ascensão da extrema-direita na Europa

Cassandra em Magdeburgo: a ascensão da extrema-direita na Europa e o centro que a alimenta

A ascensão da extrema-direita na Europa é uma febre. A doença chama-se crescimento mal distribuído, e a febre sobe por quatro canais que os partidos do centro abriram ou deixaram abertos: uma imigração extracomunitária sem relação com as necessidades anuais da economia, redes sociais sem controlo, um Estado que ignora o paradoxo da tolerância e um Estado social desviado de quem contribui para quem não trabalha. Ontem, na Saxónia-Anhalt, a AfD obteve 43,8 por cento dos votos; a CDU, que tinha 37,1 em 2021, caiu para 17,2; a maioria absoluta de mandatos escapou por pouco a um partido que o Verfassungsschutz do próprio Land classifica como comprovadamente extremista de direita, e cujo cabeça de lista, Ulrich Siegmund, reclamou hoje um mandato de governo que, nas suas palavras, dificilmente podia ser mais claro. Nada disto era imprevisível. Cassandra nunca errou uma profecia; foi apenas condenada a não ser acreditada, e a Europa tem há dez anos Cassandras de sobra e um centro que prefere administrar a sua sobrevivência a ouvi-las.

Comece-se pela doença. Em 2024, a Saxónia-Anhalt tinha o PIB per capita mais baixo dos dezasseis Länder, 36.517 euros contra 50.819 na média federal. Em 2025 ficou em 38.452 euros contra 53.516, um índice de 71,9; a remuneração por trabalhador ficou em 84,8 face à média nacional, o desemprego em 8,0 por cento contra 6,3, e a economia do Land encolheu 0,2 por cento. Nada disto é miséria: o Leste alemão recuperou muito desde 1991, e a vizinha Turíngia mais do que duplicou o seu PIB real por habitante. O ressentimento é relativo, e é por ser relativo que é político. Andrés Rodríguez-Pose chamou-lhe, em 2018, a vingança dos lugares que não contam: regiões que perderam serviços, emprego e horizonte enquanto as metrópoles capturavam o crescimento, e que usam o boletim de voto como a única alavanca que lhes resta. À escala europeia, o Eurostat mediu em 2023 um PIB por habitante de 139.500 PPS em Dublin e de 10.500 em Mayotte, para uma média de 38.100. Quem explica em Magdeburgo que, no agregado, a Europa cresceu, está a somar o reino e a ignorar a paróquia. O crescimento mal distribuído é o guarda-chuva; os quatro canais convertem o ressentimento em voto.

Primeiro canal: uma política de imigração extracomunitária que nunca é tomada como decisão. A Austrália fixa todos os anos, depois de consultar os estados e territórios, um nível de planeamento para a imigração permanente: 185.000 lugares em 2026-27, dos quais 132.240 na via das qualificações e 52.460 na via familiar. O Canadá vai mais longe: a secção 94 da Immigration and Refugee Protection Act obriga o ministro a apresentar ao Parlamento, até 1 de Novembro, o número de residentes permanentes projectado para o ano seguinte, e o plano 2026-2028 estabiliza-o em 380.000, abaixo dos 395.000 de 2025, sobe a quota económica de 59 para 64 por cento e corta as admissões temporárias de 673.650 para 385.000. Uma democracia que ajusta a dose todos os anos, à vista de todos, com base no mercado de trabalho e na capacidade da habitação; a Nova Zelândia selecciona por pontos e por listas de profissões em falta. Na União Europeia, o artigo 79.º, n.º 5, do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia reserva expressamente aos Estados-Membros o direito de determinar os volumes de admissão de nacionais de países terceiros que venham procurar trabalho. A competência existe. O que nunca existiu foi a vontade de a exercer como decisão anual, parlamentar e fundamentada. O Pacto sobre Migração e Asilo, em aplicação desde 12 de Junho de 2026, trata de fronteiras, de triagem e de asilo; não fixa um único número de imigração económica. E confunde-se, com proveito para todos os demagogos, o que devia estar separado: o asilo é uma obrigação da Convenção de Genebra, a imigração económica é uma escolha. Um Estado que não distingue as duas acaba por não executar nenhuma. Solingen, 23 de Agosto de 2024: três mortos, um autor sírio, reivindicação do Estado Islâmico, uma transferência para a Bulgária ao abrigo de Dublin marcada para Junho de 2023 que falhou porque o homem não estava no alojamento nesse dia e o prazo de seis meses expirou; prisão perpétua decretada em Düsseldorf em Setembro de 2025. A AfD não precisou de argumentar. Bastou-lhe ler o processo.

