Baviera

A testemunha de Dachau: o Duque Franz da Baviera

Frédéric de Natal, redactor-chefe da Revue Dynastie e do sítio Monarchies et Dynasties du Monde, assinou há dias uma peça breve e desassossegante. Resume-a ele próprio em duas linhas: aos noventa e três anos, S.A.R. o Duque Franz da Baviera, Chefe da Casa Real da Baviera, alerta para a subida dos extremismos, para o ressurgimento do antissemitismo e para o enfraquecimento das democracias ocidentais, e o seu testemunho ressoa como o de um homem cuja família pagou um alto preço pela sua oposição ao III Reich.

De Natal, que não é, convém dizê-lo, um autor suspeito de simpatias republicanas, tem o mérito de perceber por que razão esta entrevista importa mais do que as habituais declarações de circunstância que enchem as páginas do Gotha. Não importa por ser um príncipe a falar. Importa por ser uma testemunha.

A entrevista original foi dada a Christian Nitsche, redactor-chefe da Bayerischer Rundfunk, a televisão pública do Estado Livre da Baviera, e foi difundida a 30 de Julho passado. Quem quiser o relato integral em francês encontrá-lo-á também no Histoires Royales, pela pena de Nicolas Fontaine.

biografia

Convém recordar de quem falamos, porque a biografia é aqui inseparável da tese.

Os Wittelsbach governaram a Baviera desde 1180 — condes palatinos, duques, eleitores do Sacro Império, e reis a partir de 1806 — até à abolição da monarquia em 1918. O Duque Franz é bisneto de S.M. o Rei Luís III da Baviera, o último rei. Numa outra vida, teria reinado.

Mas a razão pela qual a sua palavra pesa não está no que a família foi; está no que a família fez. S.A.R. Príncipe Herdeiro Ruperto recusou prestar juramento a Hitler e proibiu os seus partidários de aderirem ao NSDAP, apesar das propostas nazis de restauração monárquica em troca de apoio. O S.A.R. o Príncipe Alberto, pai de Franz, fugiu com a família para o exílio na Hungria. Em 1944, apanhados pela Gestapo, os membros da antiga família real foram deportados para Sachsenhausen, Flossenbürg e Dachau. Franz tinha onze anos. Conta ele, agora, que no campo lhe pareceu evidente uma única coisa: que dali não sairia vivo.

Guardemos este dado, porque é o nervo de tudo o resto. A resistência bávara ao nacional-socialismo não veio dos progressistas. Veio de uma dinastia católica, conservadora e legitimista, e do partido católico-conservador que governava Munique. O nazismo não perdoou nem a uns nem a outros. Quem hoje se habituou à equação preguiçosa entre tradição e autoritarismo faria bem em passar uma tarde nos arquivos de Nymphenburg.

O populismo começa pela gramática

O que S.A.R. o Duque Franz da Baviera efectivamente disse não foi um manifesto. Foi uma observação clínica, e é por isso que incomoda.

Diz ele que devemos permanecer sempre vigilantes, e que a coisa começa por uma linguagem mais dura, começa por uma brutalidade acrescida na vida privada e na vida pública, e só depois se estende à política e à economia. Nota, com igual distância, que os extremos, tanto de direita como de esquerda, acham muito mais cómodo servir-se de palavras de ordem esvaziadas de sentido. Declara-se contra toda a exclusão, contra todo o denegrir de outrem ou de outros grupos, contra todo o racismo e contra todo o extremismo. E confessa que o ressurgimento do antissemitismo o inquieta particularmente, acrescentando, com precisão, que não deve passar despercebida, que não apenas na Alemanha.

Reparemos na sequência que ele descreve, porque é a parte verdadeiramente original do diagnóstico. Sua Alteza Real não diz que a barbárie começa nas urnas. Diz que começa na conversa privada — à mesa, no café, no comentário anónimo — e que só depois migra para o discurso público, depois para o programa político e por fim para a economia. É a inversão exacta da narrativa cómoda que fazemos, segundo a qual demagogos maus corrompem povos bons. O testemunho de quem viveu os anos trinta é o oposto: quando o demagogo chega, a linguagem já está preparada há muito.

Acrescento uma observação que é minha e não dele. Um homem que esteve em Dachau aos onze anos não usa a palavra extremismo como figura de retórica de fim de semana. Usa-a como quem reconhece um cheiro.

O que Kuehnelt-Leddihn diria

Há aqui um ponto de teoria política que me interessa mais do que a notícia.

Erik von Kuehnelt-Leddihn passou a vida a demonstrar uma tese que a nossa época tem dificuldade em digerir: a de que liberdade e igualdade não são sinónimos, e que o princípio maioritário, entregue a si próprio, não oferece garantia nenhuma às minorias. A democracia de massas pode ser, e historicamente foi, o veículo do pior. Hitler não tomou o poder por golpe de Estado; chegou por via eleitoral, com o entusiasmo de milhões, e liquidou depois exactamente aquelas instituições — a Coroa, a Igreja, a magistratura independente, os corpos intermédios, as autonomias regionais — cuja função era travá-lo.

Ora, a Casa Real da Baviera é a ilustração viva desse argumento. Foi das poucas instituições alemãs a dizer não em 1933, e disse-o precisamente porque não devia a sua legitimidade ao voto. Um chefe de dinastia não tem eleitorado a agradar, não tem sondagem a subir, não tem próxima campanha a financiar. É essa independência estrutural, e não qualquer virtude pessoal superior, que lhe permite dizer o que o político não pode dizer.

