Há muito que a democracia deixou de ser uma ideia; tornou-se um ritual. Eleições sucedem-se como feriados de um calendário cívico que ninguém mais leva a sério. A cada quatro ou cinco anos, repete-se o mesmo teatro: promessas vagas, slogans ocos, rostos cansados. E, no final, tudo volta ao mesmo, um sistema que se alimenta de si próprio, fabricando políticos como fábricas que produzem plástico: resistentes, moldáveis, descartáveis.
A República, dizia-se, libertaria o homem do arbítrio e dos privilégios de nascimento. Libertou-o, de facto, mas para o condenar à tirania do carreirismo. O político moderno não governa; gere a própria permanência. Vive num ciclo fechado de legitimação, rodeado de sondagens e de assessores, em perpétua campanha. É um profissional do poder sem causa, um actor que confunde a câmara de televisão com o espelho da alma. O Estado converte-se, assim, numa empresa de vaidades onde o mérito se mede pela longevidade no cargo.
Nas monarquias, pelo contrário, o poder supremo não é uma conquista mas uma herança, e é precisamente essa diferença que torna o sistema mais humano. O monarca nasce com a lembrança de que o trono não lhe pertence, apenas o ocupa por um tempo. A sua função não é vencer eleições, mas manter uma linha, garantir continuidade, servir como eixo simbólico de uma nação que existia antes dele e existirá depois. A monarquia nega, por definição, o narcisismo da política profissional: quem nasce rei não precisa provar que é digno de sê-lo, apenas tem de o merecer.
É por isso que o velho argumento republicano, o da igualdade de oportunidades, é pura farsa. Na prática, as repúblicas criaram castas mais fechadas que as aristocracias. Deputados que se sucedem a si próprios, presidentes que se eternizam na sombra, ministros que trocam de pastas como quem muda de gravata. A república moderna tornou-se o clube dos velhos vaidosos, onde se entra cedo e de onde ninguém quer sair, nem quando o espelho já não tolera o reflexo.
A ironia é que o século XXI encontrou, no Oriente, a única alternativa funcional à degradação democrática republicana. Nos regimes socialistas asiáticos de partido único não há lugar para a frivolidade eleitoral. A legitimidade não vem do voto, mas da capacidade de garantir o futuro. O poder justifica-se pela continuidade, não pela conquista. Um líder envelhece, e já o sucessor está a ser formado, testado, preparado. O mérito é, ali, um princípio de sobrevivência: governar mal é pôr em risco o próprio sistema. E se há autoritarismo, há também uma consciência de que o tempo é finito e a história não perdoa os que falham perante a próxima geração.
O Ocidente, porém, prefere o conforto da ilusão. Adora repetir que é livre enquanto vota em quem já não acredita. Idolatra a juventude nas ruas, mas entrega o poder a sexagenários, e quejandos, em busca de aplauso. Substituiu a responsabilidade pela emoção, o governo pela encenação. A sua tragédia não é a corrupção, mas a mediocridade.
Talvez por isso as monarquias sobrevivam, discretas, quase silenciosas, mas sólidas. Elas recordam, por contraste, que a política não é uma profissão, é uma vocação; que o poder não é conquista pessoal, mas dever herdado; e que um país precisa de um rosto que não envelhece com as urnas. Entre a vaidade republicana e a continuidade monárquica, o futuro pertence a quem ainda sabe que governar é preparar quem virá depois.
A República, ao fim de contas, não é mais do que um espelho onde os velhos se contemplam, convencidos de que representam o povo. A Monarquia, pelo menos, continua a lembrar-nos que há coisas que não se elegem: a dignidade, a memória e o tempo.

