É com profunda comoção e o coração em prece que muitos de nós, admiradores da Monarquia Tailandesa pelo mundo fora, recebemos as últimas notícias vindas do Palácio Real em Banguecoque. Sua Alteza Real a Princesa Bajrakitiyabha Narendira Debyavati, Princesa Rajasarinisiribajra, filha primogénita de Sua Majestade o Rei Vajiralongkorn (Rama X) e neta predilecta dos saudosos Reis Bhumibol Adulyadej, o Grande, e Sirikit, vive um momento delicado da longa provação que o seu povo acompanha desde dezembro de 2022.
Este artigo tem dois propósitos. Primeiro, partilhar com rigor e respeito a mais recente atualização clínica divulgada pelo Departamento da Casa Real. Segundo, prestar a justa homenagem a um percurso de vida verdadeiramente excepcional, o de uma princesa que, desde tenra idade, abraçou o dever de servir o Reino com a serenidade, a inteligência e a virtude que a Casa Chakri tem ensinado ao mundo há mais de dois séculos.
21 de maio de 2026
Na quinta-feira, 21 de maio de 2026, o Departamento da Casa Real emitiu o sétimo boletim médico oficial sobre o estado de Sua Alteza Real. O comunicado, sóbrio e detalhado como é tradição da Corte Tailandesa, dá conta de um agravamento clínico provocado por uma infeção abdominal grave, originada numa inflamação do intestino grosso detetada em abril.
De acordo com o Palácio, a infeção tornou-se incontrolável e estendeu-se a vários órgãos vitais. Os sinais vitais da Princesa apresentam-se instáveis, com tensão arterial baixa, batimento cardíaco irregular e coagulação sanguínea anormal. A equipa médica do Hospital Memorial Rei Chulalongkorn mantém apoio contínuo às funções pulmonar e renal, recorrendo a múltiplos antibióticos e a fármacos destinados a estabilizar a pressão arterial e o ritmo cardíaco. Apesar de todo o esforço terapêutico, o quadro continua a deteriorar-se.
Recordemos que a Princesa permanece internada desde 14 de dezembro de 2022, data em que sofreu um colapso cardíaco grave durante uma sessão de treino com cães militares, no qual era reconhecidamente perita. Desde então, mantém-se em coma sob cuidados médicos permanentes, uma provação suportada pela Família Real com a discrição e a dignidade que sempre a distinguiram.
Uma princesa formada para servir
Nascida em 7 de dezembro de 1978, no Palácio Amphorn Sathan, em Banguecoque, a Princesa Bajrakitiyabha foi a primeira neta dos amados Reis Bhumibol e Sirikit. Tal facto reveste-se de profundo significado simbólico: a sua chegada ao mundo foi recebida como uma bênção para a Dinastia Chakri e o pequeno apelido carinhoso “Pa”, pelo qual é tratada pelos próximos, ecoou desde cedo nos corredores do Grande Palácio.
A educação que recebeu reflete o ideal régio de preparar uma serva exemplar do povo tailandês. Frequentou a Escola Rajini, em Banguecoque, e completou os estudos secundários em Inglaterra, no prestigiado colégio feminino Heathfield School, em Ascot. Regressou depois aos Estados Unidos para uma formação jurídica de excelência: obteve o mestrado em Direito (LL.M.) pela Cornell Law School em 2002 e, três anos depois, o doutoramento em ciências jurídicas (J.S.D.) pela mesma instituição, em 2005. Poucos membros de uma casa reinante exibem credenciais académicas tão sólidas.
A Princesa Jurista
De regresso à Tailândia, Sua Alteza Real escolheu o caminho menos confortável e mais exigente: o do serviço público quotidiano. Em setembro de 2006, foi nomeada procuradora no Gabinete do Procurador-Geral, em Banguecoque, e posteriormente colocada no Gabinete do Procurador-Geral da província de Udon Thani, no nordeste do país. Esta opção, viver longe das pompas da capital, trabalhando lado a lado com magistrados de carreira numa província rural, diz muito sobre o seu temperamento. Não procurou cargos honoríficos; procurou compreender, do interior, o sistema de justiça que mais tarde haveria de ajudar a reformar à escala global.
