A tese deste texto é contraintuitiva e enuncio-a sem rodeios: perante o choque combinado da sobreprodução de elites e da automação da inteligência artificial, o regime mais bem preparado para atravessar a próxima década não é o Ocidente liberal, mas a China. Não porque a China escape ao problema, sofre-o na sua forma contemporânea mais aguda, mas porque dispõe de duas coisas que o Ocidente desmantelou ou nunca chegou a construir: um aparelho administrativo concebido para absorver e fazer circular o excedente de aspirantes a elite, e uma memória institucional, com mil anos de profundidade, de fazer exactamente isso. Estar mais preparado não é o mesmo que estar a salvo. Mas é uma diferença estrutural de peso.
O que é a sobreprodução de elites
O conceito vem de Peter Turchin e da teoria estrutural-demográfica que este herdou e desenvolveu a partir do trabalho de Jack Goldstone. Uma sociedade entra em sobreprodução de elites quando produz mais candidatos credenciados a posições de elite do que tem posições para os acomodar. O diploma, o título, a expectativa de ascensão multiplicam-se mais depressa do que os lugares de poder, de rendimento alto e de estatuto que esses sinais prometiam. O resultado não é apenas frustração individual. É um mecanismo de instabilidade política bem definido: os aspirantes preteridos não desaparecem, reorganizam-se. Os mais capazes e ambiciosos tornam-se contra-elites, constroem ideologias de oposição e mobilizam contra a ordem estabelecida os que dela se sentem excluídos. Turchin documenta o padrão da América pré-guerra civil, onde a multiplicação de advogados e de aspirantes a cargo político na década de 1850 alimentou a radicalização seccional que terminou em 1861. A resolução histórica da sobreprodução de elites, quando o Estado não a administra a tempo, tende a ser violenta: guerra civil, colapso institucional, contracção demográfica.
A novidade do nosso momento não está no conceito. Está no acelerador. Todas as vagas anteriores de sobreprodução deixavam aos credenciados, pelo menos, o emprego profissional como sala de espera: o licenciado em Direito que não chegava a juiz exercia advocacia; o doutorado que não obtinha cátedra dava aulas. A inteligência artificial está a fechar a sala de espera. Os modelos de linguagem atacam precisamente a camada de serviços cognitivos que o Ocidente mais agressivamente expandiu: Direito, finanças, consultoria, administração, análise júnior, programação de entrada. Dario Amodei, da Anthropic, estimou que a automação pode eliminar até metade dos empregos administrativos de início de carreira no espaço de cinco anos. Os dados de contratação acompanham o aviso: segundo a SignalFire, a contratação de recém-licenciados pelas grandes empresas tecnológicas caiu cerca de 50 por cento face aos níveis anteriores à pandemia. O Ocidente não enfrenta apenas elites a mais para cadeiras a menos. Enfrenta a contracção simultânea do próprio número de cadeiras. A classe aspirante está a ser criada e desiludida ao mesmo tempo.
Porque é o Ocidente que está estruturalmente exposto
A exposição ocidental tem duas causas, e nenhuma é conjuntural. A primeira é a ausência de um mecanismo de absorção. O Estado liberal não coopta as elites frustradas para dentro de uma estrutura de quadros: deixa-as acumular no exterior, no mercado, na sociedade civil, na universidade, onde a dinâmica de contra-elite descrita por Turchin corre sem travão. O licenciado sem futuro não é integrado, é abandonado à sua indignação, e a indignação dos competentes organiza-se. A segunda causa é mais profunda: a legitimidade do regime ocidental assenta na própria promessa meritocrática que a inteligência artificial está a quebrar. Estuda, credencia-te, ascende. Quando a escada é serrada a meio, o regime que vendeu a escada fica dono do ressentimento. Não há terceiro a quem imputar a promessa falhada.
A Europa tem uma variante própria. A União administra a sua sobreprodução de elites sobretudo exportando-a. O licenciado do Sul, de Portugal, do Mezzogiorno italiano, da Grécia, da Galiza, emigra para o centro mais capitalizado, e Bruxelas regista o fenómeno como mobilidade, como mercado único a funcionar. Não é administração da sobreprodução, é diferimento, e tem um custo de periferia: esvazia os territórios que formam os quadros sem os empregar, transfere o retorno do investimento educativo da margem para o centro e deixa a margem com a despesa da formação e sem o dividendo do talento. À semelhança do que se verifica nas Regiões Autónomas portuguesas, a emigração qualificada funciona como válvula de escape demográfica que a contabilidade europeia confunde com integração. Uma válvula de escape adia a pressão; não a resolve. E quando o destino também saturar, porque a inteligência artificial satura primeiro os mercados de serviços para onde os periféricos emigravam, a válvula deixa de existir e a pressão regressa ao ponto de origem, já sem instituições para a conter.
A China tem a doença, e na forma mais aguda
Convém dizê-lo antes de qualquer outra coisa, sob pena de o argumento soar a propaganda: a China sofre de sobreprodução de elites na sua expressão contemporânea mais severa. Em 2025 formaram-se 12,22 milhões de diplomados do ensino superior, um recorde, com previsão de 12,7 milhões em 2026. A taxa de desemprego juvenil urbano (dos 16 aos 24 anos, excluindo estudantes, segundo a metodologia revista em finais de 2023 depois de a série anterior ter sido suspensa nos 21,3 por cento de Junho de 2023) atingiu um máximo de 18,9 por cento em Agosto de 2025 e mantinha-se acima dos 16 por cento no início de 2026. A cultura popular registou o diagnóstico antes dos institutos de estatística: a involução (neijuan), a competição extenuante por recompensas que encolhem; o tangping, o «deitar-se e ficar», a greve silenciosa de uma geração que recusa a corrida; e a chamada «literatura Kong Yiji», a identificação dos diplomados com a personagem de Lu Xun, o letrado falhado que o diploma aprisiona em vez de libertar. Quem quiser a sobreprodução de elites em estado puro encontra-a hoje em Zhengzhou e em Wuhan, não em Bruxelas.
