A poucas semanas do arranque oficial da campanha para as eleições provinciais do Quebeque, marcadas para 5 de Outubro de 2026, várias candidaturas LGBT+ denunciam uma vaga de mensagens homofóbicas e transfóbicas que já inclui ameaças de violência física. O fenómeno atravessa todos os grandes partidos quebequenses e não é um acidente do sistema representativo: é a expressão mais crua do princípio identitário da democracia de massas. A resposta não passa por mais democracia, mas por mais limite.
O pormenor que explica tudo o resto
Há um pormenor circulado na Presse Canadienne fez circular a 8 de Agosto que vale por toda a peça jornalística posteriormente publicada sobre o tema e que quase toda a gente leu sem reparar nele.
Philippe Schnobb foi jornalista. Foi, depois, presidente da empresa de transportes públicos de Montreal. Foi, entretanto, cidadão comum. Em nenhuma dessas condições recebeu insultos homofóbicos. Em Janeiro deste ano apresentou-se como candidato do Parti Québécois em Sainte-Marie–Saint-Jacques (a circunscrição do Village, onde disputa o lugar com Roxane Milot, presidente do Québec Solidaire e ela própria bissexual) e desde então recebe insultos regularmente. Alguns já não são insultos: são ameaças. Num comentário às suas redes sociais, um anónimo escreveu-lhe, entre obscenidades e uma ameaça de agressão sexual, que o esperava um pau de dois por quatro.
Não mudou o homem. Não mudaram as suas opiniões, a sua competência ou a sua vida privada. Mudou o modo pelo qual pretende aceder ao poder. Enquanto exerceu funções por nomeação, por contrato ou por mérito profissional, a sua pessoa não estava em causa. No dia em que se submeteu à contagem dos votos, passou a ser objecto do juízo das massas, e as massas, quando julgam, raramente julgam currículos.
Porque é que a democracia de massas produz este tipo de ódio
Erik von Kuehnelt-Leddihn passou meio século a insistir num ponto que quase ninguém quis ouvir: liberdade e democracia não são a mesma coisa e, em certos regimes de tensão, entram em conflito aberto. A democracia moderna, escrevia em Liberty or Equality (1952), assenta no princípio identitário, isto é: a exigência de que governantes e governados sejam idênticos, de que o poder seja a encarnação fiel da vontade geral rousseauniana. Se a legitimidade de quem governa nasce da sua identidade com o povo, então quem não é idêntico é, por construção lógica, suspeito de ilegitimidade. A liberdade exige diversidade. O número, entregue a si mesmo, exige semelhança.
Não é preciso subscrever a monarquia dos Habsburgos para reconhecer que o velho cavaleiro austríaco tinha aqui razão. O século XX não foi devastado por dinastias sonolentas, mas por movimentos de massas, comícios, plebiscitos e urnas. O ódio, entre 1922 e 1945, não desceu de nenhum trono: subiu da praça.
E é da praça que sobe agora. Aquilo a que o Québec Solidaire chama uma vaga de dimensão «excepcional» e «inquietante» não é um desvio do sistema: é a sua tentação mais natural, expressa em estado bruto por quem não tem o pudor de a dissimular. Dizer a um candidato que ele não é dos nossos, e que por isso o espera um pau à porta de casa, é reivindicar para uma parte da população o monopólio do ius honorum, a capacidade de exercer cargos públicos, e fazê-lo valer por intimidação privada. É a substituição do magistrado pelo linchador.
O ódio não tem partido
Quem se sentir tentado a arrumar isto no armário confortável das culpas alheias tem, no mesmo despacho, o antídoto. Foi uma candidata do próprio Québec Solidaire, Vanessa Durand, que teve de retirar a candidatura depois de publicar comentários odiosos contra apoiantes LGBT+ do partido adversário. Apagou a publicação, pediu desculpa e saiu.
O episódio é decisivo, e não incidental. A pulsão identitária não é propriedade de uma família política: pertence à multidão, e forma-se em qualquer lugar onde haja um nós a defender e um eles a punir. Charles Milliard, líder do Partido Liberal do Quebeque, é assumidamente homossexual; Éric Duhaime, líder do Partido Conservador, também. Ambos recebem mensagens de ódio. Segundo os liberais, até candidaturas heterossexuais recebem insultos homofóbicos pelo simples facto de militarem num partido liderado por um homem gay. Quem esperar salvação da etiqueta partidária está a esperá-la do lugar errado.
As redes sociais como plebiscito permanente
As redes sociais são o plebiscito tornado permanente. Aquilo a que Montesquieu e Tocqueville chamavam corpos intermédios, ou seja, as instituições que filtram, temporizam, obrigam ao escrutínio de pares e impõem a mediação de alguém que responde pelo que diz, foram desmantelados peça a peça. O que resta é uma assembleia contínua sem magistrado, onde se vota todos os dias por aclamação e por insulto, e onde nenhum voto tem custo.
