O gesto do Governo do Quebeque ao remover a coroa britânica do seu brasão provincial não é um acto de modernização, nem de autonomia, nem sequer de coerência histórica. É um acto de vandalismo simbólico, praticado em nome de um republicanismo ressentido, juridicamente frágil e intelectualmente preguiçoso. Trata-se de uma operação ideológica travestida de “actualização identitária”, conduzida por uma elite política que confunde memória com militância e soberania com iconoclastia.
O brasão do Quebeque não é um logótipo governamental, nem um cartaz eleitoral, nem um exercício de design institucional sujeito a humores de legislatura. É um símbolo de autoridade pública concedido pela Coroa em 1868, expressão da continuidade jurídica do Estado provincial dentro da ordem constitucional canadiana. A coroa que o encima não representa “sentimentos pessoais” dos cidadãos, nem uma sondagem de opinião momentânea; representa a fonte do poder público, a legalidade histórica e a estrutura constitucional que permitiu ao próprio Quebeque existir enquanto entidade política distinta.
Invocar que “a maioria dos quebequenses não tem apego à monarquia” é um argumento irrelevante e revelador. O Estado não é um espelho emocional da população, nem a heráldica um exercício terapêutico coletivo. Se os símbolos do Estado tivessem de reflectir os gostos voláteis das maiorias circunstanciais, não restaria qualquer ordem simbólica, apenas grafismo descartável. A lógica subjacente é perigosamente populista: aquilo que não agrada é apagado; aquilo que incomoda é removido; aquilo que lembra limites é destruído.
Mais grave ainda é a desonestidade histórica do gesto. O Governo mantém o leão britânico no escudo, convenientemente rebatizado, reinterpretado e esvaziado, enquanto remove a coroa, precisamente o elemento que explicita a origem jurídica do conjunto. Não é uma ruptura coerente; é uma mutilação selectiva. O resultado não é um símbolo “descolonizado”, mas um híbrido incoerente: heráldica sem autoridade, história sem estrutura, identidade sem fundamento.
Este tipo de republicanismo simbólico não constrói nada. Limita-se a raspar superfícies, a apagar sinais, a substituir instituições por slogans. A monarquia constitucional canadiana não é um resíduo colonial, mas um mecanismo de limitação do poder, de continuidade jurídica e de neutralidade institucional. Ao atacá-la nos símbolos, o Governo do Quebeque ataca precisamente aquilo que impede que o Estado seja reduzido à extensão ideológica do governo de turno.
Há também um problema jurídico que os ministros preferem ignorar. Um brasão provincial não pode ser alterado unilateralmente por vontade política local sem a devida a autoridade federal de heráldica da Coroa intervir. Legislar sobre o seu uso é uma coisa; alterar a sua substância simbólica é outra. O que está em causa não é apenas gosto ou identidade, mas competência e legalidade. O gesto pode produzir imagens para redes sociais, mas não cria legitimidade heráldica. É política performativa, não governo responsável.
A tentativa de renomear o cargo de tenente-governador, a dispensa do juramento ao Rei e agora a amputação simbólica do brasão fazem parte da mesma deriva: um projecto de erosão institucional conduzido por via simbólica, porque o confronto jurídico directo seria impossível. É a política do facto consumado, do desgaste lento, da banalização do que incomoda até que reste apenas um Estado despido de fundamentos e cheio de retórica.
O Quebeque não se afirma ao apagar a coroa. Apequena-se. Não ganha autonomia; perde densidade institucional. Não honra a sua história complexa; reduz-la a um panfleto. Estados seguros de si não precisam de destruir símbolos para provar identidade. Apenas regimes inseguros, governados por elites ressentidas, sentem a necessidade compulsiva de reescrever brasões como se fossem comunicados de imprensa.Este não é um acto de libertação. É um gesto pequeno, ruidoso e profundamente provinciano, no pior sentido do termo.

