problema da NATO

O Problema da NATO Somos Nós

A retirada de cinco mil militares norte-americanos da Alemanha, anunciada pelo Pentágono na sexta-feira passada, não deveria ter surpreendido absolutamente ninguém. E, no entanto, surpreendeu toda a gente em Bruxelas, em Berlim, em Madrid, em Roma, onde os ministros se entreolham agora com aquela expressão peculiar do funcionário público que descobre, aos cinquenta anos, que afinal a reforma não está garantida. O problema da NATO, ladies and gentlemen, não começou esta semana. Começou no momento em que os europeus decidiram que pensar estrategicamente era uma atividade vulgar, deixada aos americanos e aos russos, enquanto Bruxelas se ocupava de regulamentar a curvatura dos pepinos.

O Problema da NATO Começa por uma Confusão Sobre o que é a América

Há que ser claro, e os portugueses, herdeiros de uma tradição política que sabe distinguir república de democracia plebiscitária, deveriam sê-lo mais do que ninguém: a América de 2026 não é uma anomalia. É o produto lógico de dois séculos e meio de deriva democrática. Convém recordar que a democracia de massas, entregue ao plebiscito permanente e ao culto do executivo carismático, tende com regularidade matemática para a tirania da maioria, ou, pior, para a tirania do humor matinal de um homem só. Que esse homem se chame Andrew Jackson, Woodrow Wilson, Franklin Roosevelt ou Donald Trump é, do ponto de vista da estrutura constitucional, secundário.

Os Founding Fathers desenharam uma república; os americanos, geração após geração, transformaram-na num plebiscito contínuo. O resultado é a política externa que hoje observamos: o porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, justifica a retirada com a “retórica inadequada” do Chanceler alemão, como se a defesa do flanco oriental da Aliança fosse uma questão de melindre pessoal. E é. Esse é precisamente o problema. Numa república madura, a política de defesa não se altera porque o presidente leu um post de Friedrich Merz a dizer que os iranianos estão a humilhar Washington, afirmação que, en passant, é factualmente correta. Mas não estamos perante uma república madura. Estamos perante uma democracia tardia, onde a política externa é refém do Truth Social matinal e do humor flutuante do eleitor mediano de Ohio.

O Problema da NATO Continua em Bruxelas, Onde Ninguém Previu o Previsível

A Comissão Europeia, esse “Vaticano laico” de funcionários sem mandato eleitoral, tinha uma única função estratégica neste mandato: preparar a Europa para o dia em que o guarda-chuva americano deixasse de abrir. Falhou. Falhou apesar de avisos repetidos do Royal United Services Institute, do International Institute for Strategic Studies, do Carnegie Endowment, da própria European Council on Foreign Relations, todos os centros de análise sérios passaram a última década a escrever, em prosa cada vez mais exasperada, que a saída americana não era uma hipótese, mas um cronograma.

Ed Arnold, do RUSI, observou esta semana que a verdadeira preocupação europeia nem sequer é a saída de cinco mil soldados; é o redeslocamento de sistemas Patriot e munições da Alemanha para o Médio Oriente. Tradução para quem não fala dialeto militar: a Europa pode perder a sua defesa antiaérea de ponta porque Washington precisa dela noutro teatro, e não há nada, absolutamente nada, que Bruxelas possa fazer para o impedir.

Onde estavam os Eurocratas? Onde esteve Ursula von der Leyen, médica de formação, que devia ter percebido que um paciente em estado terminal não se trata com mais reuniões do Conselho? Onde estava o Serviço Europeu para a Ação Externa, aquela secretaria com edifício mais imponente do que o do Foreign Office mas com menos influência geopolítica do que o consulado suíço em Phnom Penh? Ocupados, suponho, a redigir comunicados sobre a “autonomia estratégica”, expressão que, no léxico de Bruxelas, significa fazer exatamente nada com vocabulário francês.

O Problema da NATO Chega às Capitais Nacionais Como Uma Briga de Galinheiro

E nas capitais? Pior. Friedrich Merz, recém-chegado à Chancelaria com promessas de seriedade, decidiu que o momento certo para criticar publicamente a estratégia americana no Irão era exatamente o momento em que a Alemanha alberga 36 mil militares norte-americanos em cinco guarnições. Diplomacia de manual: insultar o anfitrião quando ainda se está em casa dele. Pedro Sánchez, em Madrid, recusou ceder bases para operações relativas ao Irão, posição que tem mérito jurídico, mas que foi anunciada com a subtileza tribunícia de quem precisa de manchetes domésticas. Giorgia Meloni, após anos a posar como a trumpiana da Europa, descobriu agora que a amizade com Washington tinha letras pequenas. Macron, sempre Macron, faz discursos sobre a autonomie stratégique que ninguém transforma em decretos.

Vinte e sete galinhas num galinheiro, cada uma a defender bicar a sua própria parcela de milho, enquanto a raposa, não Trump, repare-se, mas a transformação estrutural da política externa americana, já entrou pela porta do fundo.

O que Seria Pensar com Previsão Estratégica

Um continente sério, em 2020, teria começado a planear o pilar europeu da NATO em termos operacionais, não retóricos. Teria acelerado a integração industrial, porque a Europa opera dezassete tipos de carros de combate principais enquanto os Estados Unidos operam um. Teria resolvido a questão da dissuasão nuclear: ou negociando com Paris uma extensão credível do parapluie francês, ou acolhendo seriamente a proposta polaca de partilha nuclear. Teria criado um quartel-general europeu funcional, não um secretariado decorativo. Teria, sobretudo, gasto dinheiro a sério, e não os 2% do PIB que se tornaram um fetiche contabilístico, mas os 3 a 4% que a situação real exige.

Em vez disso, temos a Bússola Estratégica, documento cuja leitura provoca o mesmo efeito narcótico que as encíclicas papais sobre temas económicos: muito latim, pouca ação. Temos a Permanent Structured Cooperation, projeto que produziu, em sete anos, mais reuniões do que capacidades. Temos o Fundo Europeu de Defesa, dotado com verbas que a Polónia gasta sozinha em três meses.

O Problema da NATO Somos Nós

A retirada de cinco mil soldados americanos é, em si mesma, militarmente trivial. Bradley Bowman, da Foundation for Defense of Democracies, observou que a presença militar dos EUA na Alemanha serve sobretudo para projetar poder no Mediterrâneo, no Médio Oriente e em África, ou seja, é tão útil para Washington como para Berlim. O Senado americano, no 2026 National Defense Authorization Act, fixou um limite mínimo de 75 mil militares na Europa. A retirada atual é um aviso, não um divórcio.

Mas o aviso é claro, e a resposta europeia continua a ser uma combinação de indignação moral e paralisia operacional, o pior cocktail possível em política internacional. Quando o historiador escrever, daqui a vinte anos, o capítulo sobre o colapso da ordem atlântica, o vilão não será Trump. Será o eurocrata que, em 2025, redigia comunicados sobre direitos digitais enquanto a Alemanha perdia as suas baterias antiaéreas. Será o Chanceler que escolheu o microfone errado no momento errado. Será a primeira-ministra que descobriu, demasiado tarde, que ter razão em política externa não chega, é preciso ter também aviões, mísseis e a coragem republicana, na velha aceção romana do termo, de os usar.

A raposa já não está à porta. Está dentro. E as galinhas continuam a discutir entre si.

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *