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A Barbárie Pintada de Vermelho: Quando a Massa Destrói o que Não Compreende

O vermelho que escorreu pela estátua da Rainha Vitória no Royal Victoria Hospital de Belfast nesta sexta-feira não foi tinta. Foi a expressão visceral do ódio igualitário, essa força destrutiva e primitiva que, incapaz de criar, só encontra satisfação na demolição do que existe.O grupo Lasair Dhearg, nome gaélico que soa a epopeia, mas cujos actos cheiram a ressentimento de passeio turístico revolucionário, apresentou o seu vandalismo como gesto político. Proclamou, com a solenidade ridícula dos que se julgam vanguarda da História, que “numa República Socialista todos os símbolos do Império serão arrancados da terra.” Puro leftism, não no sentido trivial de preferência política, mas como patologia civilizacional: o impulso das massas para nivelar, homogeneizar e destruir tudo o que se eleva acima da mediocridade colectiva.

Atentemos na escolha do alvo. Não um palácio. Não uma sede governamental. Um hospital. Um lugar onde homens e mulheres agonizantes buscam cura, onde famílias aguardam notícias com o coração na garganta. O Royal Victoria Hospital trata os mais vulneráveis da Irlanda do Norte, e foi precisamente aí que estes republicanos irlandeses escolheram perpetrar o seu vandalismo, com o seu balde de tinta e a sua retórica de almanaque marxista. Há uma perversidade reveladora nesta escolha: o socialismo, que se proclama defensor dos humildes, vandaliza a instituição que os serve, desviando recursos escassos para limpar o seu teatro de sombras ideológico.

A democracia de massas tende a produzir não liberdade, mas tirania da mediocridade, uma tirania que persegue a excelência, a distinção, a memória. A estátua da Rainha-Imperatriz Vitória, independentemente de qualquer juízo histórico sobre o seu reinado, é um objecto de memória, de continuidade civilizacional. Profaná-la não é um acto de justiça histórica: é iconoclastia niilista, a mesma que os sans-culottes exerceram em Paris, os bolcheviques em Moscovo e os Taliban em Bamiyão. A forma muda; o impulso é sempre o mesmo, apagar o passado para que a massa, sem raízes e sem referências, fique inteiramente à mercê dos seus novos sacerdotes revolucionários.

O comunicado do grupo é, aliás, um pequeno prodígio de incoerência. Invoca a fome irlandesa com comoção selectiva, sofrimento real, tragédia inegável, mas instrumentaliza-o como pretexto para uma agenda que pouco tem a ver com os mortos de 1847 e tudo tem a ver com o recrutamento de 2026. “Junta-te a nós”, exortam. Pura exploração do ressentimento histórico como combustível para o projecto igualitário contemporâneo. Os mortos servem os vivos que os invocam, mas apenas enquanto forem úteis.

Há ainda a questão do vocabulário. “Símbolos do Império serão arrancados.” A passiva impessoal é sintomática: não “nós arrancaremos”, mas “serão arrancados”, como se a História tivesse já decretado a sentença e eles fossem apenas os seus humildes executores. Este recurso retórico à inevitabilidade histórica é o truque mais velho do jacobinismo: apresentar a vontade de um grupo como a marcha inelutável do progresso, de modo a que resistir seja não apenas inútil, mas moralmente criminoso.

Que fique claro: criticar o colonialismo britânico, debater o legado dos Governos da Rainha-Imperatriz Vitória, exigir narrativas mais honestas da História, tudo isso é legítimo. Mas há um abismo intransponível entre o debate civilizado e o balde de tinta num hospital. O primeiro pressupõe interlocutores, argumentos, responsabilidade intelectual. O segundo pressupõe apenas uma massa em movimento, convencida da sua própria rectidão, incapaz de suportar a complexidade do real.

O deputado Alan Chambers disse que o acto foi “senseless”, i.e. sem sentido. Factualmente tem razão, mas errou o diagnóstico desta barbárie. O acto tem um sentido muito preciso: é a afirmação de que a força substitui o argumento, de que a tinta substitui a razão, de que o gesto substitui o pensamento. O grande perigo da modernidade igualitária: não a tirania de um déspota esclarecido, mas a tirania difusa, anónima e sorumbática da massa que, por não saber construir, aprende a destruir com entusiasmo.

O vermelho imposto pelo vandalismo dos republicanos irlandeses secará. A estátua será limpa. Mas a patologia que empunhou o balde continua de saúde.

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