É uma ironia cruel (daquelas que a História reserva aos ingénuos e aos distraídos) o espectáculo anual que se repete, com a pontualidade monótona de um calendário comercial, a cada oito de Março. Flores. Chocolates. Campanhas de email marketing com fundo cor-de-rosa. Descontos em spas. Jantares, ou almoços, entre amigas. E, claro, a fotografia corporativa obrigatória: o conselho de administração de alguma multinacional, com as suas duas ou três mulheres cuidadosamente posicionadas ao centro, celebrando aquilo que o comunicado de imprensa designará, invariavelmente, por “empoderamento feminino”.
A banalização do Dia da Mulher não é um acidente. É a forma mais eficaz de neutralizar uma ideia: esvaziá-la de conteúdo sem nunca a abolir formalmente.
Das Fábricas de Chicago aos Escaparates de Março
Para compreender o que se perdeu, é necessário regressar às origens, esse exercício que a modernidade, com a sua alergia congénita à memória, sistematicamente recusa. O Dia Internacional da Mulher nasceu de uma decisão tomada em 1910, na Segunda Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, em Copenhaga, por proposta de Clara Zetkin, militante alemã, marxista convicta, adversária irredutível de qualquer feminismo que não passasse pela transformação radical das estruturas económicas. Não se tratava de celebrar a feminilidade. Tratava-se de denunciar condições de trabalho degradantes, salários de miséria e a exclusão sistemática das mulheres da vida pública.
As marchas que se seguiram nas décadas iniciais eram de operárias. Mulheres que trabalhavam doze, catorze horas em fábricas têxteis. Mulheres que haviam morrido nos incêndios das Triangle Shirtwaist Company, em Nova Iorque, em 1911, com as portas trancadas por fora pelos patrões para impedir que abandonassem os postos de trabalho. Este era o substrato político e histórico do dia: sangue, fumo e reivindicação concreta.
O que temos hoje é a negação perfeita desse legado.
O Capitalismo como Artista da Cooptação
Existe uma capacidade quase sobrenatural, dir-se-ia que metabólica, por parte do sistema capitalista avançado para digerir toda a crítica que lhe é dirigida, transformando-a em produto vendável. O que não consegue refutar, absorve. O que não consegue calar, comercializa. Nenhum movimento político do século XX escapou inteiramente a este processo. Veja-se o ambientalismo convertido em greenwashing, o mês Pride da comunidade LGBT+ convertidos em pinkwashing, e o anticonsumismo vendido em t-shirts de edição limitada.
O Dia da Mulher não foi excepção. Foi, aliás, um dos casos mais bem-sucedidos desta alquimia invertida. Uma data nascida da conflitualidade de classes e da exigência de direitos concretos, sociais e políticos, foi progressivamente reconfigurada como ocasião sentimental, como “dia para celebrar as mulheres da nossa vida”, formulação que, note-se, não difere estruturalmente do Dia da Mãe ou do Dia dos Namorados. O político foi substituído pelo emocional. A exigência foi substituída pela gratidão. E a gratidão, como bem se sabe, é o afecto que mais convém aos que detêm o poder.
A grande empresa que publica uma publicação comemorativa no LinkedIn não está a honrar Clara Zetkin. Está a administrar um antídoto.
O Feminismo que o Mercado Aceita
Existe uma distinção fundamental, hoje deliberadamente obscurecida, entre o feminismo que o mercado tolera, e até incentiva, e o feminismo que o poder económico considera subversivo. O primeiro é um feminismo de superfície: celebra a “mulher que chegou lá”, a CEO, a atleta de alta competição, a influenciadora digital com discurso de autossuperação. É um feminismo que aceita as regras do jogo e pede apenas um lugar mais equitativo à mesa. O segundo interroga a própria mesa: para que serve, quem a construiu, e se vale a pena sentar.
O feminismo contemporâneo dominante, aquele que aparece nos anúncios televisivos, nas campanhas institucionais e nos discursos dos grandes partidos, é, com raras excepções, do primeiro tipo. Celebra a individualidade, não a solidariedade de classe. Celebra a ascensão de algumas, não a emancipação colectiva de todas. É um feminismo perfeitamente compatível com salários mínimos, com a precariedade que afecta desproporcionalmente as mulheres das classes trabalhadoras, com as cadeias globais de produção têxtil onde a operária de hoje não morre num incêndio, mas definha numa pobreza crónica e invisível.
Neste contexto, a banalização do Dia da Mulher cumpre uma função ideológica precisa: permite à ordem existente mostrar-se sensível e progressista, sem alterar coisa alguma que importe.
O Que Celebrar, Afinal?
Não se argumente daqui que o Dia da Mulher deva ser abolido, nem que qualquer expressão de reconhecimento ou afecto seja intrinsecamente suspeita. Argumenta-se, antes, que uma data política deve ser vivida politicamente, com a consciência do que custou, do que representou e do que ainda exige.
Celebrar o oito de Março sem mencionar as greves, os processos, as prisões e as mortes das mulheres que o tornaram possível é como celebrar o Primeiro de Maio com um cocktail em terraço. É uma encenação de memória que serve, precisamente, para que a memória real não incomode.
A banalização do Dia da Mulher não é inocente. É a vitória silenciosa daqueles que, ao longo de mais de um século, fizeram tudo para que as mulheres, e os trabalhadores em geral, não tivessem nada a reivindicar. E nesse sentido, cada buquê de flores oferecido sem contexto, cada campanha corporativa cor-de-rosa, cada post institucional sem substância, é não uma homenagem às mulheres, mas uma pequena e discreta traição àquelas que vieram antes.
A História não perdoa a amnésia voluntária. Perdoa ainda menos aqueles que a transformam em produto.