Segundo canal: redes sociais sem controlo, em dois sentidos. O primeiro é o da execução. O Regulamento dos Serviços Digitais foi adoptado em 2022 e é plenamente aplicável desde Fevereiro de 2024; a primeira decisão de incumprimento chegou a 5 de Dezembro de 2025, uma coima de 120 milhões de euros ao X por causa dos selos azuis, do repositório de anúncios e do acesso dos investigadores aos dados, enquanto o inquérito sobre manipulação da informação, aberto em Dezembro de 2023, continua aberto. Entretanto uma democracia europeia anulou uma eleição: a primeira volta das presidenciais romenas de 24 de Novembro de 2024, ganha por Călin Georgescu, foi anulada pelo Tribunal Constitucional a 6 de Dezembro, com base em relatórios dos serviços de informações, entretanto desclassificados, sobre uma operação de influência russa no TikTok; a Comissão abriu processo contra a plataforma a 17 de Dezembro. Uma eleição anulada num Estado-Membro antes de o regulador ter aplicado uma única coima a quem quer que fosse. O segundo sentido é o que Tocqueville teria reconhecido: as plataformas são o plebiscito permanente, o homem-massa de Ortega y Gasset munido de um megafone e de um algoritmo que o paga em indignação. Chamam-lhe praça pública; é uma oclocracia por desenho. Convém registar o que os defensores das plataformas dizem com razão: uma regulação desajeitada, feita de crimes de opinião e de painéis de verificadores, alimenta a narrativa da censura (o vice-presidente americano reagiu à coima ao X acusando a União de atacar a liberdade de expressão) e entrega mais eleitores à extrema-direita. O remédio é executar a lei que já existe, com prazos, transparência algorítmica e acesso dos investigadores aos dados.

Terceiro canal: um Estado que ignora o paradoxo da tolerância, e ignora-o nos dois gumes. Popper formulou-o numa nota de A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos (volume I, capítulo 7, nota 4): a tolerância ilimitada conduz ao desaparecimento da tolerância. O primeiro gume é a intolerância importada e tolerada. A 25 de Julho de 2026, um homem de 21 anos, já referenciado pela polícia como islamista, lançou uma carrinha contra a multidão do Christopher Street Day em Berlim: uma mulher morta, dezenas de feridos, o autor abatido pela polícia no dia seguinte. O RIAS contou 8.725 incidentes anti-semitas na Alemanha em 2025, praticamente o mesmo que em 2024 (8.713) e mais do triplo de 2022 (2.610), dois terços relacionados com Israel. O segundo gume é a reacção. O mesmo relatório regista 807 incidentes com origem no espectro da extrema-direita em 2025, o valor mais alto desde que há contagem nacional. Escrevi em Agosto, a propósito do Chega, que a democracia defensiva deve preferir o cerco institucional à dissolução. Mantenho-o, e mantenho-o em tensão deliberada com o que aqui digo: o paradoxo de Popper corta para os dois lados, e um Estado que só o aplica a um perde a autoridade para o aplicar ao outro. Foi o que sucedeu. Durante uma década a violência islamista e o anti-semitismo de rua foram tratados como acidentes de integração; a extrema-direita cresceu a explicar que eram política. O erro do centro foi o silêncio, e o silêncio tem sempre quem o preencha.

