China

Beijing e a Agonia Digital Europeia: Crónica de um Viajante Perplexo

A experiência que recomendo vivamente a qualquer europeu que ainda julgue viver no continente mais civilizado do mundo é passar duas semanas na China continental, mais concretamente em Beijing. Não nas excursões organizadas por agências que mostram a Grande Muralha e os vestígios do maoísmo com a mesma solenidade turística com que se visita Pompeia, mas antes no quotidiano banal, no prosaico acto de tomar o pequeno-almoço, apanhar um táxi, comprar fruta numa banca de rua, marcar uma consulta médica, pagar a conta da electricidade. É neste terreno, o do trivial, do mecânico, do infraestrutural, que a China contemporânea inflige ao visitante europeu uma humilhação silenciosa e devastadora.

Regressei há pouco de uma estadia de mais de duas semanas em Beijing, e o que trago comigo para além da habitual colecção de fotografias do Templo do Céu e da Cidade Proibida, é algo infinitamente mais perturbador: a certeza absoluta de que a Europa, no domínio da conveniência digital e da integração tecnológica do quotidiano, ficou para trás de uma forma que já não é colmatável com declarações de Bruxelas, regulamentos em papel timbrado ou cimeiras sobre «digitalização».

China: o universo dentro do ecrã

Permitam-me descrever o que é viver em Beijing com o WeChat instalado no telemóvel. O WeChat, para quem nunca ouviu falar dele, o que por si só já constitui um indício preocupante, não é uma aplicação. É um “sistema operativo” para a vida quotidiana. Dentro desta única aplicação, o viajante (e o pequinense, evidentemente) pode: enviar mensagens de texto e de voz, fazer chamadas de vídeo, pagar qualquer coisa a qualquer pessoa mediante a leitura de um código QR, encomendar comida, chamar um táxi, marcar bilhetes de comboio, reservar hotel, aceder a serviços governamentais, consultar o saldo bancário, investir, comprar seguros, ler notícias, e, aspecto verdadeiramente genial, utilizar «mini-programas», que são aplicações leves que funcionam dentro do WeChat sem necessidade de instalação separada.

O Alipay, a plataforma rival nascida do ecossistema da Alibaba, oferece funcionalidades semelhantes com a adição de instrumentos financeiros sofisticados: fundos de investimento, crédito pessoal, seguros de viagem e passes de transportes que funciona com uma eficiência que faria corar de vergonha qualquer banco europeu.

Na minha primeira manhã em Beijing, desci ao hutong próximo do hotel, aquelas ruelas tradicionais que sobrevivem, encaixadas entre arranha-céus, como restos fósseis de uma civilização anterior, e comprei jianbing (uma espécie de crepe salgado) a uma senhora idosa cuja banca não tinha sequer electricidade visível. Paguei com o telemóvel, apontando a câmara para um código QR impresso num pedaço de cartão plastificado. A transacção demorou menos de dois segundos. Não houve troco, não houve cartão, não houve terminal de pagamento. A senhora, que devia ter setenta anos, recebeu o dinheiro instantaneamente na sua conta WeChat Pay e acenou-me com um sorriso.

Repitam comigo: uma vendedora ambulante de setenta anos, numa ruela de Beijing, sem terminal bancário, sem máquina de cartões, sem «contactless», aceitou pagamento digital com mais naturalidade do que o restaurante médio de Lisboa aceita American Express.

A orquestra do quotidiano na CHINA

Ao longo de duas semanas na China, o WeChat e o Alipay tornaram-se os meus companheiros indispensáveis em cada gesto diário. Chamei dezenas de táxis através do mini-programa DiDi integrado no WeChat, sem necessidade de instalar uma aplicação separada, sem necessidade de criar uma conta adicional, sem a pantomima de inserir dados de pagamento pela enésima vez. Entrei no metro com um código QR gerado pelo Alipay; não precisei de comprar bilhetes, de carregar cartões, de enfrentar filas em máquinas automáticas cujo ecrã táctil fora concebido, aparentemente, por alguém que nunca viu um dedo humano.