A diferença não está na doença. Está nos anticorpos.
O aparelho de absorção: o Estado-quadro leninista
O Estado-partido é, entre outras coisas, uma máquina de cooptação dos ambiciosos. O Partido Comunista Chinês ultrapassou os 100 milhões de membros no final de 2024, e cerca de 80 por cento dos novos recrutas dos últimos anos têm 35 anos ou menos, com captação deliberada nas universidades. Onde o Estado liberal deixa a elite frustrada acumular-se fora da estrutura, o partido puxa-a para dentro, prende-a por dentro e dá-lhe uma quota de participação na ordem que de outro modo combateria. É, em termos turchinianos, precisamente o mecanismo de prevenção de contra-elites: transformar o aspirante preterido em quadro com carreira, em vez de o deixar tornar-se opositor com causa. A isto soma-se a capacidade do Estado desenvolvimentista de orientar o talento para sectores tangíveis, engenharia, manufactura avançada, semicondutores, veículos eléctricos, as «novas forças produtivas» da retórica oficial, em vez do beco dos serviços credenciados. E soma-se uma disposição, impensável em qualquer democracia liberal, para disciplinar o próprio mercado das credenciais: a repressão de 2021 sobre o sector da explicação privada, que liquidou de um dia para o outro uma indústria inteira, foi, lida a esta luz, uma intervenção directa na máquina que sobreproduzia aspirantes.
Nada disto é admirável por si. A involução pode ainda exceder o que o sistema de quadros consegue conter. O argumento não é moral, é estrutural: confrontada com o mesmo choque, a China dispõe de instrumentos de absorção que os Estados Unidos substituíram pelo mercado e que a União Europeia nunca construiu ao nível federal.
A profundidade do keju
Nada disto é comportamento novo. É a expressão mais recente de um reflexo institucional com mil anos. O exame imperial, o keju, vigorou de 607 a 1905, e foi a máquina mais sofisticada que qualquer civilização produziu para converter ambição em lealdade. Dava ao excedente de aspirantes uma escada estruturada, uma ideologia partilhada, a ortodoxia confucionista, e uma quota de participação na ordem imperial. Mesmo a camada que nunca chegava ao cargo, os licenciados de base (shengyuan) que ficavam na pequena nobreza letrada das províncias, era amarrada ao sistema, e não mobilizada contra ele. A China administrou durante um milénio aquilo que o Ocidente descobriu como problema há duas décadas.
O contraexemplo, longe de enfraquecer o argumento, é o que mais o reforça. Quando a escada falhava o indivíduo, o resultado era catastrófico. Hong Xiuquan reprovou quatro vezes no exame de shengyuan; do colapso nervoso que se seguiu nasceram as visões que fundaram o Reino Celestial Taiping e a guerra civil mais mortífera do século XIX, com dezenas de milhões de mortos entre 1850 e 1864. A contra-elite por excelência foi um aspirante preterido pelo exame. E a própria abolição do keju, em 1905, retirar a escada sem a substituir, produziu uma geração de jovens instruídos sem via de ascensão que ajudou a deslegitimar a dinastia Qing e alimentou o colapso de 1911. A lição que a elite chinesa interiorizou, consciente ou não, é exactamente a de Turchin: um excedente de elites não absorvido é a coisa mais perigosa que um Estado pode produzir. O Ocidente não a interiorizou porque nunca teve memória de pagar a factura.
O que isto não é
Não é uma previsão de que a China «ganha», nem um elogio da absorção chinesa. É uma afirmação delimitada sobre capacidade institucional comparada. A absorção tem limites; um partido que coopta cem milhões pode descobrir que cem milhões e um é demais; e a inteligência artificial pode ainda revelar-se um solvente que dissolve igualmente todos os aparelhos, comunistas e liberais. A China pode falhar. Mas poderá falhar a partir de uma posição de capacidade administrativa que o Ocidente abdicou de ter. Estar mais preparado é uma vantagem de partida, não uma garantia de chegada.
O Ocidente escolheu
Não foi a geografia que deixou o Ocidente sem mecanismo para acomodar os seus jovens instruídos. Não foi a demografia. Não foi a falta de recursos, que o Ocidente tem de sobra. Foi uma escolha. Escolheu-se substituir a instituição pelo mercado e chamar a isso liberdade. Escolheu-se exportar o excedente de talento e chamar a isso mobilidade. Escolheu-se vender a credencial a uma geração inteira e serrar a escada por baixo dela enquanto subia, e chamar a isso progresso. Escolheu-se, em suma, produzir contra-elites em série e fingir que o ressentimento dos competentes é um problema de comunicação.
A China não é mais sábia do que o Ocidente. É mais velha, e a idade ensinou-lhe uma coisa que nós optámos por esquecer: que uma civilização incapaz de dar lugar aos seus jovens instruídos acaba, mais cedo ou mais tarde, governada por eles, em fúria. O keju soube-o durante mil anos. O Estado-quadro sabe-o hoje. E nós, que tivemos as nossas próprias guerras de aspirantes preteridos e preferimos não as recordar, decidimos que desta vez seria diferente, sem mudar nada do que faz com que não seja.
A escada está serrada. A questão já não é se cai. É quem terá uma estrutura debaixo dela quando cair.