Quarto canal: um Estado social que se desviou de quem contribui para quem não trabalha e que, sem o dizer, fez dos nacionais de países terceiros o rosto dessa deriva. O pacto bismarckiano era simples: quem paga, recebe. A reciprocidade contributiva era a moral do sistema, e as transferências não-contributivas de acesso imediato quebraram-na. Na Alemanha, o Bürgergeld tinha em 2025 uma média de 2,57 milhões de beneficiários estrangeiros, 47,6 por cento do total; em Abril de 2025, entre 5,4 milhões de beneficiários, os ucranianos eram 13 por cento, os sírios 9 e os afegãos 3,7. O argumento aqui é estrutural. Uma prestação a que se acede sem contribuição prévia, nesta escala, transforma-se no cartaz eleitoral da extrema-direita, e quem a desenhou sabia-o. O direito da União já permite a reciprocidade: no acórdão Dano (processo C-333/13, 11 de Novembro de 2014), o Tribunal de Justiça admitiu que os Estados-Membros excluam das prestações não-contributivas os cidadãos da União economicamente inactivos. A falha é política. A coligação de Berlim reformou entretanto o Bürgergeld, rebaptizado Grundsicherungsgeld, com entrada em vigor a 1 de Julho de 2026, depois de a AfD ter feito 20,8 por cento nas federais de Fevereiro de 2025, quando já só podia ser penitência. Há um contra-modelo, e é social-democrata. A Dinamarca de Mette Frederiksen fez em 2019 a sua mudança de paradigma: protecção temporária por defeito, residência permanente só ao fim de oito anos com provas de língua e de emprego contínuo, prestações mais baixas para recém-chegados e, em Janeiro de 2021, a meta declarada de zero requerentes de asilo. O Partido Popular Dinamarquês, que tinha 21,1 por cento em 2015, caiu para 8,7 em 2019 e para 2,6 em 2022. Nas legislativas de 24 de Março de 2026 recuperou para 9,1 e os Democratas Dinamarqueses fizeram 5,75: cerca de quinze por cento somados, um terço do que a AfD fez ontem, e Frederiksen formou o seu terceiro governo. Os críticos dizem que a co-optação normaliza o extremismo. Os números dizem que o partido que assume o problema fica com o eleitor e o partido que o nega entrega-o. É aritmética, sem milagre nórdico.

O que se segue não é abstracto, e tem três andamentos. Primeiro, o recuo. Onde a extrema-direita governou, governou contra as minorias: a Hungria aprovou em 2021 a lei que proíbe a representação ou promoção da homossexualidade a menores e, a 18 de Março de 2025, proibiu as marchas do Orgulho, com reconhecimento facial para identificar quem participasse; a Polónia teve as suas zonas municipais «livres de ideologia LGBT». Orbán caiu em Abril de 2026, com o Tisza a conquistar 141 dos 199 lugares. Dezasseis anos. As marés viram ao fim de uma geração, e ninguém devolve às vítimas a geração. Segundo, a tenaz. Judeus e cidadãos LGBT estão entalados entre duas intolerâncias: de um lado a violência islamista e o anti-semitismo relacionado com Israel, que o centro tratou como problema menor de ordem pública; do outro, uma reacção nativista cujo anti-semitismo o RIAS vê subir. Foi disto que tratei a propósito do Orgulho de Berlim, do caso Matthew Shepard e das candidaturas LGBTI+ no Quebeque, e é isto que inquieta, aos 93 anos, o Duque Franz da Baviera. Terceiro, o verniz. A AfD é liderada por Alice Weidel, que vive com uma mulher; Geert Wilders declara o seu amor a Israel; Marine Le Pen passou quinze anos a «desdiabolizar» o partido do pai. Entretanto Björn Höcke chamou monumento da vergonha ao Memorial do Holocausto em Berlim, e o próprio Siegmund, o homem que ontem reclamou o mandato, foi orador em Potsdam, a 25 de Novembro de 2023, na reunião em que Martin Sellner apresentou um plano de «remigração» que incluía cidadãos alemães; segundo a investigação da Correctiv, disse ali que os restaurantes estrangeiros deviam desaparecer da paisagem urbana e que a Saxónia-Anhalt devia tornar-se o mais pouco atraente possível para essa clientela. A minoria serve de passaporte de respeitabilidade até ao dia em que deixa de ser útil.

