mármores do Pártenon

Os mármores do Pártenon e a besta do mito nacionalista: porque devem permanecer em Londres

Em Julho de 2022, Mario Trabucco della Torretta, arqueólogo clássico formado na Sicília e em Atenas, respondeu no Art Newspaper a Andrew Wallace-Hadrill, que no Times tinha declarado não saber que história os mármores de Elgin poderiam contar em Londres. A resposta de Trabucco articulou uma posição que se manteve marginal no debate público, dominado pela narrativa restituicionista, mas que merece ser repescada e desenvolvida com o rigor que o assunto exige. Os mármores do Pártenon contam uma história em Bloomsbury. Contam-na desde 1807. Devolvê-los a Atenas, em nome de uma justiça moral ostensiva e de uma reunificação simbólica, não seria devolver-lhes a sua verdade: seria reduzi-los, mais uma vez, a propaganda de uma narrativa atenocêntrica que a arqueologia científica passou os últimos dois séculos a desconstruir.

A pressão sobre o Museu Britânico cresceu ao longo da última década. A cimeira Sunak-Mitsotakis de Novembro de 2023 foi cancelada por desacordo prévio sobre a inclusão dos mármores na agenda. O Governo Starmer, desde Julho de 2024, manteve a posição britânica formal de não-restituição mas abriu espaço para discussões sobre “parcerias” e “empréstimos de longa duração”. A administração de George Osborne na presidência do Museu Britânico, e a direcção de Nicholas Cullinan desde Junho de 2024, têm prosseguido uma diplomacia cautelosa. O Governo grego, em paralelo, mantém o programa herdado de Melina Mercouri da década de 1980 e investiu, em 2009, na construção do Museu da Acrópole sob projecto de Bernard Tschumi, expressamente concebido para receber os mármores: o piso superior tem a dimensão exacta do friso original e mantém vazios os lugares correspondentes às peças em Bloomsbury.

A retórica restituicionista é eficaz porque mobiliza dois registos em simultâneo: o histórico-jurídico (Lord Elgin “roubou” os mármores em circunstâncias ilegais; o Estado grego é o herdeiro legítimo do património ateniense) e o moral-emocional (a reunificação é justa; os mármores pertencem ao lugar onde foram esculpidos). Ambos os registos resistem mal ao escrutínio. O caso jurídico foi sendo abandonado à medida que ficava claro que a firmã de 1801 do sultão Selim III, o Acto do Parlamento britânico de 1 de Julho de 1816 (56 Geo. III c. 99) que comprou a colecção a Elgin por trinta e cinco mil libras, e o British Museum Act de 1963 (1963 c. 24) que proíbe a alienação salvo em circunstâncias estreitas, deixavam os defensores da restituição sem terreno firme. O caso moral, que veio ocupar o espaço deixado vazio, depende de premissas que precisam de ser examinadas com a mesma seriedade que a defesa atenocêntrica reclama para si.

A confusão de identidades no coração da reivindicação

A premissa fundamental do caso restituicionista é uma confusão de identidades. O Estado grego moderno, instituído pelo Protocolo de Londres de 3 de Fevereiro de 1830 e reconhecido pela Conferência de Londres de 1832 sob a monarquia do bávaro de Otão I de Wittelsbach, não é a herdeira institucional contínua da pólis de Atenas do século V a.C. Entre a derrota ateniense na Guerra do Peloponeso em 404 a.C. e a chegada de Otão ao Pireu em Fevereiro de 1833, situam-se vinte e três séculos de dominação macedónica, romana, bizantina, franca, otomana e veneziana, cada uma das quais deixou camadas na Acrópole que o programa de reconstrução grego do século XIX procurou apagar. A continuidade entre a Atenas periclesiana e a Atenas moderna foi uma construção historiográfica do século XIX, formalizada na Ιστορία τοῦ Ἑλληνικοῦ Ἔθνους de Konstantinos Paparrigópoulos publicada entre 1860 e 1874, que reconciliou o helenismo clássico com a herança bizantina e cristã ortodoxa para fundamentar a legitimidade nacional do novo Estado.

