A Catedral de São Paulo, em Londres, anunciou a 1 de setembro um contrato de quatro anos com a Fabric, discoteca de Farringdon, que passa a ser «parceira exclusiva» da catedral para música contemporânea de 2026 a 2030. Os concertos realizam-se na nave, debaixo da cúpula de Wren, por cima da cripta onde jazem o Visconde Nelson (também conhecido por Vice-Almirante Horatio Nelson), o Duque de Wellington e J. M. W. Turner. O primeiro está marcado para 29 de outubro. Quem decidiu foi o Deão e o Cabido, que governam a catedral; quem consentiu, pelo silêncio, foi a Reverendíssima Dra. Emma Ineson, Bispa de Kensington, que exerce as funções de Episcopisa Interina de Londres, que a lei anglicana faz Visitador da sua própria sé. A Nelson Society, presidida por um descendente colateral do I Visconde de Nelson, chamou-lhe insulto e pediu a rescisão do contrato. Tem razão, e fica aquém. Não é um erro de programação cultural. É a confissão pública de uma instituição que já não sabe o que guarda.
Nada é sagrado
«Is nothing sacred any more?», perguntou Peregrine Hood ao The Times. A resposta do Cabido está escrita no seu próprio sítio na Internet, na secção intitulada «Your event at St Paul’s», onde a cripta figura entre os espaços disponíveis para aluguer e a chamada Nelson Chamber, a câmara que rodeia o sarcófago do Visconde, é oferecida para jantares empresariais. O contrato com a discoteca não é uma aberração nessa lista. É a sua conclusão lógica.
Nada é sagrado quando o guardião de um lugar o descreve como «one of London’s most iconic spaces», no vocabulário de quem vende bilhetes, e não como igreja catedral de uma diocese cristã. Nada é sagrado quando a entrega da nave a um promotor de espetáculos é anunciada por uma Diretora de Envolvimento de Visitantes, e não pelo Deão, como se a alma da casa fosse um departamento de marketing. Nada é sagrado quando a justificação é que o público «descubra» o edifício de «formas novas e entusiasmantes», isto é, quando a catedral se apresenta como um produto a reposicionar. Nada é sagrado quando um cabido escolhe para parceiro exclusivo, por quatro anos, uma casa noturna a que o Islington Council revogou a licença em 2016 por uma cultura de consumo de drogas. Nada é sagrado quando os mortos deixam de ser hóspedes da igreja e passam a ser parte do cenário.
Ensinamentos do Passado
Erik von Kuehnelt-Leddihn passou meio século a explicar, em «Liberty or Equality» e em «Leftism», que a doença da idade moderna é o horror à hierarquia: a recusa de admitir que há coisas acima de nós e coisas abaixo de nós, e que a civilização consiste em saber quais são quais. Uma catedral é a forma arquitetónica dessa distinção. A nave está separada do adro, o coro da nave, o altar do coro, a cripta de tudo o resto, e cada fronteira diz ao visitante que ele não é a medida do lugar. O Cabido acaba de abolir as fronteiras a troco de uma bilheteira. Não vendeu a catedral, porque a catedral não é vendável; vendeu a diferença entre uma catedral e um recinto, que era a única coisa que tinha para guardar.
O argumento não é contra a música, nem sequer contra os DJs. Um Requiem cantado sob a cúpula é liturgia. Um concerto de Patti Smith, como o de 2024, ou de RY X, como o de 2023, pode ser tolerável como exceção. Um contrato de exclusividade de quatro anos com uma discoteca é a conversão da exceção em regime, e é o regime que define a natureza do lugar. Uma igreja onde a liturgia é o que acontece entre concertos passou a ser uma sala de espetáculos com culto residual.
E há os mortos. O Visconde Nelson morreu a 21 de outubro de 1805 no convés do Victory, jazeu em câmara ardente em Greenwich perante dezenas de milhares de pessoas e foi sepultado a 9 de janeiro de 1806, com honras de Estado, no sarcófago que Wolsey mandara fazer para si e que a Coroa lhe confiscara. Wellington seguiu-o em 1852. Turner está a metros de ambos. A nação não os pôs ali pela acústica. Pô-los ali porque a igreja era o único lugar onde guardava aquilo que não estava à venda. Um cabido que aluga a nave por cima deles disse ao país que essa cláusula caducou.
Um problema de hierarquia
A Cathedrals Measure de 2021, a lei interna da Igreja de Inglaterra, é clara: o Cabido governa a catedral e é o seu órgão fiduciário, o Deão dirige a sua vida e obra em nome do Cabido, e o bispo diocesano conserva «the principal seat and dignity» na catedral e o cargo de Visitador. O Deão e o Cabido da Catedral de São Paulo decidiram; não consta que a Episcopisa de Londres tenha exercido a sua prerrogativa de Visitador, nem que Lambeth tenha dito uma palavra. A hierarquia anglicana já tinha visto a Catedral de Cantuária organizar discotecas silenciosas em 2024 e receber uma petição de mil e seiscentas assinaturas contra a rave in the nave, e viu Ely fazer o mesmo. Aprendeu o contrário do que devia: que a indignação passa e a receita fica. Uma Igreja estabelecida que não é capaz de dizer ao seu próprio cabido que a sepultura do Visconde não é um palco não tem um problema de comunicação. Tem um problema de fé.
Nelson morreu a dizer que tinha cumprido o seu dever. O Deão e o Cabido de São Paulo têm um dever mais simples e mais barato do que o dele: guardar o lugar onde o deixaram descansar. Se não o cumprem, que ao menos deixem de fingir que o contrato com uma discoteca é uma forma de o cumprir.

