A primeira correção digital dos exames nacionais terminou como começou: em falha. Mais de trezentas mil provas, feitas em papel, foram digitalizadas para classificação na plataforma PCS, e os professores corretores relataram itens inacessíveis, respostas incompletas, folhas de continuação desaparecidas e classificações que se evaporavam do sistema. O prazo de correção foi prolongado, as notas da primeira fase adiadas de 14 para 17 de julho, as matrículas do secundário adiadas em cascata, e as escolas condenadas a introduzir manualmente os dados de 166 mil alunos para que estes pudessem consultar as provas que um processo digital deveria mostrar sozinho.
Quem construiu o sistema? Não o Estado. A plataforma de classificação, encomendada pelo instituto público que tutela a avaliação, foi desenvolvida pela Blat, uma microempresa privada; a digitalização assentou em equipamento fornecido pela CPITI; a aplicação com que os alunos realizam as provas digitais pertence à Intuitivo. Três entidades privadas no núcleo do ato pelo qual a República certifica doze anos de escolaridade e ordena o acesso ao ensino superior. A consultoria pedagógica coube à Pearson; a computação em nuvem, a outra empresa privada. E quando tudo falhou, a resposta foi mais um contrato: a Deloitte, chamada de urgência e por ajuste direto para monitorizar a digitalização e auditar a plataforma, que teve de ser suspensa após a falha de segurança que a própria consultora detetou. Valor do contrato: não revelado. O Estado subcontratou até o diagnóstico do seu próprio falhanço.
Compare-se com o gaokao, herdeiro de uma tradição milenar: a China seleciona por exame de Estado desde os concursos imperiais do keju, instituídos no século VII e abolidos apenas em 1905. Todos os junhos, examina mais de treze milhões de candidatos, quarenta vezes o volume português. As provas seguem sob escolta policial para centros de digitalização; a identificação dos candidatos é encriptada antes da distribuição; as imagens circulam numa rede de fibra ótica isolada da internet; as questões objetivas são corrigidas automaticamente por computador; cada resposta aberta é classificada por dois corretores independentes, com terceira ronda e arbitragem por um conselho de peritos quando a divergência excede o limite fixado; os classificadores entregam os telemóveis à entrada e trabalham sob video-vigilância. Os resultados são publicados cerca de duas semanas depois. Tudo isto é infraestrutura do Estado, operada pelas comissões provinciais de exames sob o Ministério da Educação de Beijing.
A pergunta impõe-se. Portugal mantém com a China relações diplomáticas desde 1979, uma Parceria Estratégica Global desde 2005 e a experiência de Macau, cuja transição em 1999 provou que os dois Estados sabem construir soluções institucionais complexas quando o querem. Porque não pediu Lisboa, calmamente, orientação técnica a quem classifica, ano após ano, dentro do prazo, um volume quarenta vezes superior? A pergunta é apenas meio séria: nenhum Estado prudente entrega dados de avaliação dos seus estudantes a uma potência estrangeira, e não é isso que aqui se defende. Mas é precisamente esse o ponto. A China trata a classificação de exames como infraestrutura soberana, com o estatuto que reserva às telecomunicações ou à defesa. Portugal tratou-a como uma encomenda: adjudicável, fragmentável, dispensável de redundância.
O caminho não é importar de Beijing; é imitar-lhe a seriedade institucional. Uma plataforma pública de classificação, propriedade do Estado e auditável pelo Tribunal de Contas; dupla correção independente como regra e não como exceção; testes de carga verificados antes de cada época de exames; e a capacidade técnica interna que impeça que o certificado mais importante da vida de um estudante dependa de um software de uma microempresa. Um Estado que não consegue corrigir os seus próprios exames não reprova os alunos: reprova-se a si mesmo.


Mem mais.