dia da Mãe

A Propósito do Dia da Mãe

No primeiro domingo de maio, Portugal, outrora bastião católico do Ocidente latino, hoje província terminal do consumismo anglo-saxónico, celebra o Dia da Mãe. As pastelarias enchem-se de bolos com glicerinas coloridas, as floristas faturam num fim de semana o que não faturam num mês, e a sentimentalidade nacional eleva-se em massa por SMS e por emoji. Pater familias et mater familias reduzidos a hashtag. Espectáculo simultaneamente comovente e instrutivo: instrutivo, sobretudo, porque há uma tradição religiosa que olha para tudo isto com olho clínico, e essa tradição, paradoxalmente, não é a católica. É a judaica ortodoxa, em particular a corrente Chabad, e a sua objeção ao Dia da Mãe deveria envergonhar qualquer católico que ainda saiba o que a palavra “tradição” significa.

A objeção judaica ao Dia da Mãe

A controvérsia halachica é técnica e tem dois andares. O primeiro: o chukat ha-goyim, a proibição mosaica de imitar os costumes gentios, derivada do Levítico 18:3. O Rema fixou no Yoreh Deah 178:3 o critério clássico, uma prática não-judaica torna-se proibida se tiver origem idolátrica ou se for narishkeit, “tolice”, sem racionalidade própria.

Mas há um segundo andar, e é nele que a inteligência judaica se manifesta. Para a tradição Chabad, a questão não é a licitude formal, é a inépcia teológica. Kibbud av va-em, o mandamento (mitzvá) de honrar pai e mãe, é uma das obrigações mais densas da Torá: figura no Decálogo, é diária, contínua, sem férias nem tréguas. Reservar um domingo de maio para a sua celebração simbólica equivale a confessar implicitamente que durante os outros 364 dias a obrigação dorme. O Rebe de Lubavitch dizia, com a brevidade dos sábios, que todos os dias deviam ser Dia da Mãe, proposição que qualquer escolástico medieval teria assinado sem hesitar. A tradição judaica já dispunha, aliás, de instrumentos próprios: Rosh Chodesh, ligado historicamente à recusa das mulheres em aderir ao bezerro de ouro, era o “dia das mulheres”; o Chabad continua a marcar, a 22 de Shevat, o falecimento da Rebbetzin Chaya Mushka como ocasião de reflexão sobre a mulher judia. Repare-se: continuidade, ritmo, repetição litúrgica. Tudo aquilo que o Dia da Mãe, importado de Madison Avenue, programaticamente não é.

A crítica judaica não é mesquinha nem ritualista. É metafísica: ritualizar anualmente uma virtude permanente é o caminho mais seguro para a sua atrofia.

O Quarto Mandamento, lido como deve ser lido

Aqui começa o constrangimento católico. O Quarto Mandamento, “Honra teu pai e tua mãe”, é descrito no Catecismo da Igreja Católica em termos rigorosamente análogos aos da exegese rabínica. Não é cortesia social nem afeto pontual: é uma virtude contínua, estruturante, que se metamorfoseia conforme a idade mas nunca se interrompe. Do respeito da criança à gratidão do adulto, do cuidado material aos pais idosos à oração pelos defuntos, o Catecismo (§§ 2197-2257), descreve uma obrigação que ocupa toda a vida e que não conhece feriados.

A questão impõe-se com a brutalidade de uma evidência: se o Quarto Mandamento é existencial e contínuo, em que sentido o Dia da Mãe lhe acrescenta algo? E, mais radicalmente: poderá subtrair? A interrogação chega-nos de Brooklyn e devolve-nos a Trento.

A distinção entre o civil e o litúrgico

A defesa imediata é conhecida: o Dia da Mãe é festa civil, não litúrgica. Não tem leituras próprias, não interrompe o calendário, pertence à esfera da gratidão social. A Igreja, perita milenar na distinção entre o sagrado e o secular, pode acolhê-lo sem o sacralizar.

