Mil e duzentos artistas. De quarenta países. Subscrevem uma carta. Reúnem-se, ou melhor, são reunidos por uma plataforma chamada No Music For Genocide (em inglês, claro: a língua franca da virtude descartável), para exigir que se expulse Israel da Eurovisão. Não o Azerbaijão, nem a Turquia que ocupa metade de Chipre há meio século, Israel. Sempre Israel. Semper et ubique.
Há séculos que a Europa repete este número. Mudam-se as roupagens, conserva-se o solista. No século XII chamava-se profanação da hóstia; no XVII, traição ao rei católico; no XIX, complot dos banqueiros; no XX, peste bacilar; agora, em 2026, “genocídio”. O figurino moderno é mais higiénico: ninguém precisa de pegar no archote. Basta assinar, signare est judicare, e voltar ao estúdio a tempo do almoço orgânico.
Diga-se com clareza, porque o eufemismo é a primeira muralha do preconceito: chamar genocídio à guerra que Israel trava contra a organização que prometeu, na sua carta fundacional, repetir Auschwitz à primeira oportunidade, e que a 7 de Outubro de 2023 demonstrou, com uma minúcia que fez corar Babi Yar, estar disposta a cumpri-lo, é uma inversão cuja única função é dispensar o signatário do trabalho moral de pensar. Genocídio tem definição jurídica. Tem precedentes. Não é um adjectivo de bilhete de identidade ideológico.
Mas o ponto não é jurídico. O ponto é antropológico. Quando uma elite cultural europeia escolhe, entre as quarenta guerras em curso no planeta, exactamente aquela em que estão envolvidos judeus para nela investir todo o seu capital de indignação, está a obedecer a um instinto que tem nome próprio. Não é “solidariedade com os oprimidos”, pois então onde estão as cartas abertas pelos cristãos da Nigéria, pelos arménios do Artsakh, pelos curdos de Afrin? Onde está o boicote à Eurovisão por causa do Azerbaijão, que limpou etnicamente cento e vinte mil arménios em 2023 sob o silêncio cordial da União Europeia de Radiodifusão? Em parte alguma. Não há canção contra essa expulsão. Não há Brian Eno contra Aliyev. Cur?
A resposta é incómoda mas não é difícil. O antissemitismo, na sua versão progressista contemporânea, dispensa o vocabulário antigo: já não diz “judeu”, diz “sionista”; já não diz “raça”, diz “colonialismo”; já não pede a expulsão dos judeus da Europa, pede a expulsão dos judeus do único pedaço de terra onde, finalmente, não têm de pedir licença para existir. É a velha senhora com peruca nova, e a peruca engana sobretudo quem a usa.
Convém recordar, aos signatários portugueses sobretudo, o que é o sionismo. Não é um projecto colonial, os colonos costumam ter metrópole, e os judeus de Telavive não têm para onde regressar. É o regresso de um povo à sua terra, depois de dois mil anos a ouvir, em todas as línguas da Europa, que pertenciam a outro lugar qualquer. É o único movimento de libertação nacional do século XX que a esquerda se recusa a celebrar, e isso por uma única razão: porque foi bem-sucedido sem se tornar totalitário. Israel é uma democracia parlamentar com supremo tribunal independente, imprensa que investiga o seu próprio governo até à exaustão, e minorias árabes representadas no Knesset e nas mais altas instâncias daquele país. Está rodeado de teocracias, ditaduras militares e movimentos islamistas que enforcam homossexuais em gruas. E é Israel que estes mil e duzentos cantores acham incompatível com os “valores” do festival da canção.
A hipocrisia não é acidental, é constitutiva. Quem invoca o pinkwashing, a tese segundo a qual Israel não pode ter direitos LGBT verdadeiros porque isso seria propaganda, fabricou um conceito cuja única utilidade lógica é proibir o Estado judeu de praticar o bem. Se persegue, é mau; se protege, está a fingir. A heads-I-win-tails-you-lose erguida em doutrina. Houve tempo em que essa figura retórica tinha outro nome: o judeu rico era explorador, o judeu pobre era parasita. Os termos mudam; a estrutura, não.
A Rússia, lembram, foi banida em 2022 da Eurovisão. Foi. E foi banida por invadir um país soberano que não a tinha atacado. Israel, pelo contrário, defende-se de uma agressão lançada contra o seu próprio território, contra os seus próprios cidadãos, por uma milícia que filmou os seus crimes para os exibir nas redes sociais. Comparar os dois casos não é zelo moral: é cegueira deliberada, ou pior, é lucidez orientada.
Termino com uma sugestão prática para Cláudia Pascoal, Iolanda, Jorge Palma e demais signatários nacionais. Antes da próxima carta aberta, leiam a carta da Hamas. A de 1988 ou a “moderada” de 2017, tanto faz. Depois leiam a Declaração de Independência de Israel. Comparem-nas. Decidam, em consciência, qual dos dois textos pertence ao lado da civilização. E se a resposta vos for difícil, talvez o problema não esteja na Eurovisão.
Ceterum censeo, o resto é música ligeira.

