Estratégia cultural da China

Da China para o Mundo

Todos os anos a CCTV (China Central Television) difunde, para mais de mil milhões de telespectadores, a Gala de Ano Novo, vulgarmente apelidada de Chunwan. O Chunwan (春晚) é um espectáculo de variedades, que inclui números de música, dança, comédia e drama, sendo para muitas famílias chinesas, incluindo emigrantes chineses, um ritual a observar na véspera do Ano Novo Chinês.

Mas o Chunwan é muito mais que cerca 270 minutos de entretenimento, é um programa televisivo nascido em 1983 quando a China e o Reino Unido negociavam intensamente o futuro da atual Região Administrativa Especial de Hong Kong, sendo por isso um projeto do Departamento de Publicidade do Comité Central do Partido Comunista da China (Zhongxuanbu – 中宣部). E este ano não foi excepção. O Chunwan do Ano do Dragão, que ocorreu no passado dia 10 de Fevereiro, voltou a transmitir de forma sublime uma mensagem, ou carta de intenções, da China para o Mundo, combinando exímia e esteticamente o folclore, e as artes clássicas chinesa e ocidental, comunista, militar e contemporânea.

A primeira mensagem emitida pelo Zhongxuanbu é a de que a iniciativa Cinturão Económico da Rota da Seda e a Rota da Seda Marítima do Século 21 (絲綢之路經濟帶和21世紀海上絲綢之路) continua viva e é uma prioridade do Governo da República Popular China. Esta mensagem ficou patente pelo fato da capital da Província de Shaanxi (陕西), Xi’An (西安市 – literalmente “A Paz Ocidental”), ter sido uma das quatro cidades co-anfitriãs, para além de Pequim, da gala e ter sido promovida não só como a “capital da nova e antiga rota da seda”, mas também como cidade literária, aludindo à passagem, pela mesma cidade, do famoso poeta Li Bai (李白:701–762), traduzido para português pelo sinólogo António Graça de Abreu em 1990.

Para além da iniciativa da Nova Rota da Seda, a China quis passar uma mensagem de harmonia inter-étnica e de respeito pelo legado cultural que cada uma das 55 etnias traz à tapeçaria que é a cultura Chinesa. Não é por isso de estranhar que o Zhongxuanbu tenha escolhido como co-anfitriã Kashi (喀什市), cidade milenarmente famosa pelo seu oásis, localizada na Região Autónoma Uigur de Xinjiang (新疆維吾爾自治區) e conhecida como “A Pérola da Rota da Seda”. Kashi foi decorada, para o Chunwan, ao estilo das “Mil e Uma Noites” para promover as suas danças tradicionais ao som de uma música cantada em mandarim por cantores Uigures e Hans, enquanto a atriz uigure Dilraba Dilmurat (迪麗熱巴·迪力木拉提 – دىلرەبا دىلمۇرات) dançava ao som da mesma.

De Kashi, saltamos para Changsha (長沙), com uma população de mais de 10 milhões de habitantes, a capital da Província de Hunan (湖南) e a casa de duas zonas de desenvolvimento económico e tecnológico (zonas francas especializadas) dedicadas à alta tecnologia, biotecnologia e à indústria de novos materiais, as quais são peças de um xadrez económico que pretende o desenvolvimento desta província sem litoral por via da integração económica desta com as suas vizinhas: Guangdong (廣東) e as Regiões Administrativas Especiais de Macau (澳門特別行政區) e de Hong Kong (香港特別行政區).

Por último, mas não menos importante, a cidade de Shenyang (瀋陽) foi a outra co-anfitriã da noite, por razões não tão óbvias à primeira vista. Shenyang, com uma área metropolitana de 23 milhões de habitantes e inserida na Província de Liaoning (遼寧), é um importante centro industrial na China e é a cidade central da Nova Zona Especial de Reforma dedicada às indústrias pesada aeroespacial e de defesa, sendo também a cidade mãe dos principais caças da Força Aérea do Exército de Libertação Popular (中國人民解放軍空軍).

Ao longo Chunwan assistimos ainda à promoção do poderio naval do Exército de Libertação Popular (中國人民解放軍) com a transmissão de imagens do porta-aviões Liaoning e dos submarinos nucleares; o eterno piscar de olho a Taiwan com o sempre presente ilusionista taiwanês Liu Qian (劉謙); e a utilização, com sucesso, de música rap em pelo menos cinco números musicais como forma de aproximar Millennials e Geração Z ao Partido Comunista Chinês. No entanto, a mensagem mais marcante pode ser encontrada na letra da música, intitulada “Sem Ti”, cantada pela aclamada tibetana Han Hong (韓紅 – དབྱངས་ཅན་སྒྲོལ་མ་): “os ombros de ferro [do povo chinês] carregam a aspiração pelo rejuvenescimento de um país poderoso”, que o vento e a neve não podem mais ocultar. Uma alusão clara de que o Partido Comunista Chinês é o herdeiro de uma civilização e legado histórico ininterruptos com mais de seis milénios e cuja presença no mundo não pode mais ser ignorada.

in JM-Madeira