Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

Memória sem Luto: Portugal e o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

Hoje assinala-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, e em Portugal passa-se, como quase sempre, com comunicados protocolares, coroas simbólicas e um silêncio institucional ensurdecedor. Não é feriado. Não é dia de luto nacional. Não interrompe o ruído banal da política diária nem suspende a máquina administrativa que tudo relativiza. Recorda-se Auschwitz como quem cumpre uma formalidade, não como quem enfrenta um abismo moral que continua aberto.

O regime nazi não foi apenas um episódio histórico particularmente violento; foi uma empresa racional de aniquilação humana conduzida por um Estado moderno, tecnicamente eficiente, ideologicamente convicto e socialmente mobilizado. Judeus foram exterminados em escala industrial; ciganos foram caçados como resíduos humanos; homossexuais desapareceram sem estatísticas fiáveis, sem memoriais suficientes, sem nomes preservados; deficientes foram eliminados em nome de uma higiene social; opositores políticos foram esmagados; católicos que resistiram ao totalitarismo foram perseguidos por recusarem substituir a consciência por um catecismo estatal. Tudo isto não aconteceu à margem da civilização europeia, aconteceu no seu centro administrativo, jurídico e científico.

Portugal gosta de se refugiar numa narrativa confortável: neutralidade, prudência, distância. É verdade que houve ambiguidade. É verdade que houve diplomatas que salvaram vidas, e o nome de Aristides de Sousa Mendes permanece como acusação moral eterna contra a obediência cega. Mas também é verdade que a neutralidade histórica não equivale a inocência, e que a distância geográfica nunca absolve a indiferença moral. Recordar o Holocausto exige maturidade histórica, não mitologias auto-consolatórias.

O escândalo maior, porém, não está no passado, está no presente. Num país onde quase tudo se transforma em feriado, onde o luto é decretado para conveniências circunstanciais, o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto não merece “interrupção” da normalidade cívica. A República não pára. A administração não cala. A política não se recolhe. Como se o maior crime do século XX fosse apenas um tema opcional do calendário internacional.

Esta omissão cria o terreno fértil onde prosperam os que relativizam, os que insinuam, os que piscam o olho a saudosismos autoritários, os que exploram o ressentimento social com linguagem higienizada, os que dizem “nunca mais” enquanto repetem os pressupostos morais que tornaram o crime possível. Não é preciso negar câmaras de gás para preparar o regresso da lógica que as construiu; basta normalizar a desumanização, o culto da força, o desprezo pela diferença e a nostalgia de uma ordem imposta.

A classe política portuguesa, toda ela, sem excepção, prefere a memória inofensiva à memória exigente. Prefere cerimónias a consequências. Prefere condenar o passado enquanto tolera, no presente, discursos que reabilitam o inimigo interno, a pureza moral, a hierarquia biológica disfarçada de “senso comum”. Não declarar este dia como feriado civil ou luto nacional obrigatório não é esquecimento inocente; é recusa em assumir que o Holocausto não foi um acidente, mas um aviso estrutural.

Um país que não interrompe a sua rotina para recordar Auschwitz ensina, silenciosamente, que a barbárie é compatível com a normalidade. E é exactamente assim que ela regressa: não com botas a marchar de imediato, mas com formulários, slogans, burocratas obedientes e multidões cansadas de pensar.

Recordar as vítimas do Holocausto não é um gesto simbólico. É uma obrigação política permanente. E enquanto Portugal não tiver a coragem de parar um dia inteiro, não para celebrar, mas para se envergonhar da sua neutralidade histórica, continuará a fingir que aprendeu a lição, enquanto prepara as condições para a repetir.

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