Note-se, aliás, a disciplina do próprio Duque da Baviera: em toda a entrevista, e apesar do óbvio contexto alemão, não nomeia um único partido. Recusa entrar no mercado eleitoral. É essa recusa que lhe dá autoridade moral, e é essa recusa que o populismo, por definição, é incapaz de imitar, porque o populismo é integralmente um fenómeno de mercado eleitoral, que vive de identificar um povo puro contra uma elite corrupta e de vender essa identificação ao maior número.

Quando o mesmo Duque da Baviera afirma que monarquia e democracia não se excluem mutuamente, e que a Baviera está em boas mãos com a actual forma de governo, não está a abdicar de coisa alguma. Está a dizer o que Kuehnelt-Leddihn e Röpke sempre disseram: que a questão não é quem governa, é o que limita quem governa. Uma democracia sem limites é tão perigosa quanto um trono sem eles.

Uma nota sobre a tolerância

Há na entrevista um segundo tema, e recuso-me a tratá-lo como anedota mundana, porque não o é.

Em 2023, o atual Duque da Baviera assumiu publicamente viver há quarenta anos com Sr. Thomas Greinwald. É, ao que se sabe, o único chefe de uma casa real a assumir abertamente a sua homossexualidade. Diz agora esperar que aquilo tenha realmente feito diferença, e formula um desejo que vale mais do que muitos programas partidários: o de que chegue um dia em que a tolerância deixe de ser necessária, não por se ter tornado obrigatória, mas por se ter tornado desnecessária.

Escrevi neste blogue, há poucas semanas, que proteger as marchas do orgulho é proteger a democracia liberal europeia. Mantenho-o, e encontro aqui a confirmação de que precisava. Porque o mesmo homem que faz esta afirmação sobre a tolerância é o rapaz que esteve em Dachau; e Dachau foi o destino de comunistas, de judeus, de padres católicos, de testemunhas de Jeová, de ciganos e de homossexuais, todos pela mesma razão, que é a de não caberem na definição oficial de povo.

É este o ponto que a direita europeia contemporânea insiste em não querer perceber. A defesa das minorias não é uma concessão feita ao progressismo. É a essência do constitucionalismo ocidental, cuja função inteira, desde a Magna Carta, foi impedir que o poder, régio ou popular, tanto faz, trate o particular como matéria descartável. Quem abandona essa defesa por cálculo eleitoral não está a ser conservador. Está a ser jacobino com outra bandeira.

Da objecção que se deve fazer

Seria intelectualmente desonesto terminar sem enfrentar a objecção mais séria, que existe e é forte.

Dirá o crítico: populismo é hoje uma palavra elástica, aplicada indiscriminadamente a tudo o que desagrada às capitais, e serve com frequência para deslegitimar descontentamentos eleitorais perfeitamente legítimos — sobre imigração, sobre custo de vida, sobre a distância entre as instituições europeias e quem as paga. E acrescentará, com alguma malícia: um príncipe de noventa e três anos a advertir contra a revolta popular é, no fundo, uma elite a defender elites.

Tal objecção tem peso, mas importar introduzir os seguintes pontos:

  • Primeira: Franz não critica o descontentamento; critica o método. As palavras de ordem esvaziadas de sentido não são o eleitorado insatisfeito, são o instrumento com que se o explora. Pode-se ter razão nas queixas e estar errado nos meios, e isso não é contradição.
  • Segunda: a advertência dirige-se explicitamente aos extremos de direita e de esquerda. Quem quiser lê-la como arma partidária terá de a amputar primeiro.
  • Terceira, e a que mais me importa: se a palavra populismo está gasta, o remédio não é abandonar a vigilância, é recuperar a precisão. Chamemos-lhe então pelo nome técnico: a doutrina segundo a qual existe um povo homogéneo e virtuoso cuja vontade não deve encontrar limite institucional algum. Formulada assim, sem o verniz, percebe-se de imediato o que tem de perigoso, e percebe-se também que não é privativa de nenhum quadrante.

onclusão

Há uma ironia final nesta história, e é a melhor razão para a contar.

O século XX aboliu as monarquias europeias em nome do progresso, da vontade popular e da modernidade. Muitas dessas repúblicas duraram menos de vinte anos e acabaram em campos de concentração. Sobrou desse naufrágio, entre outras coisas, um rapaz de onze anos em Dachau, que hoje tem noventa e três e que continua a olhar para a Europa com a atenção de quem já viu este filme.

Quando um homem assim nos diz que começou outra vez, que a linguagem endureceu, que o antissemitismo voltou, que a brutalidade migrou da conversa privada para a praça pública então, a resposta decente não é discutir se ele tem legitimidade para o dizer.

É calar e verificar.

Fontes: Frédéric de Natal, «Franz de Bavière, inquiet par la montée des populismes en Europe», Monarchies et Dynasties du Monde; entrevista do duque Franz da Baviera a Christian Nitsche, Bayerischer Rundfunk, 30 de Julho de 2026; Nicolas Fontaine, Histoires Royales, 30 de Julho de 2026. Imagem: Retrato do Duque Franz, pintado por Dieter Stein em 1985

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