E agora o centro. O centro sabia. Sabia em 2015, quando abriu as fronteiras sem abrir um debate sobre volumes. Sabia em 2022, quando pôs centenas de milhares de pessoas num regime de prestações desenhado para outra coisa. Sabia em Solingen, sabia em Bucareste, sabia no Tiergarten. E o que fez com o que sabia foi calcular. Friedrich Merz fez aprovar a 29 de Janeiro de 2025 uma moção sobre migração com os votos da AfD, por 348 contra 344; dois dias depois viu o seu projecto de lei chumbado por 349 contra 338 e jurou de novo fidelidade à Brandmauer, que sempre serviu de manobra e nunca serviu de política. O SPD, que inventou o Bürgergeld, gastou a legislatura seguinte a rebaptizá-lo. Emmanuel Macron dissolveu a Assembleia em Junho de 2024 para clarificar, disse, e produziu três primeiros-ministros em treze meses. O PPE de Ursula von der Leyen gere a Comissão como quem gere um seguro de vida: paga-se o prémio, evita-se o sinistro. Em Portugal, o Chega é o segundo partido desde Maio de 2025. E Karl-Rudolf Korte, politólogo, disse ontem à noite na ZIB2 o que os politólogos dizem com frieza: a AfD saiu fortalecida da Brandmauer e de uma política de sentimentos. O muro tornou-se o substituto da política. Enquanto houve muro, não foi preciso governar.

Estou cansado de partidos que confundem manter-se com governar. Estou cansado de coligações cujo único programa é não serem a AfD, o RN, o FPÖ ou o Chega. Estou cansado de ouvir que a extrema-direita é um problema de comunicação quando é um problema de execução. Estou cansado de um centro que trata os eleitores dos lugares que não contam como um custo e os das metrópoles como um activo. Estou cansado de ver judeus e homossexuais servirem de argumento a todos e de prioridade a ninguém. Basta de cordões sanitários sem sanidade. Basta de governar contra alguém em vez de governar para alguma coisa.

Se o centro quiser recuperar o oxigénio que entregou, o programa cabe em cinco pontos e nenhum exige rever os Tratados.

  1. Volumes anuais decididos pelos parlamentos. Cada parlamento nacional fixa todos os anos, ao abrigo do artigo 79.º, n.º 5, do TFUE e com base num relatório do mercado de trabalho (vagas por preencher, desemprego, demografia, habitação) que o governo entrega até data certa, o volume de admissão de nacionais de países terceiros para trabalho, com publicação e coordenação à escala da União. Modelo: Austrália e Canadá. O asilo fica onde está, na Convenção de Genebra e no Pacto, e deixa de servir de via de imigração económica por omissão.
  2. Reciprocidade no Estado social. As prestações não-contributivas para adultos em idade activa passam a depender de um período mínimo de contribuições ou de residência legal, com a jurisprudência Dano como cobertura para os cidadãos da União e regra equivalente para os nacionais de países terceiros; a residência permanente condiciona-se a língua e emprego, como na Dinamarca. Os refugiados reconhecidos continuam protegidos; a protecção deixa de ser confundida com uma pensão.
  3. Execução do Regulamento dos Serviços Digitais. Prazos legais para concluir os processos por riscos sistémicos, procedimento acelerado em período eleitoral, acesso efectivo dos investigadores aos dados e coimas indexadas ao volume de negócios. Nenhum crime novo de opinião; o cumprimento do que já foi legislado.
  4. O arsenal da democracia defensiva, aplicado dos dois lados. Financiamento, lei penal, disciplina parlamentar e fiscalização de contas, como defendi em Agosto, para os partidos que atacam a ordem constitucional; e o mesmo rigor, com afastamento do território sempre que a lei o permita, para os estrangeiros referenciados como ameaça e para as redes que os sustentam. A ordem pública não escolhe lado.
  5. Política de lugar para os lugares que não contam. Investimento condicionado a resultados nas regiões em atraso, serviços públicos com presença física e não apenas digital, e descentralização fiscal que dê às regiões instrumentos e responsabilidades. É o «o que fazer» do título de Rodríguez-Pose e é a única parte do programa que trata a doença em vez da febre.

Cassandra não se enganou uma única vez; foi apenas desacreditada até Tróia arder. A regra é antiga e não tem excepções conhecidas: um centro que não governa as causas acaba governado pelos efeitos. Na Saxónia-Anhalt, o prazo venceu ontem.

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