Do gigante político comunista

Desde 1950 a 2010 que as denominadas “elites do mundo ocidental” têm defendido a democracia como o derradeiro sistema capaz de verdadeiramente libertar o potencial de desenvolvimento socioeconómico de uma nação, porém existe uma “pedra no sapato” que tira o sono às elites: a República Popular da China.

Em apenas 30 anos, a China passou de uma país agrícola pobre para a segunda maior economia do planeta. De 1981 a 2008, 81% da atenuação da pobreza a nível mundial ocorreu na China. E tudo isto através de um sistema que não garante o direito ao voto a 99,43% da sua população (as excepções são Macau e Hong Kong).
Embora o Ocidente se afirme, através das lentes da democracia, que o sistema “socialista com características chinesas” seja operacionalmente rígido, politicamente fechado e moralmente ilegítimo, o mesmo é adaptável, meritocrático e legítimo quando analisado através da concepção chinesa do Estado de Partido Único.
A adaptabilidade do Partido Comunista Chinês (PCC) traduz-se, não só nas políticas em larga escala de que este é capaz de implementar, mas também na capacidade que este tem em rapidamente corrigir as suas políticas e regras falhadas.
Quanto à meritocracia esta é de facto um dos grandes trunfos do PCC. Através do Departamento de Organização do PCC (DOPCC), desconhecido por muitos, o sucessor do antigo Sistema Imperial de Exames, seleciona, avalia e promove mais de um milhão de funcionários partidários, políticos e empresariais por forma a garantir a gestão eficiente do país.
Ao funcionar como uma gigante máquina de gestão de recursos humanos intersetorial, o DOPCC avalia, não só a performance dos funcionários nos respectivos cargos, como também conduz entrevistas aos seus superiores, inferiores e pares hierárquicos juntamente com inquéritos de opinião sobre os mesmos antes de proceder a qualquer promoção.
Num processo que pode levar mais de 30 anos de carreira, o DOPCC garante que nenhum membro do Politburo ou do Comité Central chega à esfera do partido sem ter performances positivas em termos de gestão política, empresarial e social, numa escala que envolve milhões de pessoas e de yuans.
Por seu turno, a legitimidade do sistema político chinês assenta na competência dos titulares dos cargos e na satisfação da população chinesa relativamente ao curso da governação do país, largamente assente numa base reativa, que ausculta permanentemente a população ao nível das diferentes divisões administrativas e através de um amplo e constante sistema de inquéritos de opinião. O PCC adapta-se e renova-se constantemente para responder às necessidades e preocupações da população. Ainda que o patronato e a corrupção, em alguns casos, sejam um problema, a competência e as provas dadas em termos governativos são os derradeiro fatores que determinam a progressão na hierarquia do PCC, e consequentemente do Estado.
Dois sistemas, democracia e socialismo com características chinesas, fica agora ao critério de cada um qual o que funciona melhor nos dias de hoje. Porém, falhar em perceber como funciona o último é deitar a perder qualquer relação frutuosa que se queira estabelecer com a China dos dias de hoje.

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