Regressei há pouco de Pequim e confesso, sem qualquer afetação retórica, que a surpresa foi considerável. Quem, como eu, conserva na memória a capital chinesa de há uma década, aquele manto plúmbeo e irrespirável que o Guardian tão assiduamente documentou, encontra hoje uma cidade transformada. O céu é visível. Os pulmões agradecem.
Os reponsáveis políticos chineses, decidiram que a qualidade do ar era uma questão de Estado e agiram em conformidade: encerram-se centrais a carvão, restringiu o trânsito de combustíveis fósseis, eletrificou frotas inteiras de autocarros e táxis e incentivou a aquisição de veículos pessoais elétricos. O resultado é empiricamente verificável e, para o visitante, quase desconcertante.
Ora, é precisamente este desconcerto que se adensa quando, ao regressar ao Funchal, a capital da Região Autónoma da Madeira, pérola do Atlântico, somos recebidos pela cacofonia de veículos velhos, pelo pestilento bafo de escapes em ruas e avenidas e por um nível de poluição sonora que faria corar de vergonha qualquer urbanista medianamente competente. O Funchal, cidade abençoada pela geografia, pelo clima e pela beleza natural, é paradoxalmente mais ruidosa e mais insalubre, em certos dias, no seu ar quotidiano do que a metrópole de vinte e dois milhões de almas que acabo de deixar.
Como é isto possível? Como pode uma cidade de pouco mais de cem mil habitantes, inserida num espaço europeu que se proclama campeão da transição ecológica, revelar-se tão visceralmente indiferente à qualidade do ar que os seus cidadãos respiram? A resposta é tão prosaica quanto desoladora: falta de visão política. Não se trata de recursos, afinal a Madeira recebe fundos europeus generosos, mas de uma apatia intelectual que confunde governar com administrar o quotidiano.
É verdadeiramente incompreensível que as sucessivas governações regionais não tenham apostado, com vigor e determinação, na mobilidade elétrica, e consequentemente na qualidade do ar no Funchal. Incentivos fiscais robustos, uma rede de carregamento digna desse nome, a eletrificação progressiva dos transportes públicos, nada disto requereria génio, apenas a vontade política de olhar para o que o resto do mundo civilizado já está a fazer. Pequim, repito, já o fez. E fê-lo numa escala que torna a inação madeirense não apenas lamentável, mas grotesca.O homem livre respira, e tem o direito de respirar bem. A liberdade não é apenas uma abstração jurídica; manifesta-se também no ar que entra nos pulmões e no silêncio que permite pensar. Que uma Região Autónoma europeia se deixe ultrapassar nesta matéria elementar pela própria China, convenhamos, uma ironia demasiado amarga para ser ignorada.
Quo vadis qualidade do ar do Funchal?

