A Região Autónoma da Madeira entrou oficiosamente em “regime bolo de mel e carne de vinha-d’alhos”. A maioria dos Madeirenses e Portossantenses preparam-se agora para a Festa, tempo de celebração de Jesus Cristo e de convívio familiar onde impera a boa disposição, sempre que possível regada por uma panóplia dos tão tradicionais licores e broas.
Nesta altura, sociedade civil e classe político-institucional acalmam os ânimos e entregam-se ao convívio de Natal, recheado de jantares, ponchas e trocas de cumprimentos natalícios num jogo de cintura onde todos tentam salvar a face com um sorriso ensaiado (ou até mesmo verdadeiro).
Mas nesta época que nos é tão querida, eleitores e eleitos parecem querer fugir com o “rabo à seringa” da realidade sócio-económica Madeirense e Portosantense. O “cheiro à Festa” atua como inibidor de pensamentos sobre o futuro e as preocupações são adiadas para depois do Dia de Reis. Esta Festa certamente não será diferente.
No entanto, o carácter altamente Cristão deveria obrigar o bom fiel das tradições Católicas a refletir e a avaliar, à luz dos valores da quadra, o atual quadro sócio-económico Madeirense. Será Cristão fazer promessas e não cumprí-las?
Findos todos estes anos de Autonomia, e de digladiação entre partidos políticos, é espantoso como a Madeira não possua ainda uma clara estratégia de futuro relativamente ao desenvolvimento sócio-económico que pretende alcançar. Sim, o sistema fiscal próprio e a Autonomia Plena são fantásticos, mas um plano (e implementação do mesmo) para lá chegar nem ver.
Eleitores e eleitos contentam-se em viver numa economia insular dominada por dois setores, o turismo e o Centro Internacional de Negócios (CINM), altamente dependentes de fatores exógenos, sobre as quais não temos qualquer controlo.
Eleitores e eleitos contentam-se num sistema económico onde as expectativas para as gerações futuras assentam na emigração para o Continente (na maioria dos casos dos quadros altamente qualificados), num trabalho no setor hoteleiro que não tem por onde mais crescer (a menos que se cubra a Madeira de betão como a Grã-Canária) ou num setor totalmente dependente da vontade dos eurocratas de Bruxelas.
Eleitores e eleitos contentam-se em viver numa economia insular onde não se tem qualquer estratégia para amortizar o impacto e garantir a transição para a economia tecnológica que se avizinha com a alvorada da inteligência artificial, com todas as implicações que isso trará para as relações laborais e para o papel do Estado na Economia.
Eleitores e eleitos contentam-se em cheirar a Festa, neste “cantinho do céu” que sem rumo se tornará num “inferno” abandonado pelos jovens mais qualificados, pois entre uma poncha e planear o futuro, mais vale a poncha que arranjar dores de cabeça e perder votos.
É por já cheirar a Festa, que eleitos e eleitores devem lembrar-se que “os [seus] filhos são a herança do Senhor”, e como tal compete-lhes refletir em como assegurar o futuro sustentável para os Madeirenses e Portossantenses mais novos, não como indivíduos estanques, mas como sociedade coesa de uma Região que tanto deu ao Mundo, e que tanto ainda tem para dar ao Mundo se deixar de olhar para o fácil, para o imediato e para o “tacho”.
Entretanto, as tradições são para manter, e a Festa fará sempre parte da matriz identitária regional a qual todos devemos preservar.
in JM – Madeira