A construção desta narrativa não é, em si, um problema: todos os Estados modernos têm um trabalho semelhante de articulação de continuidade simbólica entre fundações míticas e instituições contemporâneas. O problema surge quando essa narrativa é usada para fundamentar reivindicações sobre o património material que assumem, sem o demonstrar, a transitividade da identidade. O Estado grego moderno reivindica os mármores não como autoridade de tutela patrimonial efectiva sobre o sítio onde foram esculpidos (o que seria uma reivindicação legítima de jurisdição), mas como sucessor jurídico-cultural da pólis de Atenas (o que é uma reivindicação que confunde Estado moderno com pólis antiga). A distinção é decisiva: o sítio é regulado pela jurisdição do Estado moderno; a propriedade do que foi removido entre 1801 e 1812, em condições jurídicas próprias do Império Otomano e do direito internacional do início do século XIX, não é matéria de sucessão automática.

A história londrina dos mármores do Pártenon

Wallace-Hadrill perguntou que história os mármores podem contar em Londres. A resposta começa em 1807, quando os primeiros volumes da colecção de Elgin chegaram a Londres e foram expostos no edifício de Park Lane, e atravessa dois séculos de impacto cultural documentado. John Keats compôs em 1817 “On Seeing the Elgin Marbles” e em 1819 a “Ode on a Grecian Urn”, obras directamente moldadas pela experiência de ver as esculturas. Lord Byron, paradoxalmente, esculpiu a sua hostilidade pessoal ao acto de Elgin (em “The Curse of Minerva” de 1812 e em cantos de “Childe Harold’s Pilgrimage”) a partir do mesmo confronto visual. Percy Bysshe Shelley em “Hellas” (1822) e Felicia Hemans em “Modern Greece” (1817) elaboraram uma estética filelénica que combinou indignação política e admiração estética. O escultor John Flaxman, o pintor Benjamin Robert Haydon, o escultor Richard Westmacott e o escocês John Henning produziram corpos de obra cuja matriz iconográfica é directamente devedora da observação dos frisos em Park Lane e mais tarde em Montagu House.

Mais decisivo que o impacto literário e artístico foi o impacto arqueológico. A presença dos mármores em Londres, dos frisos de Bassae no Museu Britânico desde 1815, dos mármores de Egina em Munique desde 1812 sob a tutela de Leo von Klenze, dos painéis assírios de Nimrud chegados em 1849, criou as condições materiais para uma arqueologia comparada que substituiu o classicismo idealizado de Johann Joachim Winckelmann (Geschichte der Kunst des Altertums, 1764) por uma ciência da Antiguidade fundada na observação directa de originais. A passagem foi tectónica. O classicismo winckelmaniano, fundado em cópias romanas e em cânones idealizados de proporção, viu-se obrigado a confrontar-se com a materialidade rugosa, fragmentária e desigual dos originais. Karl Otfried Müller, na sua Handbuch der Archäologie der Kunst (1830), e Adolf Furtwängler, mais tarde, formularam uma arqueologia que devia mais ao trabalho com os mármores em Bloomsbury, em Munique e em Paris do que à tradição erudita italiana. A arqueologia científica europeia, no sentido em que ainda hoje a praticamos, nasceu desta confrontação.

E o filelenismo, esse fenómeno político e cultural que mobilizou as elites britânicas, francesas e alemãs entre 1821 e 1832, alimentou-se directamente da presença dos mármores em museus do norte da Europa. A morte de Byron em Missolonghi a 19 de Abril de 1824, a batalha de Navarino a 20 de Outubro de 1827 (em que a frota combinada britânica, francesa e russa destruiu a frota otomano-egípcia), o desembarque do General Maison na Moreia em Agosto de 1828, são momentos de uma intervenção europeia que teria sido inconcebível sem o substrato cultural do filelenismo. Os mármores em Londres foram, em sentido literal, parte da causa material da liberdade grega. A ironia da reivindicação restituicionista é que reclama o regresso a Atenas de objectos sem cuja presença em Londres a própria Atenas moderna provavelmente não existiria como capital de um Estado independente.

A distorção atenocêntrica

O caso restituicionista assenta numa premissa historiográfica que a investigação dos últimos quarenta anos pôs em causa: a de que o Pártenon representa a civilização grega. A Grécia clássica não era Atenas. Era um mosaico de centenas de cidades-Estado, da Magna Grécia siciliana e meridional-italiana à Jónia anatólica, do Egeu insular à Cirenaica norte-africana, do Bósforo à Marselha foceia. Esparta, Corinto, Tebas, Argos, Olímpia, Delfos, Siracusa, Mileto, Éfeso, Pérgamo, Halicarnasso são todas igualmente gregas. Nenhuma delas reclama o Pártenon. O atenocentrismo da historiografia tradicional é, em larga medida, um artefacto de selecção: o cânone literário grego sobrevivente foi filtrado pelas escolas de copistas bizantinas que privilegiaram autores áticos, criando a ilusão retrospectiva de que Atenas era o centro de gravidade do mundo grego. Os classicistas modernos, de Anthony Snodgrass a Robin Osborne, têm trabalhado para desfazer essa ilusão e devolver à investigação uma perspectiva mais panorâmica.

