rainbow ghosting

«O importante é haver amor»: o rainbow ghosting e a defesa das minorias como teste à democracia

Em março de 2019, o Sport Lisboa e Benfica lançou uma campanha inclusiva para as famílias sob o lema «O importante é haver amor». Não foi um gesto de vanguarda nem uma provocação: foi um clube popular, o maior do país em número de sócios, a dizer em voz alta uma coisa evidente. Este ano, no Mês do Orgulho, o clube calou-se. E não foi caso único. O silêncio, e não a hostilidade aberta, é o dado novo com que termina junho de 2026, e é sobre o que esse silêncio significa, aquilo a que um novo relatório chama rainbow ghosting, que vale a pena escrever quando as bandeiras se recolhem.

Menos visibilidade, mais hostilidade

O ponto de partida é um relatório. O estudo «Orgulho Sem Resposta», da consultora LLYC, divulgado esta semana pelo P3 e pela esQrever, dá nome ao fenómeno: o rainbow ghosting é o desaparecimento gradual da diversidade do espaço público. Os números são claros e são o contrário de um progresso. Em Portugal, a conversa pública sobre direitos LGBTI+ caiu 66%. A cobertura mediática sobre diversidade recuou cerca de 10% por trimestre nos últimos três anos. A conversa sobre o tema na rede social X caiu para metade desde 2023. O número de empresas com políticas ativas de diversidade e inclusão desceu para cerca de dois terços do que era em 2023. Junho transformou-se, nas palavras do relatório, numa «ilha» de atenção: um mês de visibilidade concentrada num calendário em que, nos restantes onze, o assunto simplesmente sai de cena.

O rainbow ghosting não é sinal de normalização

Quem lê estes números com pressa dirá que o silêncio é sinal de normalização, que já não é preciso falar de uma coisa que a lei resolveu. É uma leitura confortável e é falsa. Portugal mantém, é verdade, um dos quadros legais mais protetores da Europa nesta matéria. Mas a mesma análise que mede a queda da visibilidade mede a subida do seu oposto. Em oito dos dez países estudados, os ataques aumentaram, com um crescimento médio de 38% face aos quatro anos anteriores. Três em cada cinco mensagens analisadas são ataques diretos a pessoas LGBTI+. A conclusão da LLYC é seca e exata: «Aquilo de que se fala menos explica-se menos. O que se explica menos, entende-se pior.» Não há, portanto, menos conflito. Há menos contraditório. O silêncio não fechou a disputa; retirou-lhe apenas o lado que argumentava a favor da igualdade.

Há, porém, um segundo dado que merece atenção porque muda a natureza do problema. O discurso hostil também se transformou. O insulto explícito recua e, no seu lugar, aparece o argumento apresentado como preocupação legítima: a «proteção das crianças», a defesa da «família tradicional», a oposição à chamada «ideologia de género». Quase um quinto das mensagens hostis invoca precisamente a proteção da infância. Este é o ponto em que o assunto deixa de ser de comunicação e passa a ser de saúde institucional. Uma hostilidade que se disfarça de zelo moral não se combate com celebração pontual; combate-se com resposta pública, informada e continuada. É exatamente essa resposta que o rainbow ghosting suprime. Quando as instituições, as empresas e os órgãos de comunicação se retiram do tema onze meses por ano, deixam o campo entregue a quem nunca se retira, e a distorção, sem quem a corrija, instala-se como “senso comum”.

Uma questão de democracia

É por isso que a questão se torna, propriamente, uma questão de Democracia, e não de causa. A democracia não é apenas o método de contar votos. É um regime que se define, entre outras coisas, pela garantia de que a maioria não dispõe da condição de igual dos que estão em minoria. O princípio da igualdade do artigo 13.º da Constituição, a proibição de discriminação do artigo 21.º da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, a jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos: todo este edifício existe porque a experiência histórica ensinou que a vontade da maioria, entregue a si mesma, tende a tratar a diferença como ameaça. A defesa pública da igual dignidade das minorias não é um favor que a maioria concede; é a manutenção da própria arquitetura institucional que protege qualquer um de vir a ser, um dia, minoria também. Retirar essa defesa do espaço público é começar a desmontar a viga que sustenta tudo o resto.

Foi este o argumento que Chris Kremidas-Courtney desenvolveu, no European Policy Centre, num texto de 1 de junho com um título que diz tudo: o Orgulho (Pride) é o teste anual da democracia europeia. A tese é institucional e não sentimental. A forma como uma sociedade trata a possibilidade de as suas minorias se mostrarem no espaço público, com liberdade e sem medo, é um barómetro fiável do estado do seu regime democrático. E o barómetro, na Europa de 2026, está a descer. Não é preciso ir longe para o ler. Em junho, Budapeste voltou a marchar no primeiro Pride depois da proibição decretada pelo governo de Viktor Orbán, e a marcha tornou-se um plebiscito sobre o futuro da democracia húngara. Em Istambul, a polícia deteve mais de cinquenta pessoas, entre elas uma jornalista. Em Guimarães, ainda em 2024, uma marcha foi atacada durante o cortejo. O fim visível deste espetro é a proibição e a detenção. O seu fim discreto, mais difícil de fotografar, é o rainbow ghosting: o silêncio de um clube de futebol que há sete anos dizia que o importante era haver amor e que este ano preferiu não dizer nada.

