Inteligência Artificial

Inteligência Artificial na China

Um ato vale mais que mil palavras. Quando, no passado dia 27 de abril, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (國家發展和改革委員會) ordenou à Meta de Mark Zuckerberg que desfizesse a aquisição, por mais de dois mil milhões de dólares, da empresa Manus, uma promissora startup de agentes autónomos cuja sede formal já se encontrava transferida para Singapura, Beijing não se limitou a vetar uma operação financeira. Cravou, antes, uma tese: a inteligência artificial na China é matéria de Estado, Staatsräson, prerrogativa soberana do mesmo género que outrora se reservava à pólvora, ao cobre, ao trigo de reserva ou ao código diplomático.

A Manus, recorde-se, fora fundada em Beijing antes de migrar para o sudeste asiático; a Meta tencionava integrá-la nos seus planos de “superinteligência pessoal”, desligando-a por completo de qualquer vínculo chinês. Pouco importou. Para o Politburo, o talento, o capital intelectual e os algoritmos forjados em solo chinês continuam a pertencer, de jure ou de facto, ao corpo místico da nação. Ubi nascitur ingenium, ibi imperium: onde houve berço, há jurisdição.

Beijing e o regresso da política como destino

Quem se espanta com este gesto desconhece a longa pedagogia que vai do Cardeal Richelieu a Bismarck, e deste a Mao. O Estado moderno, sobretudo aquele que conserva, sob o verniz do mercado, o nervo maoista da disciplina partidária, sabe que nenhuma potência sobrevive entregando a tecnologia decisiva da sua época ao adversário. Os ingleses não venderam o motor de Watt; os americanos não exportaram o Projeto Manhattan; os soviéticos guardaram o Sputnik com o fervor de um relicário. A inteligência artificial na China ocupa hoje, na hierarquia dos bens estratégicos, o lugar que outrora coube ao salitre, ao petróleo e ao urânio enriquecido.

Há nisto, pace o leitor liberal, uma certa salubridade clássica. Beijing não confunde categorias: distingue, com clareza quase tomista, o que é mercadoria e o que é poder. O Made in China 2025 e o subsequente plano Next Generation AI Development, com horizonte em 2030, inscrevem expressamente a IA entre os pilares da segurança nacional. O Stanford AI Index de 2026 acaba de confirmar, ainda que num registo distinto, aquilo que os estrategas de Zhongnanhai há muito intuem: o desnível de desempenho entre os melhores modelos chineses e americanos comprimiu-se a uns escassos 2,7 pontos percentuais, e isto investindo Beijing vinte e três vezes menos capital privado que Washington. Eis a lição do realismo: o dinheiro é importante; a vontade política e a coordenação estatal são, talvez, decisivas.

E a Europa? A república das letras regulamentares

Voltemos agora os olhos para essa península ocidental do continente euroasiático que, num deletério triunfo do procedimento sobre a substância, se convenceu de que regular era construir. A União Europeia detém, segundo o próprio Relatório de Competitividade da Comissão Europeia (2026), cerca de cinco por cento da capacidade global de computação avançada de IA, contra setenta e quatro por cento dos Estados Unidos e catorze por cento da China. Os Estados Unidos produziram, até hoje, quarenta modelos de fundação; a China, quinze; a Europa inteira, três. Magro espólio para o continente que inventou a imprensa, a relojoaria de precisão e a máquina a vapor.

O State of AI Report 2025 da Air Street Capital documenta friamente, o que Bruxelas sussurra nos corredores e omite nos comunicados: a Europa dispõe de cerca de trinta por cento mais profissionais de IA per capita do que os Estados Unidos, e ainda assim três em cada quatro doutorandos europeus de IA matriculados em universidades americanas lá permanecem por cinco anos ou mais. Talento, temos. Conseguimos retê-lo? Não. Sapientia sine virtute, nihil. A iniciativa InvestAI da Comissão, anunciada com pompa em 2025, mobiliza duzentos mil milhões de euros, soma respeitável, se não fosse o caso de uma única empresa americana, a OpenAI, ter anunciado quinhentos mil milhões de dólares para o mesmo período. O capital de risco europeu mobilizou, entre 2020 e 2025, cerca de duzentos e cinquenta e dois mil milhões de euros; o americano, mais de cinco vezes esse valor. Eppur, persistimos no sonho de regulamentar aquilo que ainda não construímos.

O AI Act, que entrou em pleno vigor em janeiro de 2026, é a coroa desse sonho: arquitetura jurídica de admirável simetria, espelhando o gosto carolíngio pela ordem normativa, mas erigida sobre uma base económica e tecnológica que, receio dizê-lo, lembra mais o Sacro Império nos seus últimos crepúsculos vienenses do que a juventude conquistadora de Carlos V. Conformidade temos de sobra; capacidade, pouca.

A ironia do espelho

Uma ironia digna de Tácito: o regime que durante setenta anos se proclamou inimigo da burguesia mostra-se hoje mais lúcido sobre a economia política do poder do que as democracias pós-cristãs do Velho Continente. Beijing entende que a inteligência artificial é uma forma de soberania; Bruxelas entende que é uma forma de risco. A primeira concebe-a como espada; a segunda, como objeto a embainhar. Quod erat demonstrandum: ganha quem empunha, não quem cataloga.

O Estado europeu, herdeiro de Aquino, de Suárez, de Vitória, perdeu o sentido daquilo que os clássicos chamavam prudentia gubernativa: a arte de ler o tempo, de antecipar a ameaça, de armar a cidade antes que a cidade arda. Si vis pacem, para bellum, e na guerra do nosso século, bellum escreve-se em código.

A inteligência artificial na China não é, portanto, uma curiosidade exótica nem pretexto para alarmismo fácil. É um espelho. E no espelho vê-se sobretudo aquilo que o observador prefere não confessar. Se a Europa não recobrar, e depressa, o velho instinto vertical da civilização que outrora ditou as suas leis ao mundo, restar-lhe-á o destino incerto das grandes bibliotecas que, repletas de manuscritos, foram administradas por bibliotecários ao serviço de senhores estrangeiros.

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