comitiva saudita na Madeira

Na terra da bilhardice, a bilhardice tem custos

Perdeu-se. E convém perceber o que foi que se perdeu, porque o que se segue não é uma defesa da República contra as monarquias nem uma lição de moral a uma casa reinante. É o contrário. É a acusação de uma terra que teve corte e ficou com o mexerico, que teve hospitalidade e ficou com a curiosidade, e que perdeu esta semana a visita da comitiva saudita à Madeira por falência daquilo que Montesquieu identificou como o próprio princípio do governo monárquico: a honra.

A comitiva, encabeçada por Sua Alteza Real a Princesa Sara bint Mashour Al Saud, vinha em roteiro privado, depois de Lisboa e de Faro, e cancelou, alegando violação de privacidade e desagrado com a forma como o processo foi conduzido (DNOTÍCIAS, 12 de agosto). Vários prestadores viram cancelados os serviços contratados.

Sabia-se

Sabia-se o avião. Sabia-se que era um Boeing 787 do Reino da Arábia Saudita e que era a primeira vez que um aparelho daquele porte pousava no Aeroporto Cristiano Ronaldo. Sabia-se que tinha feito aterragens e descolagens sucessivas, em reconhecimento da pista. Sabia-se que a sala VIP estava a ser montada para os receber. Sabia-se que havia medidas de segurança reforçadas previstas. Sabia-se o roteiro peninsular inteiro. Sabia-se quem encabeçava a comitiva e de quem era mulher. Sabia-se o dia da chegada. Sabia-se, dias antes, o volume da mobilização logística.

Sabia-se tudo, e tudo saiu antes de acontecer.

E havia uma única entidade a quem competia legitimamente saber, e essa não sabia. O Comando Regional da PSP declarou ao DIÁRIO que «não tem nenhuma operação em curso para receber a família real saudita» e que «desconhece qualquer programa da visita» (DNOTÍCIAS, 12 de agosto).

Quem falou sobre a composição da comitiva foi, nas palavras do próprio DIÁRIO, «fonte ligada ao processo de preparação». A fuga não veio da rua. Veio de dentro. Veio de alguém que estava a ser pago para que aquilo corresse bem, e que preferiu o pequeno gozo insular de ser o primeiro a saber e o primeiro a contar.

Os três princípios, e o nosso

Montesquieu arrumou isto no Livro III do Espírito das Leis, e nunca ninguém arrumou melhor. Cada forma de governo vive de um princípio próprio, que é a paixão que a põe em movimento. A república vive da virtude. A monarquia vive da honra. O despotismo vive do medo.

Onde governa a honra, a discrição não precisa de ser contratada, porque falar é perder posição. O escudeiro que revela o que ouviu à mesa do senhor não é processado: é excluído. A confidência guarda-se porque a quebra custa aquilo que nenhum contrato repõe, que é o lugar de cada um na estima dos seus.

Onde governa o medo, a discrição também existe, mas é outra coisa: é silêncio imposto, sustentado pela consequência de falar.

A Madeira não tem nem uma nem outra. Aboliu a primeira, e ainda bem que aboliu as suas formas iníquas, mas não a substituiu por nada. E recusa a segunda, e ainda bem que a recusa. O que sobrou foi a bilhardice, que é exactamente o que resta a uma sociedade onde ninguém tem posição a perder por falar e ninguém tem receio de o fazer. Não é folclore. É o vazio deixado por um princípio que não foi reposto.

Foi esse vazio que esta semana teve preço.

A honra é uma instituição, e nós tínhamo-la

Ao hóspede deve-se discrição. Não por contrato, não por receita, não por conveniência comercial: por honra. A hospitalidade é uma das mais antigas instituições da ordem que digo defender, e nela o hóspede entra sob a protecção da casa. Quem se senta à mesa de alguém fica coberto pelo nome de quem o recebe. Contar o que se viu em casa alheia é, nessa gramática, uma forma menor de traição.

E esta terra soube fazê-lo. Sabemos que soube, porque está documentado e está sepultado no Monte.

