O médico foi pago em farinha de milho. Um saco dela, levado montanha abaixo até Robert F. Thomas, que subira através da neve de janeiro de 1946 até uma cabana de uma só divisão em Locust Ridge para fazer nascer a quarta do que viriam a ser doze filhos. Era o preço corrente naquela parte do condado de Sevier, onde o dinheiro era um rumor e uma dívida se saldava com aquilo que a terra tivesse dado por último. Contou a história toda a vida, com o sentido de tempo de quem sabia exatamente quanto ela valia. Fixava, numa única imagem, a distância que tinha percorrido. Fixava também o hábito mental que governou tudo o que veio depois: soube sempre o preço das coisas.
Sabia, por exemplo, quanto tinha custado o casaco da mãe. Nada, no sentido em que o pátio da escola entendia a palavra. Avie Lee cosera-o com trapos de uma caixa de roupa doada e, enquanto cosia, contou-lhe a história de José e da sua túnica, de modo que a criança entrou na escola com uma peça que tinha por certo fazer dela a rapariga mais rica do condado. As outras crianças encarregaram-se de a esclarecer. Quase toda a gente teria enterrado aquela manhã. Ela pô-la num disco em 1971, manteve o andamento suave, cantou-a na voz da rapariga e não na da mulher, e deixou que a humilhação fizesse o seu próprio trabalho. Os trapos tinham valorizado.
Depois havia a questão do aspeto, montado cedo e de propósito. O modelo foi a mulher a quem na terra chamavam a perdida: a água oxigenada, as unhas vermelhas, as saias justas, toda a arquitetura. Para uma criança de Locust Ridge era simplesmente a coisa mais bonita disponível, e o facto de a congregação desaprovar apenas tornava as contas mais claras. Meio século depois, quando os entrevistadores chegavam com as suas perguntas cuidadosas sobre se as perucas não prejudicariam a seriedade, a resposta estava sempre à espera. Custa muito dinheiro parecer tão barata. Não era autodepreciação. Estava a passar-lhes a fatura.
Partiu para Nashville no dia seguinte ao de ter acabado a escola secundária, a primeira dos Parton a chegar tão longe, com os haveres em cartão. No primeiro dia na cidade, um rapaz à porta de uma lavandaria disse-lhe que ia apanhar um escaldão. Casaram dois anos depois e ficaram casados cinquenta e nove anos, durante os quais Carl Dean assentou asfalto, evitou todas as máquinas fotográficas que pôde e, pelo que se sabe, não a viu atuar em público mais do que uma mão-cheia de vezes. Morreu na primavera de 2025. Ela falou muito pouco sobre isso, e era isso, precisamente, que ele lhe tinha sempre dado.
Porter Wagoner pô-la no seu programa de televisão em 1967 e o público vaiou-a, porque queria a mulher que ela vinha substituir. Ficou sete anos, fez a segunda voz, usou os vestidos, e quando se foi embora não fez discurso nenhum. Escreveu-lhe uma canção, uma que lhe agradecia e não lhe deixava nada contra que argumentar, e partiu. Ele processou-a na mesma. Elvis Presley quis a canção; o preço do Coronel Tom Parker era metade dos direitos de edição. Ela chorou a noite toda e disse que não. É a recusa mais rentável da história da música popular americana, embora nunca a tenha apresentado assim. Limitou-se a não vender uma coisa que tinha feito. Quando Whitney Houston a cantou em 1992, o dinheiro chegou em quantidades que envergonharam a indústria, e ela gastou uma parte bem visível dele no condado de onde tinha vindo.
As piadas sobre loiras achou-as úteis e não ofensivas, pela razão que expôs com clareza: sabia que não era burra, e sabia também que não era loira. Por baixo da construção estava a compositora mais produtiva da sua geração, algures acima das três mil canções, duas das mais conhecidas escritas, segundo ela, no mesmo dia. «Jolene» tem três minutos, um vocabulário que uma criança dominaria, e é das poucas canções na língua inglesa que implora a uma rival em vez de a amaldiçoar. Escreveu-a a respeito de uma funcionária de banco que se tinha interessado pelo marido. Ela ficou com uma obra-prima; a funcionária não ficou com nada, o que parece justo.
Robert Lee Parton não sabia ler nem escrever. Foi este o facto que organizou a segunda metade da vida dela. Em 1995 começou a enviar livros gratuitos, um por mês, a todas as crianças do condado de Sevier desde o nascimento até à idade escolar, e depois a crianças de outros condados, outros estados, outros países, até o total passar os duzentos milhões e as crianças que os recebiam lhe chamarem a Senhora dos Livros sem saberem que alguma vez tinha cantado. O pai viveu o suficiente para ver aquilo a funcionar. Dizia que, de tudo o que tinha construído, vê-lo perceber para que serviam os livros era a parte que guardaria.
Toda a gente a quis alistar. Os evangélicos reclamaram-na pelos hinos, as drag queens pela silhueta, as feministas por «9 to 5», que escreveu num cenário de filmagens batendo as unhas de acrílico umas nas outras para marcar o ritmo, e que continua a ser o único número um da história composto sobre uma manicura. Recusou-os a todos com a mesma cortesia, com o fundamento declarado de que tinha tantos amigos de um lado como do outro, e de que não estava no negócio de perder metade do público para ganhar uma discussão. Foi lido como evasão por gente que nunca teve de vender um bilhete. Era, na verdade, uma disciplina, e manteve-a durante sessenta anos.
Em 2020 deu um milhão de dólares ao centro hospitalar universitário de Vanderbilt, que aplicou parte dele na investigação que veio a dar uma vacina. O alarido embaraçou-a moderadamente. Deu entrada no mesmo hospital na passada sexta-feira com problemas renais e autoimunes, e morreu em Nashville na terça-feira, tendo sobrevivido ao marido dezassete meses e ao médico, ao pai e ao casaco bastante mais.
Concorreu uma vez a um concurso de sósias de Dolly Parton e perdeu. Gostava de contar isto mais do que quase tudo o resto, porque confirmava aquilo que ela sempre soubera e que todos os outros tinham lido mal: que o cabelo e as unhas e os brilhantes não eram vaidade mas guarda-roupa, vestidos por uma mulher trabalhadora saída de uma cabana que estudara o mercado com cuidado e se avaliara exatamente por aquilo que valia.
Todos os meses, ainda hoje, cai um livro no capacho de uma casa nalgum vale perdido, endereçado a uma criança demasiado pequena para o ler, que crescerá, quiçá, sem nunca saber de quem foi a ideia. Ninguém vem cobrar. Não há saco de farinha de milho para descer a montanha. Não se deve absolutamente nada.

