Existe um velho critério, mais antigo do que qualquer constituição escrita, pelo qual se mede a saúde de uma ordem livre: não o tratamento que ela dispensa às suas maiorias, pois estas sabem cuidar de si, mas o tratamento que reserva aos seus não-conformistas. Montesquieu sabia-o; Tocqueville, que temia a tirania branda das maiorias mais do que a dos déspotas, sabia-o melhor ainda; e Jacob Burckhardt, o profeta melancólico de Basileia, previu com precisão arrepiante o século em que os terribles simplificateurs haveriam de esmagar, em nome do povo, tudo o que no povo houvesse de singular.
No sábado passado, em Berlim, uma carrinha lançada contra a multidão do Christopher Street Day matou uma pessoa e feriu dezassete, colocando, mais uma vez em causa, a libertas europeia.
O cortejo como instituição
Convém recordar o que é, juridicamente falando, uma marcha do Orgulho. Não é um sacramento nem um dogma: é um exercício do direito de reunião pacífica, exatamente o mesmo direito que os liberais autênticos do século XIX, de Benjamin Constant a Lord Acton, consideravam a pedra angular de qualquer ordem civilizada, porque é o direito pelo qual os fracos se tornam visíveis sem se tornarem violentos. A campanha lançada pela ILGA-Europe e pela EPOA sob o lema Protect Pride. Protect Democracy. di-lo com uma sobriedade que lhe fica bem: o Pride é uma das expressões mais visíveis das liberdades de reunião e de protesto pacífico, e as restrições a essas liberdades são sinais de aviso de que pressões mais vastas se abatem sobre todos, e não apenas sobre as pessoas LGBTI+.
Eis um raciocínio que qualquer conservador digno desse nome deveria subscrever de imediato. Pois o que é a alternativa? É o princípio de que a rua pertence a quem grita mais alto ou atropela mais depressa, i.e. o princípio, numa palavra, da oclocracia. E a oclocracia, como sabiam os gregos e como esqueceram os modernos, não é o excesso da liberdade: é a sua negação mais completa, a antecâmara de todos os cesarismos.
O assassino como democrata invertido
O suspeito de Berlim, um jovem de vinte e um anos, alegadamente ligado a círculos islamistas, entretanto abatido pela polícia, não atacou uma orientação sexual. Atacou uma forma: a forma da cidade aberta, onde os dissemelhantes coexistem sob a mesma lei sem se exterminarem. O Chanceler Merz chamou-lhe um ataque à nossa sociedade; o presidente da Câmara de Berlim, Kai Wegner, um ataque à sociedade livre e cosmopolita. Ambos têm razão, mas a razão é mais funda do que suspeitam. O totalitário, seja ele jacobino, nacional-socialista, bolchevique ou teocrático, reconhece sempre, com o instinto certeiro do predador, onde reside o coração do inimigo. E o coração da Europa livre não é uma bandeira nem um hino: é a procissão desarmada, seja ela de Corpus Christi ou de Christopher Street, que atravessa a cidade confiando em que ninguém a esmagará.
Quem hoje sorri porque as vítimas não eram das suas, e as redes sociais transbordaram, nas horas seguintes, de escárnio de uma vileza que dispenso reproduzir, comete um erro que ultrapassa a mera indecência moral. Comete um erro de cálculo político elementar. A carrinha que ontem investiu contra um cortejo arco-íris investirá amanhã contra uma procissão mariana, um mercado de Natal, uma romaria. O precedente não escolhe credos; escolhe multidões indefesas. Aplaudir a violência contra o não-conformista alheio é serrar o ramo sobre o qual todos os não-conformistas — e todos nós o somos, aos olhos de alguém — estamos sentados.
Contra a tentação identitária, a lei
Dir-me-ão alguns, que estas marchas são elas próprias manifestações de um identitarismo que um crítico da massificação deveria repudiar. Porém importa recordar algo mais importante: uma coisa é o juízo cultural que cada um de nós, no foro da sua consciência e nas páginas dos seus escritos, faz sobre este ou aquele fenómeno; outra, inteiramente diversa, é a moldura jurídica que permite que esse juízo se exerça em palavras e não em atropelamentos. Posso achar um cortejo de mau gosto — acho muitos, de todas as cores — e defender até ao fim o seu direito de desfilar. Foi sempre esta a posição dos verdadeiros liberais, essa espécie rara que nunca confundiu tolerância com aplauso nem discordância com extermínio.
A Europa das liberdades não nasceu nos plebiscitos nem nas aclamações; nasceu nos foros, nas cartas, nos privilégios, na teimosa convicção medieval de que há esferas onde nem o príncipe nem a turba podem entrar. As marchas do Orgulho são herdeiras, porventura involuntárias, dessa tradição: corpos que reclamam da autoridade não favores, mas a protecção igual da lei. Quando essa protecção falha, ou quando é recebida com gargalhadas, não é uma minoria que perde. É a própria arquitectura da liberdade europeia que estala.
Por isso o digo: defender o Pride é, hoje, defender a democracia liberal europeia; não porque as duas coisas sejam idênticas, mas porque o inimigo de uma provou, em Berlim, ser inimigo mortal da outra. E entre a carrinha e o cortejo, um europeu que se preze não tem o direito de hesitar.