A investigação empírica confirma-o de forma quase insolente. O relatório da Chaire UNESCO-PREV, publicado em Maio de 2026, mostra que a adesão ao conspiracionismo não recuou com o fim da pandemia: progrediu entre 2021 e 2025, concentrada nos homens dos 18 aos 34 anos, e sobretudo em torno da imigração, do género e do ambiente. O politólogo David Morin acrescenta o essencial: a componente principal deste ecossistema já não é sequer o conspiracionismo, mas a postura anti-instituição e anti-elite; e é no Quebeque que a desconfiança perante o governo provincial mais cresceu.
A doença não é o excesso de crença. É a ausência de mediação.
Não, a culpa não é da imigração
Seria comodíssimo, num país europeu em Agosto de 2026, explicar a homofobia quebequense pela imigração. Os dados não o permitem. O GRIS-Montréal recolheu mais de trinta e cinco mil questionários em escolas secundárias entre 2017 e 2024, e a directora de investigação do organismo é categórica: a degradação do conforto perante a diversidade sexual é mais marcada entre os não-religiosos; os alunos católicos progridem mais depressa nesse desconforto, mas representam apenas 17,5% da amostra; e os dados não mostram muçulmanos mais homofóbicos do que os demais. A homofobia prospera também, e sobretudo, em meios maioritariamente brancos e secularizados.
Acrescente-se que os jovens magrebinos do Quebeque são interceptados pela polícia quatro vezes mais do que os restantes. Quem usar este dossiê para opor uma minoria a outra estará apenas a operar o mesmo mecanismo que diz combater, com outro bode expiatório.
O que dizem os números
Convém não exagerar na direcção contrária. Os dados do Statistique Canada referentes a 2024 mostram que os crimes de ódio contra a orientação sexual desceram 26%, para 658 casos, enquanto os que visam a identidade ou expressão de género subiram 8%, para 139, perfazendo, assim, o quarto ano consecutivo de aumento e quase o triplo de 2020. As atitudes, essas, degradaram-se sem ambiguidade: segundo a Léger, a proporção de quebequenses que se declaram abertos à diversidade sexual e de género caiu de 78,6% para 71,7% em menos de uma década.
A resposta é mais limite, não mais democracia
A conclusão prática é conservadora no sentido exacto do termo.
Foi o que o Quebeque fez em Dezembro de 1977, sob o governo de René Lévesque, a Assembleia Nacional emendou a Carta dos Direitos e Liberdades da Pessoa para proibir a discriminação em razão da orientação sexual (oito anos antes do Ontário, vinte antes de Otava), tornando-se primeira jurisdição da América do Norte a fazê-lo. Em 2016 acrescentou-lhe a identidade e a expressão de género. O valor de uma Carta não está na retórica que a acompanha: está em subtrair matéria ao voto. O que ali está deixou de estar em campanha.
Há um segundo limite, que é a lei penal, e sobre o qual me permito discordar de quem é a vítima. Philippe Schnobb declarou não tencionar, por agora, processar o autor das ameaças. É humanamente compreensível e civicamente mau. A lei que não é invocada não dissuade ninguém e transfere para o agredido o encargo de suportar aquilo que o Estado existe para punir. Os grupos de apoio e as acções de formação que os partidos quebequenses montaram para as suas candidaturas são caridade organizada perante uma falha de justiça: úteis, e insuficientes.
Três concessões
A primeira é histórica: estes direitos não foram arrancados à democracia por uma instância superior. Foram votados por uma assembleia eleita, e votados cedo, à frente da opinião pública do seu tempo. Foi o parlamento, não o tribunal, não o príncipe, que se antecipou.
A segunda é institucional: a ordem hierárquica que Kuehnelt-Leddihn preferia protegeu minorias quando lhe conveio e entregou-as quando não conveio. A tutela dos poucos pelos bem-nascidos não é mais fiável do que uma maioria constitucionalmente amarrada.
A terceira é de que Erik von Kuehnelt-Leddih, um ncatólico tradicionalista dos anos cinquenta, não subscreveria a causa destes candidatos, e seria desonesto fingir o contrário. Subscreveria, isso sim, a premissa de onde tudo decorre: a de que a dignidade de uma pessoa não se apura por sufrágio. É essa premissa, e não as preferências dele em matéria de costumes, que aqui faz todo o trabalho.
A 5 de Outubro o Quebeque conta. Conta bem, conta livremente e conta num quadro legal que muitos países mais antigos deviam invejar. A pergunta que separa uma república de uma multidão não é se a contagem é limpa. É qual a matéria que nunca devia ter entrado nela.
Fonte: esQrever

