Pascal Kaiser

Cobardia Moral

O caso é simples, brutal e revelador. Um árbitro alemão, Pascal Kaiser, pediu o namorado em casamento num estádio de futebol, num momento público, festivo e absolutamente pacífico. Dias depois, não foi alvo de críticas desportivas, nem de chacota inofensiva nas redes sociais, foi agredido na sua própria casa. Não à porta do estádio, não numa rua anónima, mas no espaço privado por excelência, aquele que o direito europeu, o constitucionalismo liberal e a civilização ocidental sempre trataram como inviolável.

Este é o facto. Tudo o resto são racionalizações.

O que se seguiu, porém, foi quase tão perturbador quanto a agressão contra Pascal Kaiser: uma cascata de comentários a tentar explicar, relativizar ou enquadrar o crime como consequência previsível de um gesto “excessivo”. Comentários do tipo: “quem se expõe assim corre riscos”, “qual a necessidade?”, “ninguém tem de levar com isto”, “passear as plumas”. Não ditos por marginais declarados, mas pelo “comum” dos cidadãos, muitas vezes convencidos de que estão a defender o bom senso, a discrição ou uma suposta neutralidade moral.

É aqui que o caso deixa de ser apenas criminal e passa a ser revaldor do nosso estado civilizacional.

Porque não estamos a discutir se o pedido de casamento foi elegante, oportuno ou do agrado do espectador médio. Estamos a discutir se a visibilidade pacífica de um gesto pessoal pode ser usada como atenuante moral para a violência. E quando a resposta começa a inclinar-se perigosamente para o “talvez”, o problema já não é o gesto, é a sociedade.

Convém dizê-lo sem rodeios: um pedido de casamento num estádio não é um ato político, nem um manifesto ideológico, nem uma provocação. É um ritual social antigo, banalizado, repetido à exaustão em transmissões televisivas, redes sociais e eventos públicos, desde que protagonizado pelo casal “certo”.

A transformação súbita desse mesmo gesto em “exibição”, “afirmação” ou “ostentação” revela que o incómodo não está no ato, mas no sujeito que o pratica.

E mesmo que alguém considere o gesto de mau gosto, e a liberdade inclui o direito ao mau gosto, isso continua a ser moralmente irrelevante perante o que aconteceu depois. A agressão não ocorreu no espaço público, onde os fracos gostam de fingir que a violência é um risco difuso da vida moderna. Ocorreu no domicílio. No lugar onde a ordem jurídica começa e onde a barbárie, em teoria, termina.

Quem diz “expôs-se” está a dizer, implicitamente, que a segurança deixou de ser um direito e passou a ser um privilégio condicionado ao comportamento aprovado pela maioria. É a lógica da chantagem social: sê discreto ou aceita as consequências. Não é prudência; é terror suave, exercido por quem nunca se vê obrigado a praticar a própria invisibilidade.

E quando alguém declara, com ar superior, “a mim não me interessa com quem cada um tem intimidade”, convém responder com honestidade: interessa, sim. Interessa tanto que foi comentado. Interessa tanto que foi julgado. Interessa tanto que se sentiu necessidade de enquadrá-lo, minimizá-lo, ridicularizá-lo. A verdadeira indiferença passa em silêncio; não escreve parágrafos justificativos após uma agressão.

Quanto ao célebre “passear as plumas”, estamos perante o vocabulário clássico da desumanização. Reduz-se o outro a caricatura, a extravagância, a ruído visual. E quando se aceita esse vocabulário, aceita-se também, ainda que de forma oblíqua, que a violência seja entendida como reação exagerada, mas “compreensível”. É assim que a brutalidade se infiltra na linguagem antes de se infiltrar nos punhos.

Este caso não é, portanto, sobre orientação sexual, futebol ou redes sociais. É sobre algo muito mais antigo e muito mais sério: se a liberdade pessoal ainda vale quando incomoda e se a propriedade privada ainda é sagrada quando o proprietário ousa viver sem pedir licença cultural.

Hoje foi um árbitro alemão chamado Pascal Kaiser. Amanhã será outro qualquer que “se expôs”, que “provocou”, que “não teve necessidade”. Quando a sociedade começa a fazer testes morais à vítima antes de condenar o agressor, já não estamos a discutir valores, estamos a abdicar deles.

A liberdade não exige autorização.
A casa não admite exceções.
E a violência nunca é explicável pelo desconforto alheio.

O resto é conversa para aliviar consciências e proteger os verdadeiros privilegiados: os que nunca são obrigados a justificar o simples facto de existir à luz do dia.

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