Entre 29 de novembro de 1860 e 28 de abril de 1861, a Sua Majestade Imperial e Real, a Imperatriz Isabel da Áustria-Hungria passou o inverno no Funchal, na Quinta Vigia, mandada para clima ameno por doença. Registe-se, já agora, que a bilhardice também então cobrou o seu tributo: o Conde Imre Hunyády, do séquito, foi obrigado a regressar a Viena quando se difundiu o falatório sobre a sua devoção à imperatriz. A tradição é antiga, e o preço também.

E em novembro de 1921 chegou à Madeira, deposto, sem meios e doente, Sua Majestade Imperial e Real, O Imperador Carlos I da Áustria-Hungria, último imperador da Áustria e rei da Hungria. Viveu na Quinta do Monte. Morreu no Funchal a 1 de abril de 1922, de pneumonia, e ficou sepultado na igreja de Nossa Senhora do Monte, onde está. Foi beatificado por João Paulo II a 3 de outubro de 2004.

Repare-se no que isto significa. Este povo recebeu um imperador quando o imperador já não tinha nada para dar. Não havia comitiva, não havia contratos, não havia mercado emissor, não havia sala VIP nem oportunidade de negócio. Havia um homem caído, uma família sem meios e uma ilha que o acolheu e o guardou com dignidade, e que hoje tem, por isso, um beato sepultado acima do Funchal e romeiros que ali sobem por causa dele.

Cento e quatro anos depois, com dinheiro em cima da mesa, esta mesma terra não foi capaz de guardar silêncio sobre uma visita privada.

Não é uma questão de meios. É uma questão de princípio, no sentido exacto que Montesquieu deu à palavra.

Os réus

Nós. Escrevo como madeirense, o que me dá o direito de o dizer sem licença e a obrigação de o dizer sem me excluir. A bilhardice não é um traço pitoresco: é a conversão da informação alheia em moeda de estatuto próprio. Saber antes vale, contar primeiro vale mais, e o que se destrói ao contar é de outro, o que torna o negócio irresistível. Uma sociedade assim pode ser muitas coisas boas, e é. Mas não pode vender discrição, porque a discrição é o único produto que se destrói ao ser exibido.

O aparelho regional. Estou cansado de ouvir falar de turismo de alto rendimento como se fosse matéria de campanha. Estou cansado de ouvir falar em novos mercados emissores por quem não tem um protocolo escrito para receber uma casa reinante em visita privada. Estou cansado de ver tratada como vaidade aquilo que é gramática institucional, o cerimonial, o protocolo, a hierarquia de funções, a casa. Estou cansado de uma administração que confunde promover o destino com preparar o destino, e que descobre que não tem interlocutor único quando já não há visita para receber. Uma Região que não tem casa, no sentido antigo da palavra, não tem quem responda por uma recepção. E não tendo quem responda, ninguém respondeu.

Os operadores. A cadeia é longa: alojamento, transporte, segurança privada, assistência em escala, catering, tripulações, agências. Em Mónaco, no Liechtenstein, em Jersey e Guernesey, em Marbella ou em Saint Moritz, essa cadeia funciona sob confidencialidade contratada, com pessoal formado, listas de acesso restrito e sanção efectiva para quem fala. Note-se que quase todas essas praças são monarquias ou dependências da Coroa, e que em todas elas a imprensa é livre. Ali ninguém pede ao jornal que se cale. Pede-se ao motorista que não fotografe. É esta a diferença que a Madeira não percebeu.

O quarto réu, e a virtude que falta ao direito

Falta o quarto, e é o mais delicado, porque é o único que agiu dentro do seu direito pleno.

Um jornal não pede licença a ninguém para publicar o que apura, e quem quiser discutir esse princípio procure outro autor, porque comigo não encontra companhia. O que aqui se discute é coisa diferente, e a tradição a que pertenço trata-a com nome próprio: a prudência. Santo Tomás chama-lhe auriga virtutum, a cocheira das virtudes, aquela que governa a aplicação de todas as outras. Um direito existe sempre; o momento em que se exerce é matéria de juízo. Quem confunde as duas coisas nunca teve responsabilidade nenhuma nas mãos.

O DIÁRIO publicou, na véspera da chegada, uma verificação de um comentário de leitor sobre matéria antiga, largamente documentada, e sobre a qual nada mudaria em dez dias. Não havia concorrência a bater. Não havia prazo. Não havia facto novo. A única coisa que aquela data acrescentava ao conteúdo era a coincidência com a chegada dos visados.