Encomendei comida nos dias de chuva com o Meituan, outro mini-programa, e recebi refeições quentes em vinte minutos no quarto do hotel. Poderia ainda ter marcado uma consulta num hospital através de um mini-programa oficial do sistema de saúde municipal, escolhido o horário, pago antecipadamente, e recebido uma notificação quando chegou a minha vez, evitando a sala de espera. Comprei bilhetes para as maiores e menores atrações culturais e edifícios históricos dentro do WeChat. Paguei a conta num restaurante dividindo o valor exacto com uma amiga chinesa, ela recebeu a sua parte instantaneamente, sem a patética comédia europeia de «vou fazer transferência, qual é o teu IBAN?».

Num parque público, vi crianças de dez anos a comprarem gelados com o relógio inteligente ligado à conta WeChat dos pais. Numa loja de antiguidades, o vendedor, um erudito idoso que me dissertou durante meia hora sobre cerâmica da dinastia Song, aceitou o meu pagamento pelo mesmo código QR universal. Num templo budista, a caixa de donativos tinha um código QR colado na madeira secular.

A integração é total, ubíqua, democrática no sentido mais literal: do mendigo ao banqueiro, do adolescente ao octogenário, do vendedor ambulante ao hospital central, tudo funciona dentro de um ecossistema coerente, unificado, e, é preciso dizê-lo, elegante.

O regresso à Europa: cultura do choque invertido

Aterramos em Lisboa. No aeroporto, o primeiro contacto com a «civilização europeia» foi uma máquina de parqueamento que aceitava apenas moedas e cartões com chip. O segundo foi um Über que se só liga ao cartão de crédito, GooglePay ou ApplePay. O terceiro foi o restaurante ao pé do hotel onde tentei pagar com o telemóvel e recebi um olhar de perplexidade seguido de um «isso aqui não dá».

Conheço a objecção que o leitor europeu bem-pensante formulará neste instante: «Mas a China é uma ditadura! Esses sistemas servem para a vigilância!» É uma objecção que não é desprovida de fundamento, voltarei a ela, mas que, na sua formulação habitual, serve sobretudo como mecanismo de defesa psicológica, como consolatio para quem não quer confrontar a realidade desagradável de que a Europa não consegue produzir nada comparável, não por fidelidade a princípios superiores de liberdade, mas por uma combinação muito menos nobre de inércia burocrática, fragmentação regulatória, conservadorismo bancário e mediocridade institucional.

As razões da paralisia: uma autópsia

Examinemos, com a frieza clínica que o assunto merece, por que razão a Europa, continente que inventou a banca moderna, a letra de câmbio, a contabilidade de partida dobrada, o telégrafo e metade das tecnologias que tornaram possível o mundo moderno, é hoje incapaz de oferecer aos seus cidadãos um ecossistema digital integrado que se aproxime, mesmo remotamente, do que uma vendedora de jianbing em Beijing utiliza todos os dias.

A primeira razão é regulatória. O RGPD (o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados) foi aprovado em 2016 com a intenção declarada de proteger a privacidade dos cidadãos europeus. Na prática, o que este regulamento produziu foi uma contracção violenta na inovação digital europeia. Investigadores da Universidade de East Anglia, do ZEW Mannheim e da Universidade de Minnesota demonstraram que o RGPD reduziu para metade a entrada de novas aplicações no mercado europeu, provocou uma queda de cerca de um terço no excedente do consumidor e no uso agregado de aplicações. As grandes empresas, Google, Facebook, Amazon, tinham recursos para se adaptar e até beneficiaram da eliminação dos concorrentes mais pequenos. As startups europeias, não. O investimento de capital de risco em tecnologia europeia caiu vinte e seis por cento em relação aos Estados Unidos após a implementação do RGPD.