A reivindicação restituicionista pressupõe e reforça precisamente a ilusão atenocêntrica que a investigação procura corrigir. Atenas torna-se sinédoque da civilização grega. O Pártenon torna-se sinédoque de Atenas. Os mármores tornam-se sinédoque do Pártenon. Uma cadeia de reduções metonímicas converte uma parte numa essência, e essa essência num pretendido absoluto cultural cuja propriedade está fora de discussão. A operação intelectual que sustenta a cadeia é, ela própria, uma forma de violência arqueológica: apaga a Grécia que não é Atenas, apaga as camadas históricas do próprio sítio que não são as do tempo de Péricles, e apaga a história do que os mármores fizeram desde que deixaram a Acrópole.

A ironia suplementar é que o programa de Péricles, esse momento canónico da civilização grega que os restituicionistas exaltam, foi construído com os tributos do império ateniense. A Liga de Delos, fundada em 478 a.C. como aliança defensiva contra a Pérsia, foi transformada por Atenas em estrutura tributária. Em 454 a.C. o tesouro da Liga foi transferido de Delos para a Acrópole, sob a justificação formal de protecção contra a ameaça persa. Os contributos das cidades aliadas, calculados sobre as suas capacidades fiscais e revistos pelos Atenienses periodicamente em Listas dos Tributos cuja epigrafia chegou até nós (IG I³ 259-272), financiaram a reconstrução do Pártenon entre 447 e 432 a.C. sob direcção de Fídias, Ictino e Calícrates. O Pártenon é, antes de tudo, um monumento à dominação imperial ateniense sobre as outras cidades gregas. Os defensores da restituição não mencionam este facto. Não podem mencioná-lo, porque a mobilização emocional que sustenta a sua causa depende de uma narrativa de pureza vitimizada que o registo histórico contradiz.

A “limpeza” de Klenze e a Carta de Veneza

O sítio que os restituicionistas reclamam como destino dos mármores é, ele próprio, o produto de uma reconstrução ideológica do século XIX. Leo von Klenze, arquitecto da corte bávara enviado a Atenas após a chegada do rei Otão em 1833, articulou em 1834 um programa de “limpeza” da Acrópole: tudo o que não conformasse com o ideal periclesiano deveria ser removido. Foram demolidos a mesquita otomana erguida dentro do Pártenon após 1687, os edifícios francos do Erechtheion, o Pyrgos veneziano (uma torre cuja construção remontava à dominação franca do século XV e que serviu de quartel-general otomano até 1875), as fortificações otomanas, os altares cristãos do período bizantino, e os depósitos arqueológicos pós-clássicos. O programa, conduzido por arqueólogos como Kyriakos Pittakys, Ernst Curtius e mais tarde Panagiotis Kavvadias, continuou durante todo o século XIX e XX. A Acrópole tornou-se um sítio Periclesiano artificialmente puro, despojado dos vinte e três séculos de história que a separavam do tempo de Fídias.

A Carta de Veneza, adoptada pelo segundo Congresso Internacional de Arquitectos e Técnicos de Monumentos Históricos a 31 de Maio de 1964 e que constitui ainda hoje o referencial doutrinal do ICOMOS (Conselho Internacional de Monumentos e Sítios), formulou em sentido contrário um princípio essencial da conservação patrimonial: os monumentos devem ser preservados nas suas várias camadas históricas, sem hierarquia entre épocas, e qualquer intervenção restauradora deve respeitar a integridade material e simbólica do conjunto. O artigo 11.º é explícito: “As valiosas contribuições de todas as épocas para a edificação de um monumento devem ser respeitadas, uma vez que a unidade de estilo não é o fim a alcançar no decurso de uma restauração.” A política de reconstrução da Acrópole grega, conduzida ininterruptamente desde 1834 até hoje pela Comissão para a Conservação dos Monumentos da Acrópole (ESMA, fundada em 1975 sob direcção sucessiva de Charálambos Bouras e Manolis Korres), violou e continua a violar o espírito e a letra deste princípio.

