monarquia

Da Importância da Monarquia

Orwell já compreendia aquilo que muitos críticos modernos ainda se recusam a ver: a monarquia não é uma relíquia que compete com a democracia no mesmo patamar, mas antes um antídoto estrutural para as suas patologias. Ao separar a autoridade simbólica do poder efectivo, a monarquia constitucional priva a política da embriaguez emocional que tantas vezes transforma a soberania popular em idolatria em massa. Enquanto as repúblicas precisam de sacralizar presidentes, partidos ou o próprio “povo”, as monarquias absorvem com segurança a necessidade de ritual, continuidade e lealdade numa figura que não governa.

É precisamente aqui que Erik von Kuehnelt-Leddihn vai além de Orwell. Recorda-nos, comparativamente e empiricamente, que os regimes mais assassinos da era moderna foram as repúblicas, e não as monarquias. Fascismo, nacional-socialismo, leninismo, maoísmo: todos surgiram de sistemas que fundiram o poder com a legitimidade ideológica e a participação das massas. A monarquia, por outro lado, é de natureza antitotalitária. É pessoal sem ser populista, hierarquizada sem ser ideológica e estável sem ser mobilizadora.

Dizer que a monarquia “não tem lugar no mundo de hoje” não é, portanto, uma afirmação histórica séria; é um reflexo moral nascido do igualitarismo democrático, que pressupõe, sem provas, que a uniformidade é virtude e a novidade é progresso. Como Kuehnelt-Leddihn observou com acidez, a democracia não elimina a adoração do poder; apenas a democratiza, disseminando o desejo de dominação entre partidos, movimentos e líderes messiânicos. A monarquia limita este impulso ao recusar-se a fingir que a sociedade pode ser perfeitamente horizontal.

A verdadeira questão, então, não é se a monarquia é moderna, mas se a modernidade se mostrou capaz de contenção sem ela. Neste aspecto, o registo histórico é implacável. As monarquias constitucionais estiveram entre as ordens políticas mais livres, pluralistas e menos violentas dos últimos dois séculos, não apesar das suas coroas, mas em grande parte por causa delas.

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