Das 9h às 17h



Será que Sua Excelência o Vice-Presidente do Governo Regional, o Dr. Pedro Calado, tem verdadeiramente consciência daquilo que é um mercado de trabalho racional e Europeu? 

 

Faço esta pergunta porque no passado dia 28 de Outubro, e num discurso contrário à matriz social-democrata e “Sá-Carneirista” daquilo que é entendido como sendo os verdadeiros Direitos dos Trabalhadores, o Dr. Pedro Calado declarou, e passo a citar: “Acho que é um modelo que está esgotado. Nós não podemos ter essa ideia na cabeça que o mercado de trabalho é das 9h às 17h”, “Pelo amor de Deus tirem essa ideia da cabeça.”

 

Excelência, o que está esgotado é a generalidade do patronato português continuar a julgar que o salário mínimo é suficiente, que o trabalhador não tem vida pessoal e que substituir horas extraordinárias por subsídios míseros de isenção de horário é o melhor passo para o crescimento sustentável de uma empresa. Recorde-se o mais recente estudo da Michael Page sobre a tendência, reveladora de má gestão, que é o fenómeno do “home office”.

 

O que está esgotado é o patronato português continuar a pensar que um posto de trabalho é um favor prestado ao trabalhador e julgar que condições de trabalho que não permitam o correto equilíbrio entre vida pessoal e vida profissional são o caminho para a felicidade, desenvolvimento e permanência de um trabalhador na empresa, muito pelo contrário.

 

O que está esgotado é o patronato português continuar a pensar que se pode aproveitar dos benefícios sociais do Instituto de Emprego para dispor de mão de obra a custo zero, financiada pelo dinheiro dos contribuintes, perpetuando assim um ciclo vicioso entre empresas e auxílios estatais mascarados de programas de integração no mercado de trabalho. 

 

Excelência, o que está esgotado é o próprio horário das 9h às 17h. Se este fosse das 7h às 15h como acontece nos países escandinavos e germânicos, e o sector público das 9h às 17h, a grande maioria da população não seria obrigada a justificar faltas ou a gozar de férias para poder adquirir bens e serviços públicos.

 

O que está esgotado é o patronato português continuar a gerir o seu principal ativo, cada vez mais qualificado, como se estes fossem meras máquinas de extrair lucros e dividendos, contribuindo, ainda mais, para o agravamento do inverno demográfico e consequentemente uma produtividade decrescente da população em idade ativa.

 

Essa visão redutora do mundo, das pessoas e do mercado de trabalho revelam apenas uma coisa: a plena ignorância relativamente ao futuro de uma Economia cada vez mais automatizada e assente na inteligência artificial. Portugal e a Região Autónoma da Madeira não podem encarar o verdadeiro futuro daquilo que será o mercado de trabalho enquanto os trabalhadores não tiverem os seus direitos plenamente garantidos e assegurados e o patronato os encarar como meros peões descartáveis de um jogo de xadrez. 

 

 P.S.: Senhor Vice-Presidente, humildemente recomendo a Vossa Excelência que faça uma visita às empresas multinacionais sediadas em Pequim, capital da República Popular da China e veja a que horas os funcionários, em especial o qualificado e com contrato de trabalho chinês, saem do edifício. “Spoiler Alert”: 17h.

 



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