A continuação do programa restituicionista é, neste sentido, parte do mesmo movimento: completar a “limpeza” ideológica, devolver os mármores à pureza periclesiana, eliminar do registo a sua história moderna como objectos europeus, filelénicos e românticos. É uma operação que confunde restauração com falsificação. Os mármores do Pártenon, em sentido material, são fragmentos de um conjunto que foi sucessivamente templo de Atena Pártenos, igreja cristã ortodoxa (do século V ao XIII), catedral católica latina (do século XIII ao XV), mesquita otomana (de 1458 até 1687), arsenal otomano (do qual foi parcialmente destruído pelo bombardeamento veneziano de Francesco Morosini a 26 de Setembro de 1687) e, finalmente, ruína romântica. A história moderna dos mármores em Londres não é uma corrupção de uma pureza original. É um dos seus muitos capítulos.

O quiasma jurídico-moral

O caso jurídico dos restituicionistas é fraco e foi-se enfraquecendo. A firmã do Grão-Vizir Yusuf Ziya Pasha de Julho de 1801, autorizando os agentes de Elgin a “fazer desenhos, tomar moldes em gesso de figuras e fragmentos, e levar de lá pedras com inscrições antigas ou figuras”, está documentada na correspondência diplomática britânica e na tradução italiana feita em 1801 a partir do original turco, sendo a controvérsia académica sobre o estatuto jurídico do documento (firmã propriamente dita ou simples carta de recomendação) menos consequente do que a ausência de impugnação otomana à actuação de Elgin durante a década em que ela decorreu. O Acto do Parlamento britânico de 1 de Julho de 1816 (56 Geo. III c. 99), aprovado após inquérito parlamentar conduzido pelo Select Committee on the Earl of Elgin’s Collection of Sculptured Marbles, comprou a colecção por trinta e cinco mil libras (menos de metade do que Elgin tinha investido na operação) e transferiu-a para o Museu Britânico. O British Museum Act de 1963 (1963 c. 24), ainda em vigor, regula a alienação de objectos da colecção em termos que não permitem, sem nova legislação parlamentar, a transferência dos mármores para Atenas. A administração do Museu Britânico não pode legalmente devolver os mármores. Isto não é intransigência: é cumprimento da lei.

Reconhecendo a impossibilidade jurídica, os defensores da restituição deslocaram-se para o terreno moral. O argumento passou a ser que, independentemente da legalidade, há uma “justiça superior” a que os mármores devem ser restituídos. Trabucco coloca a questão crucial: como pode ser moral acusar Elgin de “roubo” sem prova documental do acto criminoso, contra testemunhos contemporâneos da autorização otomana, e contra um veredicto judicial que nunca existiu porque nunca foi instaurado processo? A acusação moral, neste registo, é o substituto retórico de uma acusação jurídica que não pode ser sustentada. Funciona porque mobiliza uma indignação visceral, mas a sua estrutura intelectual é frágil.

Mais grave é o uso selectivo do registo histórico. Os defensores da restituição apresentam a Grécia do tempo de Elgin como uma vítima silenciosa, sem voz, à qual foi imposto o saque imperialista britânico. Os documentos, e nomeadamente a correspondência dos representantes diplomáticos britânicos e franceses em Atenas durante o século XVIII e o início do XIX, mostram um cenário diferente: a maioria da população grega de Atenas tinha pouco interesse no Pártenon, que serviu sucessivamente como fonte de material de construção (a queima de mármores antigos para produção de cal foi prática corrente até ao século XIX) e como objecto de comércio de antiguidades em pequena escala. Elgin não foi o único a remover artefactos da Acrópole. O Conde Marie-Gabriel-Auguste-Florent de Choiseul-Gouffier, embaixador francês em Constantinopla até 1792, conseguiu fragmentos significativos do friso e das métopas que estão hoje no Louvre. Edward Daniel Clarke removeu uma das cariátides do Erechtheion em 1801, hoje no Fitzwilliam Museum de Cambridge. O Museu Britânico, ao contrário do que a retórica restituicionista sugere, não é um caso isolado. A diferença é a escala e a documentação, não a natureza da operação.

E quando Jonathan Williams, vice-director do Museu Britânico, afirma em Março de 2023 numa conferência em Atenas que “grande parte do friso foi de facto removida dos escombros à volta do Pártenon”, está a articular um facto documentado e logicamente consistente. Após o bombardeamento veneziano de 1687, o Pártenon ficou em ruínas. Durante mais de um século, fragmentos do friso, das métopas e dos frontões caíram ou foram retirados por viajantes, comerciantes de antiguidades e moradores locais. Quando Elgin chegou em 1800, encontrou um sítio cujos materiais estavam dispersos pelo chão, semi-enterrados ou em uso secundário. Não houve, neste sentido, uma “remoção” violenta do edifício original. Houve uma recolha sistematizada de fragmentos. A tentativa, vista no debate público britânico em 2023, de atacar Williams pessoalmente por ter afirmado um facto documentado é sintomática da preferência restituicionista pela narrativa sobre o registo.