Diplomacia em Viena
Em 2012, com apenas 33 anos, foi nomeada Embaixadora Extraordinária e Plenipotenciária da Tailândia junto da República da Áustria. Acumulou simultaneamente as funções de Representante Permanente do Reino junto do Escritório das Nações Unidas em Viena, Representante junto da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) e Representante junto da Comissão Preparatória da Organização do Tratado de Proibição Completa de Ensaios Nucleares (CTBTO). Foi também Embaixadora não residente na Eslováquia e na Eslovénia.
Quem com ela trabalhou em Viena recorda uma diplomata trabalhadora, atenta ao detalhe, fluente em vários dossiês, desde a não proliferação nuclear ao combate ao tráfico de seres humanos, e dotada de uma serenidade régia que conquistava os interlocutores mais experientes. Em poucos anos, a Tailândia consolidou na capital austríaca uma reputação de seriedade diplomática que ainda hoje colhe frutos.
As Regras de Banguecoque
Se alguma realização há de ficar gravada nos manuais de direito internacional como contributo pessoal da Princesa Bajrakitiyabha, é a aprovação, pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2010, das Regras das Nações Unidas para o Tratamento de Mulheres Reclusas e Medidas Não Privativas de Liberdade para Mulheres Infratoras, universalmente conhecidas como Regras de Banguecoque (Bangkok Rules).
Sua Alteza Real liderou pessoalmente, durante anos, a campanha diplomática e técnica que levou estes preceitos da Tailândia para as Nações Unidas. Trata-se do primeiro instrumento internacional a reconhecer as necessidades específicas das mulheres privadas de liberdade, desde a saúde materna ao contacto com os filhos, passando pela proteção contra a violência sexual no sistema prisional. Hoje, dezenas de países adaptaram a sua legislação penitenciária a estas regras. É um legado humanitário de alcance verdadeiramente planetário, semeado por uma princesa tailandesa cujo nome justamente baptizou o documento.
Em reconhecimento, o Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC) nomeou-a, em 2017, Embaixadora da Boa Vontade para o Estado de Direito no Sudeste Asiático, distinção raríssima entre membros de famílias reinantes.
A sucessão na Dinastia Chakri
Não é segredo que, durante muitos anos, a Princesa Bajrakitiyabha foi considerada pela Casa Real, pelos círculos políticos de Banguecoque e por boa parte do povo tailandês como a sucessora natural ao Trono do Crisântemo. Filha primogénita do Soberano, de pleno sangue régio, possuidora de uma formação jurídica e diplomática invejável, oficial superior do Exército Real Tailandês, reunia todas as virtudes que a tradição Chakri tem cultivado nos seus melhores monarcas: cultura, serviço, disciplina e dharma.
A Lei do Palácio de 1924, com a histórica emenda de 1974, permite hoje, sob certas condições, a ascensão de uma princesa ao Trono. A própria avó de Sua Alteza, a venerada Rainha Sirikit, e a tia, a Princesa Real Maha Chakri Sirindhorn, demonstraram à sociedade que o serviço régio feminino é parte integrante da identidade da Dinastia. A Princesa Bajrakitiyabha encarnava, para muitos, essa continuidade natural.
A doença que a abateu em 2022 não apagou esse lugar simbólico. Pelo contrário: cada boletim médico tornou ainda mais evidente o lugar de afeto que ela ocupa no coração da Nação Tailandesa, e na própria espinha dorsal da Casa Chakri. Independentemente do que o destino reservar, Sua Alteza Real entrou já para a história como uma das figuras mais admiradas da sua geração.
Um apelo às orações
Encerro este texto com um apelo simples e fraterno a todos quantos, em Portugal e no mundo lusófono, nutrem afeto pela Monarquia Tailandesa e admiração pela Casa Chakri: rezemos por Sua Alteza Real.
Que os méritos acumulados ao longo de uma vida dedicada ao serviço do próximo, sobretudo das mulheres mais vulneráveis dos cárceres do mundo, possam agora amparar a Princesa nesta hora difícil. Que Sua Majestade o Rei Vajiralongkorn, Sua Majestade a Rainha Suthida, Sua Alteza Real a Princesa Soamsawali e toda a Família Real encontrem conforto na unidade do povo tailandês e na solidariedade dos amigos da Coroa em todos os continentes.
Que viva longo o Rei. Que Sua Alteza Real seja amparada. Que a Tailândia permaneça unida em volta da sua amada Família Real.
ทรงพระเจริญ — Songphrachareon: longa vida.

