Há séculos, mercadores portugueses partiam de Lisboa rumo a Macau levando consigo missais, cruzes e os hábitos de uma civilização inteira; regressavam carregados de seda, porcelana e chá, mas sem nunca deixarem de ser o que eram. Esta capacidade, comerciar com o mundo sem se dissolver nele, é uma das marcas mais nobres da Europa histórica e, paradoxalmente, aquela que Bruxelas parece ter esquecido em 2026.
A Comissão Europeia apresentou, a 4 de março deste ano, o chamado Industrial Accelerator Act (IAA): uma regulamentação que introduz exigências de “Made in EU” em sectores estratégicos, como baterias, veículos eléctricos, painéis fotovoltaicos ou matérias-primas críticas, e que sujeita o investimento estrangeiro acima dos 100 milhões de euros a uma bateria de condições, da transferência tecnológica à quota local de mão-de-obra. O Ministério do Comércio chinês reagiu com indignação a 27 de Abril, e eis-nos novamente perante o falso dilema do nosso tempo: ou se erguem muros, ou se entrega a casa.
A falsa escolha das relações Europa-China
Quem conheça minimamente a história da Cristandade saberá que esta dicotomia é um produto recente, e nada admirável. A República de Veneza comerciava com o Levante muçulmano enquanto financiava cruzadas; os Habsburgos importavam ourives flamengos sem deixarem de ser austríacos; Portugal manteve quatro séculos de presença em Macau sem que Lisboa se tornasse num apêndice de Pequim. O comércio não é, nunca foi, sinónimo de submissão. Pelo contrário: as civilizações verdadeiramente confiantes negoceiam de cabeça erguida.
O que se passa hoje em Bruxelas é de outra natureza. O IAA não é proteccionismo no sentido clássico, isto é, defesa pragmática de uma indústria nacional, com fronteiras claras e responsabilidades atribuíveis. É algo muito mais inquietante: a tentativa de uma burocracia supranacional substituir a falta de vitalidade interna por regulamentação coerciva. Quando uma civilização perde a confiança nas suas próprias forças produtivas, ergue tarifas em vez de fábricas; quando perde a confiança nos seus valores, exige declarações ideológicas em vez de cultivar carácter.
O que está realmente em causa
Convém olhar para os números sem sentimentalismo. O défice comercial da União Europeia com a China atingiu 360 mil milhões de euros em 2025. O comboio China-Europa transportou, no primeiro trimestre de 2026, 546 mil contentores, um aumento de 22% face ao ano anterior. Estes dados, longe de serem motivo de alarme, são a prova de que existe uma complementaridade económica genuína entre uma Europa envelhecida, rica em capital, conhecimento técnico e instituições maduras, e uma China que ainda produz à escala que outrora foi nossa.
O problema, portanto, não é o comércio. O problema é a falta de uma estratégia europeia digna desse nome. Bruxelas pretende, com o IAA, forçar transferências de tecnologia e quotas locais de produção, mas fá-lo num momento em que a Alemanha se desindustrializa, a França se debate com finanças públicas insustentáveis, e Portugal, como sempre, observa de longe sem que ninguém lhe pergunte a opinião. Nove Estados-Membros, entre eles a Irlanda, a Finlândia, a Suécia e, significativamente, Portugal, escreveram em Maio de 2025 a alertar para os efeitos contraproducentes deste proteccionismo regulamentar. Foram ignorados. Quod licet Iovi, non licet bovi.
Autonomia estratégica não se decreta
Aqui reside, talvez, a contradição mais reveladora desta época. Os mesmos tecnocratas que invocam a “autonomia estratégica europeia” são aqueles que, há uma década, desmantelaram capacidades industriais em nome do mercado único; são os mesmos que assinaram a dependência energética russa em nome do gás barato; e que agora descobrem, com surpresa quase cómica, que oitenta por cento dos painéis solares mundiais provêm de uma única província chinesa.
A autonomia, qualquer pessoa formada na tradição clássica o sabe, não se decreta, cultiva-se. Não se obtém por decreto comunitário, mas por décadas de investimento em escolas técnicas, por uma política demográfica que não trate as crianças como inconveniência, por uma cultura que valorize o engenheiro tanto quanto o consultor, por uma fé, religiosa ou cívica, capaz de sustentar a paciência das obras longas. O Industrial Accelerator Act substitui tudo isto por um formulário a preencher em vinte e quatro línguas oficiais. A diferença entre um povo livre e um povo administrado mede-se, justamente, na confiança que tem ou não nas suas próprias mãos.
O caminho português
Portugal, neste contexto, tem uma vocação particular a desempenhar. Não é, nem nunca foi, uma potência industrial à escala alemã; mas é uma das mais antigas pontes entre a Europa e a Ásia, e o único país do continente cuja experiência nas margens do Mar da China deixou um legado de convivência cultural sem grande ressentimento mútuo. Pequim respeita Lisboa de uma maneira que não respeita Bruxelas, não por ingenuidade, mas porque reconhece nos portugueses interlocutores antigos, com memória e dignidade próprias.
Aproveitar essa posição não significa, evidentemente, fazer das relações Europa-China um exercício de subserviência. Significa exactamente o oposto: usar o comércio como instrumento de afirmação, exigir reciprocidade real (que o IAA não impõe verdadeiramente, dado que parte do mercado chinês permanece substancialmente fechado a sectores europeus inteiros), e proteger aquilo que verdadeiramente importa, o tecido familiar, a língua, a paisagem, as universidades, em vez de regular se um automóvel eléctrico foi montado na Saxónia em proporções pré-definidas.
O essencial
Há uma frase atribuída a Joseph de Maistre que vem a propósito: toda nação tem o governo que merece. Aplicada à Europa actual, é uma sentença incómoda. Não merecemos uma Comissão que confunde firmeza com fechamento, nem merecemos os populistas que, no extremo oposto, querem entregar o continente ao primeiro comprador. Merecemos, isso sim, uma política externa adulta, capaz de comerciar com Pequim sem se ajoelhar perante Pequim, capaz de reconhecer a grandeza de uma civilização milenar sem renegar a própria.
O Industrial Accelerator Act será aprovado, modificado, ou enterrado pelo Parlamento Europeu nos próximos meses. Mas a questão de fundo permanecerá: saberá a Europa redescobrir que a sua força nunca esteve nas muralhas, mas na confiança serena de quem tem algo de seu para oferecer ao mundo? Foi assim que os nossos antepassados navegaram até Macau. Não há nenhuma razão metafísica que nos impeça de o voltar a fazer, desta vez, com fibra óptica em vez de caravelas.