O mesmo mecanismo, aplicado a outra minoria

Vale a pena olhar, por um momento, para outra minoria, porque o mecanismo é o mesmo e a comparação disciplina o argumento. O antissemitismo em Portugal não é uma abstração importada. O Relatório Anual de Segurança Interna de 2025 registou um aumento de 6,7% dos crimes de ódio, num total de 449 casos, e os serviços de informações têm alertado repetidamente para um clima crescente de insegurança dirigido especificamente à comunidade judaica, com atos de vandalismo em locais simbólicos como a Sinagoga do Porto e a Rua da Judiaria, em Lisboa. À escala europeia, o inquérito da Agência dos Direitos Fundamentais mostra que 37% dos inquiridos judeus sofreram assédio verbal no ano anterior e que a proporção de agressões físicas duplicou face a 2018. A Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância dedicou-lhe, no seu sexto relatório sobre Portugal, parágrafo próprio. O que estes números têm em comum com os do rainbow ghosting não é a identidade das vítimas, que é distinta, nem a história, que não se deve equiparar. É a lei do fenómeno: sempre que a defesa pública da condição de igual de uma minoria se retrai, o espaço para a hostilidade dilata-se. A minoria que deixa de ser defendida em voz alta não fica mais segura por ser menos falada. Fica mais exposta.

Convém ainda nomear o motor externo, porque ele existe e é recente. O recuo coincide com uma ofensiva política internacional contra as políticas de diversidade, equidade e inclusão, de que a atual administração norte-americana fez bandeira, pressionando empresas, universidades e instituições a abandonarem programas nesta área. O efeito chegou a Portugal por vias concretas: em abril de 2025, universidades portuguesas receberam questionários da embaixada dos Estados Unidos acompanhados da ameaça de cancelamento de financiamento e parcerias caso mantivessem determinadas políticas de inclusão. Falar de diversidade passou, para muitas organizações, a representar um risco reputacional, político ou financeiro. O silêncio, visto assim, não é indiferença. É cálculo. E um cálculo que se generaliza deixa de ser uma soma de decisões privadas para se tornar um facto público: o recuo coordenado de quem devia falar.

O silêncio também é uma posição

A tentação, chegados aqui, é responder com mais celebração, com um junho mais ruidoso para compensar os outros onze meses. Seria confundir o sintoma com a doença. O problema não é a falta de festa; é a falta de defesa continuada, argumentada, exercida durante todo o ano por quem tem posição e responsabilidade no espaço público. Um direito que só se defende num mês, ou que existe apenas na lei mas não no discurso, é um direito mais fácil de distorcer e mais vulnerável ao retrocesso. As leis não se sustentam sozinhas. Sustentam-se pela cultura pública que as torna óbvias, e essa cultura constrói-se falando. O contrário de um retrocesso legislativo não é uma marcha; é uma sociedade em que a igualdade das minorias é tão evidente que ninguém precisa de coragem especial para a afirmar. Estamos a afastar-nos desse ponto, não a aproximar-nos dele.

Não se trata de pedir a ninguém entusiasmo. Trata-se de reconhecer uma responsabilidade. Quem ocupa o espaço público, uma instituição, uma empresa, um clube, um jornal, um autarca, não tem a opção da neutralidade quando o assunto é a condição de igual de uma parte dos seus concidadãos, porque nesse terreno o silêncio não é ausência de posição: é uma posição. É a posição de quem decidiu que defender a igualdade custa demasiado e que é mais prudente deixar o argumento contrário sozinho no ar.

Uma democracia não morre apenas quando proíbe uma marcha. Morre também, mais devagar e com menos ruído, quando deixa de encontrar quem defenda, em voz alta e o ano inteiro, os que precisam de ser defendidos. Morre quando a igualdade se torna um tema de época, exposto em junho e arrumado em julho. Morre quando a hostilidade se veste de preocupação e já ninguém se dá ao trabalho de a desmentir. Morre quando o clube que dizia que o importante era haver amor conclui que o mais importante, afinal, é não incomodar. Nenhum destes gestos é, por si só, o fim de nada. Somados, são o desenho de um recuo. E o recuo, quando ninguém o nomeia, chama-se consentimento.

Que o silêncio deste junho fique, então, registado como aquilo que é. Não o sinal de que a batalha está ganha, mas o aviso de que se deixou de a travar. A defesa das minorias não é um adereço da democracia que se possa dispensar em anos difíceis. É a prova de que ela ainda funciona.

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