Certos documentos são publicados discretamente nas páginas interiores do Diário do Povo e, quando lidos com paciência, dizem mais sobre o destino de uma civilização do que mil análises de gabinete de uma qualquer Universidade europeia. É o caso do ensaio de Lian Si (廉思), Vice-Reitor Executivo da Escola Central da Liga da Juventude Comunista, publicado a 27 de Abril, sobre os “traços espirituais e a missão histórica” da juventude chinesa na nova era.
Quem o leia distraidamente julgará tratar-se de mais uma peça doutrinária. Quem o leia com atenção encontrará, qualquer coisa de bem mais inquietante: um manifesto que, despido do socialismo com características chinesas, poderia ter sido subscrito por Edmund Burke, Louis de Bonald ou Donoso Cortés sem que estes temessem qualquer desautorização entre os seus pares.
Os cinco traços
Lian Si distribui pelas suas páginas cinco características que distinguiriam, segundo o autor, a juventude chinesa da nova era: confiança cultural enraizada na linhagem civilizacional com 6000 anos de história; olhar global capaz de observar o mundo de igual para igual; sentimento de pátria-família (家國情懷, jiaguo qinghuai) articulando compromisso individual e dever colectivo; disposição inovadora voltada para a fronteira tecnológica; e consciência de missão convertida em trabalho prático e paciente.
Cada um destes traços, lido isoladamente, parecerá ao europeu medianamente céptico a habitual letra dos órgãos partidários, exortação genérica que se distribui em cima do cliché doutrinário. Mas é o conjunto, e sobretudo a articulação interna, que merece reflexão. Lian Si não escreve para descrever o que a juventude chinesa é, mas para enunciar o que ela deve ser; e nessa diferença habita todo o seu valor.
Detenhamo-nos, porém, naquilo que o documento afirma e que ao leitor europeu deveria provocar alguma inquietação. O texto sustenta que o sentimento de pátria-família dos jovens chineses “não se origina apenas em laços identitários geográficos ou parentais” mas transcende a relação contratual centrada em direitos individuais característica da modernização ocidental. Eis, in nuce, a tese: a modernização chinesa não pretende reproduzir o sujeito atomizado do liberalismo tardio. Pretende, ao contrário, gerar um sujeito comunitário moderno, modernizado mas não desenraizado, individualizado mas não solitário, competente mas não desprovido de pertença.
O paradoxo conservador
Há aqui um paradoxo que merece ser nomeado sem rodeios: as cinco virtudes que Lian Si atribui à juventude chinesa pertencem, geneticamente, à grande família do pensamento conservador europeu. Continuidade civilizacional? É a tese de Burke contra os jacobinos. Pátria-família como anterior ao indivíduo? É Bonald, é Maistre, é Donoso. Dever público como expressão de virtude pessoal? É o cívico-republicano que vai de Cícero a Tocqueville. Inovação tecnológica enquadrada por um quadro moral? É a posição que Russell Kirk chamava de ordered liberty. Missão geracional na transmissão de uma herança? É, toute proportion gardée, o velho officium romano.
Tudo isto articulado por um Partido onde se lê Confúcio com a mesma atenção com que outrora se lia Lenine. O regime chinês compreendeu o que muitos governos europeus parecem ter esquecido: que nenhuma civilização sobrevive à dissolução do seu sujeito histórico. Depois de quatro décadas de aceleração capitalista, os chineses voltam-se agora para a tarefa que Spengler julgava decisiva: impedir que o homem moderno se tornasse, na fórmula desconfortável do alemão, “fellah da própria civilização”.
A engenharia do espírito
O texto de Lian Si descreve, em termos cuidadosamente escolhidos, o que apenas podemos chamar de engenharia do espírito: o Estado, e o Partido, reconhecem, abertamente, que a modernização à chinesa “contém em si mesma um projecto de crescimento juvenil, um projecto de orientação valorativa e um projecto de modelação espiritual”. A frase é desconcertante para o ouvido liberal, habituado à tese de que o Estado não deve formar almas. Mas o Partido Comunista Chinês não se desculpa: assume, avec aplomb, que a formação do carácter colectivo é tarefa pública e que a juventude chinesa é, simultaneamente, sujeito e objecto desse programa.
Nesse programa, a tradição não é arquivo museológico, é matéria viva. Lian Si descreve, com orgulho, como os jovens incorporam a música tradicional em batidas electrónicas, a estética tradicional chinesa no desenho industrial, o património imaterial nas redes sociais. O fenómeno do guochao, a “onda nacional”, não é, do ponto de vista de Beijing, moda passageira mas a manifestação visível de uma reaproximação geracional ao próprio património.
O olhar planetário
Vale a pena sublinhar, ao passar, o que Lian Si chama de “olhar planetário” (平视世界, pingshi shijie), literalmente, “observar o mundo ao mesmo nível”. Trata-se, segundo o autor, de uma postura nova: a juventude chinesa de hoje não olha o estrangeiro com aquela mistura de fascínio e ressentimento que caracterizou o século XX, mas com a serenidade de quem se sabe herdeiro de uma civilização viva própria. Estuda fora, regressa, compara, e, eis a parte que aos europeus deveria interessar, selecciona. Lian Si não dissimula a fonte do orgulho: durante décadas Beijing ouviu lições; agora prepara-se para as dar.
O espelho europeu
Confesso que a leitura deste documento me deixou incomodado, pois estamos a perder uma corrida sem sequer compreender qual é a pista. Pois enquanto Beijing articula um discurso geracional centrado na continuidade, no dever, na missão e na pertença, a Europa continua a discutir, com a seriedade, se o conceito de pátria não será uma micro-agressão.
A juventude chinesa cresce, segundo o seu próprio Estado, e com algum amparo empírico, num horizonte em que ser moderno não significa romper com a antiguidade dos pais. A juventude europeia, pelo contrário, é educada num quadro em que a antiguidade dos pais é apresentada, quando muito, como obstáculo a superar, quando não como pecado a expiar. Quem terá razão? Toynbee, que estudou vinte e seis civilizações antes de morrer, deixou-nos a hipótese de que as civilizações não morrem assassinadas, suicidam-se. A pergunta que se impõe não é, pois, se a China terá razão na sua aposta. É se a Europa ainda terá disposição para fazer uma aposta sua.
Que futuro?
O documento de Lian Si é, à primeira vista, texto interno do Partido Comunista Chinês destinado ao consumo doméstico. Em segunda leitura, é a confissão pública de que o regime chinês redescobriu algo que a Europa, em embriaguez progressista, parece ter posto de lado: que nenhuma sociedade dura sem um relato sobre quem é, de onde vem e para onde vai. A juventude chinesa de que fala Lian Si é, neste sentido, menos uma realidade sociológica acabada do que um desideratum político, mas é precisamente a clareza desse desideratum que torna o documento importante.
Pace os que ainda julgam que a história acabou em 1989, ela apenas mudou de língua. Resta saber, experto crede, se a Europa ainda dispõe de quem queira escutá-la.