O próprio relatório Draghi de 2024, encomendado pela Comissão Europeia ao antigo presidente do BCE, confirmou o diagnóstico com uma franqueza rara em documentos oficiais: a Europa está presa numa «estrutura industrial estática», sem empresas novas capazes de perturbar as indústrias existentes. Nenhuma empresa europeia fundada nos últimos cinquenta anos atingiu uma capitalização bolsista superior a cem mil milhões de euros permanecendo na Europa. Trinta por cento das empresas tecnológicas mais promissoras emigraram para os Estados Unidos. A Europa gasta duzentos e setenta mil milhões de euros a menos em investigação e inovação do que os seus congéneres americanos. Draghi pediu oitocentos mil milhões de euros anuais em investimento adicional. Um ano depois, apenas onze por cento das suas trezentas e oitenta e três recomendações tinham sido implementadas.

A segunda razão é a fragmentação. A Europa não é um mercado. É vinte e sete mercados com vinte e sete reguladores, vinte e sete sistemas bancários, vinte e sete tradições jurídicas, e uma babel de línguas que torna qualquer tentativa de escala continental um exercício de paciência franciscana. O WeChat pôde crescer num mercado de mil e quatrocentos milhões de pessoas governado por um único regime regulatório (por mais que discordemos da sua natureza). Um empreendedor europeu que queira lançar uma aplicação de pagamentos tem de navegar o PSD2, o RGPD, as regulamentações bancárias nacionais, as directivas anti-branqueamento de cada Estado-membro, e a supervisão de múltiplas autoridades que frequentemente se contradizem entre si.

A terceira razão é o conservadorismo bancário. Os bancos europeus, instituições “veneráveis” que há séculos prosperam na assimetria de informação entre eles e os seus clientes, não têm qualquer interesse em facilitar a emergência de um sistema de pagamento que os torne redundantes. O WeChat Pay e o Alipay puderam crescer na China precisamente porque o sistema bancário tradicional chinês era subdesenvolvido; havia um vazio que a tecnologia preencheu. Na Europa, os bancos ocupam esse espaço com a tenacidade de um inquilino protegido pela lei das rendas, e resistem a qualquer inovação que ameace as suas comissões, as suas taxas de câmbio e o seu monopólio informacional.

A quarta razão, e talvez a mais profunda, é cultural. A Europa sofre daquilo que poderíamos designar, à falta de termo melhor, como uma hubris civilizacional invertida. Convencida de que representa o ápice da civilização humana em matéria de direitos, liberdades e garantias, a Europa confunde a regulação com a virtude e a burocracia com a prudência. Cada novo regulamento é celebrado como uma conquista moral; cada restrição à inovação é justificada em nome de princípios abstractos, a «privacidade», a «soberania dos dados», a «proteção do consumidor», que, na prática, protegem sobretudo os incumbentes contra a concorrência e os cidadãos contra a conveniência.

É uma atitude que Tocqueville teria reconhecido: a do Estado que, desejando poupar ao cidadão «a dificuldade de pensar e a dor de viver», acaba por transformá-lo num ser infantilizado, dependente de uma teia de regulamentos que ninguém compreende mas todos acatam. Soft despotism, na terminologia tocquevilleana, com a diferença de que, ao contrário do despotismo chinês, este não produz sequer eficiência.

A objecção da vigilância

Seria intelectualmente desonesto não abordar a questão que paira sobre qualquer elogio ao ecossistema digital chinês: o problema da vigilância estatal. O WeChat e o Alipay operam sob a jurisdição de um Estado que tem acesso, real ou potencial, a todos os dados das transacções dos seus cidadãos.

Concedo o ponto. Mas concedê-lo não resolve o problema europeu, agrava-o. Porque a questão que se impõe é a seguinte: se a Europa, com todo o seu arsenal de direitos fundamentais, constituições liberais, tribunais independentes e comissários de proteção de dados, não é capaz de construir um sistema igualmente conveniente com salvaguardas democráticas, então o que exactamente estão estas instituições a proteger? A privacidade do cidadão europeu que, na prática, continua a entregar os seus dados ao Google, ao Facebook e à Amazon, empresas americanas sobre as quais a Europa não exerce soberania alguma, enquanto se orgulha de ter impedido o desenvolvimento de alternativas europeias?

