Bondi Beach

Bondi Beach

A História, essa senhora irónica e cruel, decide repetir-se não como farsa, mas como aviso. O que vimos em Bondi, em Sydney, e o que se ouve nas ruas de Londres, Nova Iorque ou Amesterdão, não são “excessos emocionais” nem danos colaterais de um debate político aceso. São sinais de antissemitismo contemporâneo e ao mesmo tempo antigos sinais. O grito “Onde estão os judeus?” nunca foi um pedido de diálogo; foi sempre um prelúdio. Ontem vinha acompanhado de archotes e forcados, hoje surge embrulhado em slogans supostamente emancipatórios, mas a lógica é a mesma: localizar, intimidar, isolar.

O erro típico do nosso tempo, profundamente igualitário e, por isso, intelectualmente preguiçoso, é confundir causa com pretexto. A guerra em Gaza é um pretexto; o ódio aos judeus é a causa. Sempre foi. Atribuir massacres de judeus na diáspora a decisões de um governo em Jerusalém é negar agência moral aos assassinos e absolver a patologia que os move. É o velho hábito moderno de explicar o mal sem nunca o julgar. O antissemitismo não nasceu no domingo passado, nem a 7 de outubro. Ele reaparece ciclicamente quando as sociedades deixam de distinguir entre crítica política e pulsão de aniquilação.

Talvez o sinal mais grave do antissemitismo contemporâneo seja este: judeus a esconder símbolos, crianças ensinadas a tirar a kippah, sinagogas protegidas como fortalezas. Quando um grupo é empurrado de novo para a invisibilidade “por segurança”, não estamos perante um problema judaico, mas perante a falência moral das democracias. A indiferença, não o ódio declarado, é sempre o estágio final antes da barbárie. E a História mostra, com uma clareza desconfortável, que quando se começa pelos judeus, nunca se acaba apenas neles.