Tudo correto, e, ao mesmo tempo, tudo insuficiente. Porque a piedade popular portuguesa nunca viveu nessa zona estanque entre o civil e o litúrgico. Vive precisamente na membrana porosa que os separa. O Dia da Mãe é vivido com uma carga afetiva que excede o civil sem chegar ao litúrgico, e é nessa ambiguidade que o argumento judaico ganha força. Uma virtude que se proclama contínua, mas que se celebra anualmente com pompa e sem equivalente diário, comunica uma mensagem dupla; e quem comunica mensagens duplas não sobrevive à inteligência teológica de Brooklyn.

A teologia do quotidiano, derrotada

A objeção Chabad, traduzida em português eclesial, é uma denúncia da derrota da teologia do quotidiano. Toda a vida cristã, da regra de São Bento à pequena via de Teresinha de Lisieux, passando pela espiritualidade de São Josemaría Escrivá, repousa numa intuição que o judaísmo nunca abandonou: a santidade joga-se nos atos miúdos, não nas comemorações. In minimis Deus maximus. O cristão é chamado a santificar a hora, não o feriado.

Se isto é verdade, e é, então o Dia da Mãe não é aliado da piedade filial. É seu rival astuto. Ao concentrar num domingo de maio a manifestação pública da gratidão, autoriza tacitamente a sua dispersão durante o resto do ano. A grandeza da festa torna-se álibi da pequenez do quotidiano. Um rabino chamaria a isto desordem na hierarquia das obrigações; um escolástico chamar-lhe-ia inversio finis; um português antigo chamar-lhe-ia, simplesmente, falta de carácter.

A devoção mariana, contraponto perdido

E é aqui que o paradoxo se torna humilhante para o catolicismo lusitano: a Igreja portuguesa já tinha, há séculos, a resposta exata, e parece tê-la trocado por cartões da Hallmark. A devoção mariana, sobretudo na sua expressão lusitana, Fátima, o terço rezado em casa, o mês de maio inteiro consagrado a Nossa Senhora, é precisamente o oposto da lógica do Dia da Mãe. É contínua, distribuída, doméstica, repetitiva, não negociável. Maio inteiro é o mês de Maria.

Que sentido tem destacar, dentro do mês mariano, um domingo de Dia da Mãe, como se a maternidade, divina ou humana, precisasse de uma efeméride suplementar importada dos Apalaches? A pergunta, formulada em Lubavitch e respondida em Fátima, é embaraçosa: terão os católicos portugueses substituído uma piedade contínua, herdada da Contra-Reforma, por uma celebração episódica nascida numa igreja metodista da Virgínia Ocidental? Terão trocado o terço diário em honra da Mãe pela mensagem anual em honra da mãe?

A resposta, suspeito, não favorece nem Fátima nem Trento.

A ironia de Anna Jarvis

A história da própria fundadora confirma o diagnóstico judaico. Anna Jarvis, que instituiu o Dia da Mãe em 1908 numa igreja metodista, passou as últimas décadas da vida a tentar destruir a sua própria criação. Horrorizada com a comercialização galopante, processou floristas, boicotou marcas de cartões e morreu sem dinheiro num hospício, repetindo que tinha gerado um monstro. Mater dolorosa da sua própria invenção. A biografia é parábola involuntária da objeção Chabad: o que se ritualiza num único dia degrada-se inevitavelmente em consumo, e a virtude que se queria celebrar acaba a financiar o seu próprio aviltamento.

A pergunta que fica

Nada disto é apelo ao boicote. Os pais merecem flores e os filhos precisam de pretextos para as oferecer. Mas talvez valha a pena, neste primeiro domingo de maio, sentar a interrogação judaica à mesa do almoço de Dia da Mãe. Ela não nos pede que abandonemos a data, pede-nos que a relativizemos. Que reconheçamos, com aquela humildade teológica que o Ocidente católico parece ter exportado para o Ocidente protestante e nunca mais recuperado, que a verdadeira honra da mãe não cabe num domingo de maio. Cabe num gesto de terça-feira, num telefonema de quinta, numa visita de sábado, num recado feito a meio de uma quarta-feira qualquer.

Que os católicos do século XXI tenham de aprender isto com judeus de Brooklyn é, talvez, a medida mais exata da derrota civilizacional que a substituição da piedade pela sentimentalidade representa. Os senhores da Hallmark venceram onde Lutero falhou; e se ainda há quem resista, é numa pequena rua de Crown Heights, não numa avenida de Lisboa.

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