O que mais impressiona nas reflexões do colunista do The Times, Robert Crampton, não é o seu republicanismo, que é, afinal, um erro honroso e historicamente recorrente, mas a franqueza com que confessa a sua incoerência moral.
Crampton admite, de forma bastante aberta, que o seu “prazer evidente” na humilhação de um membro da família real é atenuado apenas por um cálculo estratégico. A moral exige responsabilização; a estratégia exige contaminação. Em outras palavras, o indivíduo deve sofrer não porque a justiça assim o imponha, mas porque a sua permanência possa servir como solvente conveniente de uma instituição que o autor já rejeita.
Um dos equívocos persistentes acerca da monarquia, especialmente entre republicanos anglo-saxónicos, consiste na ideia de que uma dinastia é uma marca, um produto cuja cotação sobe ou desce consoante os desaires mediáticos. A monarquia não é uma marca. É um princípio constitucional encarnado numa família. E essa família, como todas as famílias, contém membros falíveis, trágicos, embaraçosos e até culpáveis. Contudo, a Coroa, precisamente por não ser eletiva, não oscila ao sabor da reputação de cada parente.
A decepção estratégica do colunista revela algo mais profundo: o republicanismo depende menos de princípio do que de espetáculo. A “contaminação da marca” é desejada porque a república carece da paciência metafísica da história. Alimenta-se do escândalo. Necessita da decadência dinástica como condição prévia da sua própria relevância.
Mas a monarquia constitucional, na Grã-Bretanha sob o Rei Carlos III, não funciona segundo tais premissas teatrais. Se a lei exigir que Andrew responda a perguntas difíceis, que as responda. A majestade da monarquia reside precisamente nisto: a pessoa é responsável perante a lei, mas a Coroa subsiste para além da pessoa. A república, pelo contrário, personaliza tudo; a sua legitimidade repousa na popularidade e nas modas morais.
Há também algo de revelador no desejo de manter um “contaminante” no seio da família real por conveniência tática. Tal postura sugere que o republicanismo se preocupa menos com justiça do que com perceções. O republicano moderno envolve-se em linguagem moral, mas pensa em termos puramente instrumentais. Não busca primariamente a virtude; procura vantagem.A força da monarquia reside no seu carácter suprapolítico. Um rei não é líder partidário, nem chefe de facção, nem produto de coligações eleitorais. Ele encarna continuidade histórica da pátria. A família que o rodeia pode errar; a história está repleta de exemplos. Contudo, a instituição sobrevive precisamente porque não foi construída sobre pureza ideológica nem sobre entusiasmo momentâneo.
O paradoxo para o crítico republicano é este: quanto mais a monarquia demonstra que até os príncipes estão sujeitos à lei, mais sólido se torna o princípio constitucional. A inexistência de privilégios processuais não enfraquece a Coroa; dignifica-a.
Assim, o dilema do colunista é autoinfligido. Deseja escândalo sem resolução, culpa sem devido processo, proximidade sem consequência, tudo para corroer uma instituição cuja resiliência ele implicitamente reconhece. A tragédia para a estratégia republicana é que a monarquia, quando confrontada com a crise, tende não a colapsar, mas a consolidar-se.
E é por isso que a Coroa sobreviveu a tantos dos seus críticos.