E acrescentava uma segunda coisa, mais discutível ainda: elevava a caixa de comentários do próprio jornal à categoria de notícia. O objecto da peça não era um acontecimento ocorrido na Região. Era uma opinião publicada no próprio sítio do jornal, promovida a matéria jornalística pelo jornal que a alojava. Um jornal que noticia os seus próprios leitores deixou de estar a relatar um acontecimento e passou a estar a produzir um.

E entretanto, ali ao lado, estava a notícia por escrever. Quem coordenava aquela operação. Porque é que a PSP não sabia. Quem contratou quem. Que protocolo existia, e não existia. Onde é que estava, na estrutura regional, o responsável por uma recepção daquele porte. Essa era a matéria de interesse público regional, essa era a peça que ninguém mais no mundo podia fazer, e essa saiu tarde, curta e a reboque.

Nada disto é pedir silêncio a um jornal. É pedir-lhe hierarquia. Um jornal regional serve uma região, e a pergunta que devia ter feito nessa semana estava do lado de cá do Atlântico, no aeroporto e nas secretarias, e não a oito anos e a quatro mil quilómetros de distância.

Quem tem um direito não é obrigado a exercê-lo no pior dia possível.

Privacidade é uma coisa, silêncio é outra

E, dito isto, que fique dita também a fronteira, porque há quem vá querer levar este argumento mais longe do que ele vai.

Privacidade é o plano de voo que não circula. Privacidade é o itinerário que não passa de telemóvel em telemóvel. Privacidade é a lista de alojados que fica na lista de alojados. Privacidade é o motorista que não fotografa o carro à porta. Privacidade é o fornecedor que assina uma cláusula e a cumpre porque deu a palavra, e não porque teme a cláusula. Privacidade é a assistência em escala que trata um voo como trata qualquer outro voo privado.

Tudo isto se deve, e nada disto se cumpriu.

O que não se deve, e não se pode prometer, é a garantia de que numa terra livre ninguém escreverá nada que desagrade a quem chega. Isso não está na mão de nenhum governo regional, de nenhum operador e de nenhum director de jornal, e um destino que o prometesse estaria a vender o que não tem. Discrição operacional, toda. Garantia de aplauso, nenhuma.

A diferença entre as duas coisas é exactamente a diferença entre uma monarquia e um despotismo, e não é por acaso que as praças europeias que melhor guardam os seus hóspedes são justamente aquelas onde a imprensa é mais livre.

O que se faz a seguir

O remédio é banal e não custa dinheiro que a Região não tenha. Custa método, que é do que há falta crónica.

Um protocolo regional escrito para visitas de alto perfil, com interlocutor único identificado e com dever de articulação prévia com as forças de segurança, para que nunca mais uma polícia tenha de dizer a um jornal que desconhece o que se passa no território que lhe compete. Confidencialidade contratada em toda a cadeia de fornecimento, com consequência real e imediata para quem a quebre, e com a consequência informal que verdadeiramente disciplina, que é deixar de ser chamado. Formação de pessoal em discrição operacional, tratada como competência técnica e não como virtude privada. Procedimentos de assistência reservada no aeroporto que não dependam da boa memória de quem está de serviço. E, acima de tudo isto, a reposição de uma ideia que se perdeu e que é a mais barata de todas: que há coisas que não se contam porque quem as conta fica mais pequeno.

A honra que nos falta

Sobe-se ao Monte e está lá, numa igreja de romaria, o corpo de um imperador que este povo acolheu quando ele já nada podia dar em troca. Foi capaz disso em 1922, na pobreza, sem protocolo escrito e sem cláusulas de confidencialidade, porque tinha o princípio que dispensa tudo isso.

Perdemos uma comitiva por indisciplina, por incompetência e por bilhardice. E perdemo-la, também, por falta de tino no momento de exercer direitos que ninguém contestava.

A honra que nos falta não é a de calar. É a de guardar.

E quem não sabe guardar o que lhe confiam não recebe reis. Recebe turistas, e ainda assim com sorte.

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