Museus universais

A 9 de Dezembro de 2002, dezoito directores de museus universais (incluindo o Museu Britânico, o Louvre, o Metropolitan Museum of Art, o Hermitage, o Rijksmuseum, o Prado, a Antikensammlung de Berlim, o Cleveland Museum of Art, o Whitney, e outros) assinaram a Declaração sobre a Importância e o Valor dos Museus Universais. O documento articula o princípio segundo o qual os grandes museus universais existem para preservar e expor patrimónios de várias civilizações em conjunto, permitindo o estudo comparado, o diálogo cultural e a transmissão de conhecimento a públicos diversificados. A Declaração reconhece que muitas peças foram adquiridas em contextos hoje considerados problemáticos, mas defende que a sua função actual, no contexto da colecção universal, não pode ser substituída pela devolução pulverizadora a “origens” geográficas que, em muitos casos, são tão construídas como a colecção museológica que os recebeu.

O caso dos mármores do Pártenon não pode ser examinado em isolamento. Aplicado consistentemente, o princípio restituicionista desmantelaria as colecções permanentes da maior parte dos museus universais do mundo. As ânforas gregas escavadas no Sul de Itália estão no Met, no Louvre, no Museu Arqueológico Nacional de Atenas, no Museu Etrusco de Cerveteri. Para onde regressam? Para o sítio de escavação no território da Magna Grécia ou para Atenas, que reclama o helenismo? Os bronzes de Benim, removidos pelos britânicos em 1897, foram parcialmente devolvidos pela Alemanha em 2022 e pelo Reino Unido em fases sucessivas a partir de 2019. Mas o Reino do Benim moderno, na actual Nigéria, é uma jurisdição constituinte da federação nigeriana, e a sucessão jurídica entre o reino pré-colonial e o estado federal é matéria contestada. A repatriação reabriu, em vez de resolver, a questão da titularidade. Os artefactos de Maqdala, removidos pela expedição britânica de Robert Napier em 1868, foram devolvidos parcialmente à Etiópia a partir de 2002. Mas o Império Etíope de Tewodros II não é a República Democrática Federal da Etiópia moderna. A Pedra de Roseta, reclamada pelo Egipto desde 2003, foi descoberta em 1799 por Pierre-François Bouchard, um oficial francês ao serviço de Napoleão, e cedida aos britânicos pelo Tratado de Alexandria em 1801. Reclamá-la para o Egipto moderno é fingir que a égide ptolemaica do século II a.C. é continuamente egípcia em sentido nacional.

A questão da conservação não é menor. A Acrópole moderna é um sítio exposto à poluição atmosférica de Atenas, com partículas de dióxido de enxofre e óxidos de azoto que reagem com o mármore pentélico produzindo erosão acelerada. O sítio recebeu, em 2023, mais de três milhões e quinhentos mil visitantes anuais, em pico de afluência turística desde os Jogos Olímpicos de 2004. A decisão grega de 1976 de transferir parte das esculturas para o museu coberto foi uma resposta tardia à degradação acelerada de peças expostas. O Museu Britânico, com a Sala dos Mármores (Sala 18) montada na Galeria Duveen desde 1939 e reaberta após a Segunda Guerra Mundial, oferece um ambiente climatizado, com humidade controlada e exposição a uma luz filtrada que minimiza a alteração da superfície. A garantia material de preservação dos mármores em Londres é, neste plano, superior à oferecida pelo sítio original.

O risco para as autonomias

Para um observador autonomista a debruçar-se sobre esta matéria a partir das ilhas atlânticas portuguesas, a questão do património ganha uma dimensão específica. Aplicado consistentemente, o princípio restituicionista colocaria em causa a maioria dos arquivos e colecções de história regional dispersos pelas instituições centrais, europeias e globais. Os Estatutos da Capitania do Funchal, os documentos da Inquisição relativa aos cristãos-novos da Madeira e dos Açores, as portarias régias que regularam as comunicações marítimas atlânticas, as cartografias dos descobrimentos e as colecções de heráldica madeirense e açoriana encontram-se hoje dispersos entre a Torre do Tombo, a Biblioteca Nacional de Lisboa, o Archivo General de Indias em Sevilha, o Arquivo Apostólico Vaticano e a British Library. As peças móveis da herança católico-portuguesa em Goa e no Brasil, os documentos relativos à administração de Macau, os artefactos remontando à passagem portuguesa pela África Oriental, encontram-se em museus europeus e americanos. O princípio restituicionista, aplicado às regiões autónomas portuguesas, exigiria a transferência de centenas de milhares de documentos e objectos para o Funchal e Ponta Delgada.