A falácia reside em tratar a conveniência tecnológica e a liberdade como um jogo de soma zero, quando na realidade são perfeitamente compatíveis. Nada, absolutamente nada, impede a Europa de desenvolver um ecossistema digital integrado com encriptação end-to-end, portabilidade de dados, consentimento granular e supervisão judicial independente. Excepto, evidentemente, a vontade de o fazer, vontade que exigiria coragem política, visão estratégica e, sobretudo, a capacidade de dizer «não» ao lobby bancário e ao aparelho burocrático que parasita a actual fragmentação.

O «vigésimo oitavo regime» e outras fantasias

O relatório Draghi propôs, entre muitas outras coisas, um «vigésimo oitavo regime» regulatório, um quadro jurídico europeu unificado ao qual as empresas poderiam aderir voluntariamente, contornando as legislações nacionais. A ideia é engenhosa; a probabilidade de implementação é mínima. Um ano após a publicação do relatório, a Europa discute, delibera, pondera, consulta, avalia impactos, encomenda estudos, organiza conferências, e não faz nada. Draghi, na conferência de Setembro de 2025, confessou-se pessimista: cada um dos problemas que identificara tinha-se agravado.

Não surpreende. A máquina institucional europeia não foi concebida para a acção; foi concebida para o consenso, que é o contrário da acção. É uma máquina que transforma qualquer impulso reformador em documento, qualquer documento em consulta pública, qualquer consulta pública em compromisso diluído, e qualquer compromisso diluído em directiva que ninguém implementa. Festina lente, diziam os romanos, mas os romanos, ao menos, eventualmente chegavam a algum lado. A Europa de Bruxelas pratica um festina sem lente e sem destino.

O que a China nos ensina

Regresso mentalmente àquela manhã no hutong de Beijing, àquela senhora de setenta anos com o seu código QR plastificado. Ela não sabe o que é o RGPD. Nunca ouviu falar do PSD2. Desconhece a existência de comissários europeus para a «economia digital». Não participou em nenhuma consulta pública sobre interoperabilidade de sistemas de pagamento. E, no entanto, ela opera num ecossistema digital mais avançado, mais integrado e mais conveniente do que qualquer coisa disponível em Lisboa, Paris, Berlim ou Amesterdão.

Isto não é uma falha técnica. É uma falha civilizacional. A Europa, que durante séculos foi o motor da inovação humana, da imprensa (no continente) à máquina a vapor, da penicilina ao World Wide Web, transformou-se num continente de reguladores, não de criadores. Ao invés da China, produzimos regulamentos com a mesma prodigalidade com que outrora produzíamos invenções; legislamos com a mesma energia com que outrora construíamos catedrais. Substituímos o génio pelo procedimento, a visão pela «avaliação de impacto», a ambição pelo «princípio da precaução».

Não se trata de copiar a China. Trata-se de reconhecer, com a humildade que a realidade exige, que um continente que não consegue oferecer aos seus cidadãos a possibilidade de comprar um café sem carregar moedas no bolso não tem autoridade moral para se apresentar como farol da civilização. A conveniência não é um luxo; é um indicador de competência institucional. E nesse indicador, a Europa está reprovada.

O viajante que regressa da China à Europa não regressa apenas através de fusos horários; regressa através de décadas. E quando, no café da esquina, ouve o empregado dizer «Só aceitamos dinheiro ou Multibanco», sente uma tristeza que não é nostálgica, é prospectiva. Porque compreende, com uma clareza que nenhum relatório de Bruxelas lhe poderia proporcionar, que a Europa já não compete com a China. Compete com a sua própria irrelevância.

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