Tolkien deu-lhes o nome certo. Os palantíri, as pedras videntes de «O Senhor dos Anéis», mostravam o que se passava a léguas de distância, mas enganavam quem as fitava e, nas mãos erradas, punham-se ao serviço do poder que deviam vigiar. A empresa que escolheu esse nome, a Palantir, é hoje o instrumento mais acabado de uma ordem que chama o tecno-feudalismo.
O que é o tecno-feudalismo
O economista Yanis Varoufakis, em «Technofeudalism: What Killed Capitalism» (2023), sustenta que o capitalismo foi substituído por um sistema em que o lucro cedeu o primeiro lugar à renda: já não se ganha sobretudo por produzir e vender em concorrência, ganha-se por controlar a infraestrutura por onde todos os outros são obrigados a passar, e cobrar-lhes portagem. A tese é discutível, e há economistas sérios que preferem falar de uma fase do capitalismo e não da sua morte. Mas a matéria de facto sobre que assenta não é discutível. Segundo a Oxfam, em janeiro de 2026, a riqueza dos bilionários subiu 16% num só ano, para 18,3 biliões de dólares, o número de bilionários passou os três mil, e a projeção é de cinco trilionários dentro de uma década, tendo Elon Musk sido o primeiro ser humano a ultrapassar meio bilião de dólares de património. Chamar «senhorio» a quem cobra renda sobre a vida dos demais pode ser retórica. Que exista uma classe que atingiu esta escala de concentração não é retórica nenhuma. É um número.
O que falta à maioria dos comentários é o elo entre a concentração e o instrumento. Se o tecno-feudalismo tem uma ferramenta emblemática, é a Palantir, e importa por factos, não por caricatura.
A Palantir como instrumento
A Palantir, fundada em 2003, tendo Peter Thiel entre os cofundadores e Alexander Karp como presidente executivo, vende ao Estado e às empresas as plataformas que integram e leem os seus dados. Em abril de 2025, adjudicou-lhe o serviço de imigração norte-americano, o ICE, um contrato de cerca de 30 milhões de dólares para construir o «ImmigrationOS», sistema que cruza registos fiscais, dados da Segurança Social, matrículas automóveis, vistos e leituras de câmaras de matrículas para identificar e priorizar pessoas a deter e a expulsar. Uma ferramenta associada, documentada, chega a recorrer a dados de saúde para localizar quem é visado. Treze antigos trabalhadores da própria empresa assinaram uma carta a condenar o trabalho. Não é ficção distópica: é procurement público, com número de contrato e data.
O mesmo padrão repete-se, com clientes diferentes. No Reino Unido, a Palantir ganhou o contrato da plataforma federada de dados do Serviço Nacional de Saúde, no valor de cerca de 330 milhões de libras, entregando a uma empresa privada de vigilância e defesa a espinha informática da saúde de milhões de pessoas; em 2026, a comissão parlamentar de Ciência, Inovação e Tecnologia instou o Governo a acionar a cláusula de rescisão prevista para 2027, depois da oposição de deputados, sindicatos, médicos e de dezenas de milhares de utentes. Na Austrália, a mesma empresa entrou no Departamento de Defesa, na banca e nos supermercados: a cadeia Coles contratou-a em 2024 para, entre outras coisas, gerir escalas de pessoal e otimizar custos, e uma campanha cívica, a da GetUp, juntou dezenas de milhares de assinaturas a pedir que a tecnologia de grau militar saísse do retalho alimentar. A Coles responde que os dados estão sob o seu controlo exclusivo, e é justo registá-lo. Mas o ponto não desaparece com a resposta: a mesma infraestrutura que ajuda um Estado a caçar migrantes ajuda uma cadeia a espremer a folha salarial dos seus trabalhadores. O senhor da gleba mudou de fato. A relação não mudou.
A fronteira mais grave
Está documentado que a Palantir firmou, no início de 2024, uma parceria estratégica com o Ministério da Defesa de Israel. A partir daí, várias organizações de direitos humanos e diversas reportagens associam a sua tecnologia aos processos de seleção de alvos das forças israelitas, ao passo que o Tribunal Penal Internacional e vários juristas consideraram existir prova credível de crimes internacionais na conduta militar em Gaza. A Palantir nega desenvolver esses sistemas de seleção automática de alvos, e essa negação faz parte do processo. Não afirmo, porque não está estabelecido, que a empresa seja juridicamente responsável por crimes concretos. Afirmo o que basta para o argumento e é indesmentível: quando a decisão sobre quem vive e quem morre passa a correr, no todo ou em parte, dentro de sistemas opacos vendidos por privados, a cadeia de responsabilidade dilui-se exatamente onde mais deveria apertar. E a diluição da responsabilidade é a assinatura do feudalismo, não da Democracia.