O argumento não é que a descentralização patrimonial seja indesejável. Há razões fortes para defender o reforço institucional das regiões autónomas no plano arquivístico e museológico, e há precedentes válidos para a constituição de acervos regionais especializados a partir de cópias certificadas, digitalizações de alta resolução e depósitos selectivos de documentação. O argumento é que a aplicação do princípio requer uma articulação institucional cuidada que o caso grego dos mármores do Pártenon não oferece. O Museu da Acrópole foi construído em 2009 com a expectativa de que a pressão diplomática e mediática forçaria a transferência. Esta é uma estratégia de fait accompli: construir o destinatário primeiro, depois reclamar o conteúdo. Aplicada aos arquivos regionais portugueses, equivaleria a construir um museu hipotético da heráldica madeirense em Câmara de Lobos antes de obter a autorização da Biblioteca da Ajuda. A ordem importa. As instituições devem preceder os argumentos, e os argumentos devem preceder os pedidos. O caso grego inverteu a sequência, e a pressão sobre o Museu Britânico tem-se desenvolvido contra essa inversão.

Verdade aristotélica contra amizade emotiva

Trabucco, no encerramento do seu artigo, evoca o princípio aristotélico segundo o qual a verdade histórica deve prevalecer sobre uma amizade emotiva. A referência é à passagem do livro I da Ética a Nicómaco em que Aristóteles, ao desenvolver a sua crítica à teoria platónica das ideias, declara que apesar do afecto que tem pelos seus mestres é seu dever, na busca da verdade, sacrificar mesmo o que lhe é caro: ἀμφοῖν γὰρ ὄντοιν φίλοιν ὅσιον προτιμᾶν τὴν ἀλήθειαν (sendo ambos amigos, é piedoso preferir a verdade). A fórmula, traduzida na Idade Média latina como amicus Plato, sed magis amica veritas, tornou-se princípio reitor de toda a investigação que recusa o emotivismo. Aplicado aos mármores do Pártenon, o princípio é claro.

Os mármores não são propriedade de uma identidade. Não são propriedade da nação grega moderna, que não existia quando foram esculpidos. Não são propriedade do Império Otomano que os tutelava em 1801 e que já não existe. Não são propriedade de Lord Elgin, que os removeu e os vendeu ao Estado britânico em 1816. Não são, em rigor, propriedade do Museu Britânico, que os guarda desde então. São, no sentido em que o património humano partilhado pode ser dito de alguém, propriedade de todos os que se debruçam sobre eles para compreender o mundo que os produziu, o mundo por onde passaram, e o mundo em que hoje os contemplamos.

Devolvê-los a Atenas em nome de uma reunificação simbólica seria perder uma parte da sua história. Seria perder a história de Keats e de Byron, a história de Westmacott e Flaxman, a história do filelenismo europeu que ajudou a tornar possível a Grécia moderna, a história da arqueologia científica que neles fundou o seu método. Seria também perder a história das suas camadas pós-clássicas, da igreja cristã ortodoxa, da catedral latina, da mesquita otomana, do bombardeamento veneziano, da romântica admiração europeia pelas ruínas. Seria reduzi-los a uma identidade única, fabricada no século XIX e instrumentalizada no século XXI.

Que permaneçam em Bloomsbury. Que contem aí, como têm contado desde 1807, a história plural e fragmentária que é a sua. Que continuem a fundamentar a ciência arqueológica, a inspirar poetas, a confrontar visitantes com a sua materialidade rugosa e imperfeita. Que resistam à tentação atenocêntrica, à narrativa de pureza vitimizada, ao mito nacionalista que precisa de devorá-los para se alimentar. A escolha aristotélica, entre a amizade emotiva por um país e a verdade histórica de um objecto, está feita há mais de dois séculos. Quem agora a quer reverter, em nome de uma justiça que se diz moral mas que se serve da emoção contra o registo, está a pedir uma operação que a história sempre, com discreta paciência, recusou.

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