura de civilização.
Dependência é a palavra certa: dependência de fluxos voláteis, de modas estrangeiras, de economias alheias. Um país que vive à mercê do capricho do visitante abdica da sua soberania económica e da sua dignidade produtiva.
A pandemia foi apenas o espelho dessa fragilidade. Bastaram fronteiras fechadas para se ver que o nosso motor económico era um balão cheio de vento quente. E, em vez de aprendermos, voltámos ao mesmo, o culto da “temporada alta”.
Enquanto isso, os setores que poderiam garantir futuro, indústria, energia, ciência, agricultura, são relegados para o rodapé das prioridades.
O turismo deveria servir de ponte para a diversificação, não de substituto da inteligência económica. Uma nação não se constrói vendendo-se como cartão-postal, mas criando, produzindo e inovando.
Chamar a isto visão estratégica é confundir a festa com o império. E, se esta reflexão soa herética, que o seja, porque há pecados piores do que a heresia: o da cegueira satisfeita.