Convém, chegados aqui, dar ao adversário a sua melhor defesa, porque a honestidade do argumento depende disso. A Palantir sustenta que mantém uma equipa interna de privacidade e liberdades civis, que Karp tem repetido que as decisões de política pública cabem a «representantes eleitos e juízes, não a engenheiros», e que nenhum dirigente deve permitir que os seus produtos sejam usados ilegalmente. Dir-se-á, com alguma razão, que a empresa fornece ferramentas e que o uso é dos Estados soberanos que a contratam; que a integração de dados também salva vidas, deteta fraude e organiza serviços; e que recusar a tecnologia não faz desaparecer a procura por ela. Tudo isto tem peso e nenhum comentário sério o deve ignorar. Mas nada disto responde à questão central, que não é técnica, é de quem manda. Uma coisa é o Estado usar uma ferramenta e responder por ela perante os tribunais e os eleitores; outra é o Estado tornar-se dependente de uma infraestrutura privada que não domina, não audita por inteiro e não sabe substituir. A primeira é administração. A segunda é vassalagem.
A ideologia do tecno-feudalismo, posta por escrito
E não é preciso adivinhar a filosofia dos donos, porque eles a escreveram. Peter Thiel deixou-o por escrito, em 2009, num ensaio publicado pelo Cato Institute: «já não acredito que a liberdade e a democracia sejam compatíveis.» A frase é dele, é citável, e é o programa. Alexander Karp, por seu turno, adotou como divisa uma sentença de Samuel Huntington, a de que o Ocidente se impôs «não pela superioridade das suas ideias ou valores, mas pela sua superioridade na aplicação de violência organizada», e faz dela, no seu livro «The Technological Republic» (2025), o argumento para uma aliança mais estreita entre o poder tecnológico e o poder militar. Não estou a imputar-lhes intenções. Estou a citá-los. Quando os senhores da “nova ordem” dizem, com todas as letras, que a liberdade que lhes interessa não é a da democracia e que o que conta é a superioridade na violência, o mínimo que um cidadão pode fazer é levá-los a sério.
O tecno-feudalismo é uma construção fiscal
O tecno-feudalismo é, antes de tudo, uma construção fiscal. O trilionário não é um fenómeno da natureza; é o produto de décadas de escolhas tributárias que deixaram o rendimento praticamente por tributar, que premiaram a acumulação de ativos sobre o rendimento do trabalho, que toleraram a erosão da base tributável através da mobilidade e da opacidade, e que trataram a concorrência fiscal como virtude quando era, no essencial, uma corrida para o fundo. A mesma ordem que financia sistemas para vigiar o migrante e o trabalhador do supermercado é a ordem que não consegue, ou não quer, tributar o rendimento no topo. O feudalismo medieval isentava o senhor e onerava o servo; o tecno-feudalismo faz o mesmo com outra folha de cálculo. Não há democracia com um Estado que perdeu a capacidade de tributar quem mais tem e de saber onde estão os seus próprios dados.
soberania digital
A boa notícia é que a resposta ao tecno-feudalismo existe e já começou. A França decidiu substituir a Palantir, nos seus serviços de informações, por uma solução nacional, a ChapsVision, numa transição faseada que a Alemanha, nos seus próprios serviços, também escolheu. Chama-se a isto soberania digital, e é a versão contemporânea de uma ideia antiga: um Estado que não controla a infraestrutura de que depende não é plenamente soberano. O Reino Unido discute retirar a Palantir da saúde. A sociedade civil australiana pressiona para a tirar do retalho. Nenhuma destas reações é ingénua, e nenhuma é anti-tecnológica. São afirmações de que a decisão sobre a infraestrutura crítica pertence à comunidade política, não ao fornecedor. E a arquitetura da resposta é conhecida, para quem a quiser construir: tributar a renda e não apenas o trabalho; exigir soberania e auditabilidade nos contratos públicos de dados, com cláusulas de saída e propriedade pública do código essencial; interditar que serviços vitais, saúde, justiça, fronteiras, fiquem reféns de uma única infraestrutura privada estrangeira; e submeter toda a decisão automatizada que afete direitos a controlo judicial efetivo. Nada disto é utopia. É a velha função do Estado de direito, aplicada ao século em que vivemos.
O feudalismo não regressa com brasões nem com muralhas. Regressa com um contrato de dados que ninguém leu até ao fim. Regressa com um algoritmo que decide quem é detido e a quem se corta o subsídio. Regressa quando a saúde de um país passa a correr no software de quem vende armas, e quando um supermercado vigia quem lá trabalha com a mesma ferramenta com que um exército escolhe alvos. Regressa, sobretudo, quando nos convencem de que é inevitável, de que a alternativa é o atraso, de que mais vale um bom senhor do que nenhum. Não é inevitável, e não é verdade. A liberdade que importa nunca foi a de um punhado exercer poder sobre os demais, por mais videntes que sejam as suas pedras. É a que se exerce em comum, sob leis iguais, perante juízes que respondem e representantes que se destituem. Ao contrário do que escreveu Thiel, não há liberdade sem democracia. Há apenas senhores, servos, e uma pedra que promete mostrar tudo enquanto nos esconde a única coisa que importa: quem, ao certo, ficou a mandar.

